Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Era bem comum no Maracanã, ali por aqueles meados de anos 80. Em todos os jogos do Bangu no estádio – e na época eram frequentes – um grupo considerável de torcedores, não só banguenses como também alvinegros, rubro-negros, tricolores ou cruzmaltinos, pagava o ingresso para ficar na geral, ali bem perto do lado direito do ataque alvirrubro. No segundo tempo, a turma toda dava a volta e trocava de lado. Iam todos ver Marinho, o camisa 7 do time de Moça Bonita.

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Jogador irreverente, representante da quintessência do chamado “futebol moleque”, mas que além do drible insinuante também sabia fazer ótimos cruzamentos, dar passes precisos e finalizar, era uma das maiores atrações dos estádios cariocas da época. Para os mais velhos, parecia que estavam de novo vendo Garrincha em campo. E com o velho Mané, além da camisa, da posição, do gosto pelo drible e do jeito divertido, afeito às piadas e brincadeiras com os companheiros, Marinho – que completou 60 anos nesta terça-feira – também teve a triste semelhança de uma história de vida marcada por tragédias.

Nascido em Belo Horizonte, numa área muito pobre do bairro de Santa Efigênia, Marinho era o caçula de sete irmãos e cresceu sem pai, criado pela mãe, dona Ifigênia, dividindo a casa modesta ainda com seis primos, 14 pessoas sob o mesmo teto. Na infância, Marinho trabalhou como engraxate. Circulando solto o dia inteiro pelas ruas da capital mineira, aos nove anos já dava seus primeiros tragos em copos de cachaça e cometia pequenos furtos. Enquanto isso, para sustentar a família, a mãe dava expediente como lavadeira no Hospital Militar. Depois de lençóis, toalhas e fronhas, mais tarde acabou lavando cadáveres.

Percebendo o caminho errado que o menino tomava, dona Ifigênia o internou num reformatório da PM em Pirapora (MG). Três anos depois, sairia de lá com cicatrizes das muitas surras que tomou. Levado para um teste no dente de leite do Atlético, seu clube de coração, foi aprovado. Em sua estreia, foi escolhido o melhor em campo e ganhou uma bicicleta. Mas nem conseguiu festejar: na véspera, sua irmã mais velha, Irene, de 21 anos, morrera atropelada na calçada de casa. Era ela quem costumava leva-lo aos treinos.

A redenção pela bola

Lançado entre os profissionais do Galo no início de 1975, aos 17 anos, por Telê Santana, disputou no mesmo ano o Campeonato Sul-Americano Sub-20 no Peru em 1975 com a Seleção Brasileira dirigida por Zizinho. No ano seguinte seria a vez dos Jogos Olímpicos de Montreal, em trabalho novamente iniciado pelo Mestre Ziza e levado adiante por Cláudio Coutinho, terminando na quarta colocação.

atlético-mg 1976 II

A conquista invicta do Campeonato Mineiro de 1976, decidido apenas em abril do ano seguinte, encerrou um período de hegemonia do Cruzeiro e chamou a atenção do país para a talentosa geração de garotos lançada pelo Galo treinado por Barbatana, antigo responsável pela peneira do clube. Junto a Reinaldo, Cerezo, Ângelo, Marcelo e Paulo Isidoro, lá estava Marinho na ponta-direita, com seu futebol de dribles insinuantes, velocidade e cruzamentos na medida.

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A fama, no entanto, não o fez bem. Perdido entre bebida, cigarro e noitadas, foi barrado por Barbatana enquanto assistia a muitos de seus colegas serem chamados para a Seleção principal. Encostado, sem espaço no clube, acabaria negociado em 1978 com o América de São José do Rio Preto-SP, trocado por outro ponta-direita, Pedrinho. No clube do interior paulista reencontrou Barbatana. Só que em vez de atritos, teve no treinador e no clube – na época pródigo por reabilitar jovens talentos – sua salvação.

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Depois de três grandes temporadas no América, pelas quais chegou a ser convocado por Telê Santana para a Seleção Brasileira de novos que disputaria o tradicional Torneio de Toulon em 1980 (atuando ao lado de jogadores como Mauro Galvão, Biro-Biro, Cristóvão e Baltazar), chamou a atenção de vários grandes clubes, Marinho viu a roda da vida girar ao acertar seu retorno ao Atlético por empréstimo no início de 1982. Mais experiente, tinha a chance de provar seu talento. Disputou como titular o Campeonato Brasileiro e acreditava que poderia enfim ganhar uma chance na seleção principal, com o mesmo Telê. Mas a oportunidade não veio, e o ponta se deixou abater, passando à reserva novamente.

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Findado o empréstimo, retornou ao América. Até o Bangu bater à porta do clube com uma proposta pelo ponta. Numa negociação demorada, o desfecho só veio quando o bicheiro e dirigente banguense Castor de Andrade agiu bem a seu estilo: “Ele veio, botou o revólver em cima da mesa, e o negócio saiu”, relembrou Marinho em entrevista à Placar. Por 40 milhões de cruzeiros mais o passe de dois jogadores, o ponta trocava o interior paulista pelo Rio de Janeiro.

A chegada a Moça Bonita

Marinho e o time do Bangu tiveram desempenho discreto no primeiro semestre de 1983, mas embalaram na segunda metade do ano, quando o ex-zagueiro Moisés, o Xerife, substituiu Jorge Vieira no comando do time, que já contava com uma boa base: incluía o zagueiro Tecão (ex-São Paulo), o volante Mococa (ex-Palmeiras), os meias Arturzinho e Mário, o centroavante Fernando Macaé e o jovem ponta-esquerda Ado. Com esse elenco, o clube da Zona Oeste partiria para fazer a primeira de uma série de grandes campanhas no Estadual naquele período.

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Na Taça Guanabara, os alvirrubros chegaram a golear o Flamengo por implacáveis 6 a 2, terminando o turno na terceira posição. Na Taça Rio, após uma atuação magistral de Marinho contra o forte time do America, com direito a golaço de cobertura na vitória por 3 a 1, estiveram bem perto do título: na penúltima rodada, um empate contra o mesmo Flamengo deixaria a taça encaminhada. Mas os rubro-negros venceram por 3 a 1, forçando um jogo extra, o qual também ganhariam por 1 a 0, gol de Adílio.

Mesmo assim, o Bangu se classificou para o triangular final contra a dupla Fla-Flu. Era disparado o melhor time do torneio, na soma dos dois turnos. No primeiro jogo da etapa decisiva, empatou com o Flu em 1 a 1. Após os tricolores vencerem os rubro-negros por 1 a 0 no meio da semana, foram para o terceiro jogo dependendo de uma vitória contra o time da Gávea, já sem chances. Mas o Fla, ainda mordido pela goleada, venceu por 2 a 0 e entregou a taça ao Fluminense.

A conta da primeira decepção veio na temporada seguinte, quando o clube cumpriu campanha nitidamente inferior. Surpreendentemente eliminado ainda na primeira fase do Campeonato Brasileiro num grupo considerado acessível, o Bangu também não chegou a brigar pelo título estadual (apesar de terminar num bom quarto lugar).

Mas o futebol de Marinho brilhou na conquista da President’s Cup, torneio disputado na Coreia do Sul em maio e junho daquele ano. Nas semifinais, diante do Bayer Leverkusen, marcou o gol banguense no empate em 1 a 1 e converteu o pênalti decisivo na disputa que levou o time à final. E, no Carioca, os destaques foram suas atuações nos dois jogos contra o Vasco. No primeiro, uma goleada de 4 a 0, além de infernizar os marcadores pela ponta direita, deu a assistência para um dos três gols de Cláudio Adão. Já na Taça Rio, marcou os dois gols na vitória por 2 a 1. Era uma prévia do grande ano que viveria a seguir.

O melhor ano da carreira

Marinho era uma criança grande. Analfabeto até os 23 anos, aprendeu a ler com a esposa Tânia. Em agosto de 1984, pulou nas fortes e traiçoeiras águas da praia da Barra da Tijuca e foi levado pela correnteza. Só escapou de se afogar ao ser salvo por Cláudio Adão e pelo goleiro Nardo. Além de batizar praticamente todos os colegas de clube com apelidos, inventava brincadeiras como a de aparecer para treinar fantasiado de múmia, enrolado em ataduras. E era um ídolo do povo, acessível. Ao descobrir uma família de mineiros morando na Vila Vintém, perto de Padre Miguel, fez amizade e passou a frequentar a casa dos conterrâneos para um bom papo e cerveja gelada.

marinho mercedes

No começo de 1985, Marinho havia se mudado com a família para uma ampla mansão em Jacarepaguá, presente de Castor de Andrade. Em retribuição ao mimo, faria uma temporada espetacular com a camisa alvirrubra. Começando pelo Campeonato Brasileiro, que naquele ano teve 40 equipes divididas em quatro grupos, dois deles reunindo os 20 melhores clubes do ranking nacional (A e B) e outros dois com alguns campeões estaduais de estados menos fortes e outros clubes de expressão que não entraram nas chaves “dos grandes” (C e D).

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Incluído no grupo D, o Bangu teve como principal adversário na primeira fase a Ponte Preta. Os dois terminaram o primeiro turno empatados em todos os critérios (no sorteio, os alvirrubros ficaram com o primeiro lugar). No segundo, o time carioca superou o ascendente Brasil de Pelotas no saldo de gols, com os campineiros vindo na terceira colocação. Nesta primeira fase, mesmo sem os mesmos holofotes dos grupos dos grandes, Marinho já veio arrebentando: disputou 18 partidas e marcou nove gols, vários deles os de vitórias.

Entre a primeira fase e a segunda, houve uma pausa para que a Seleção Brasileira disputasse as Eliminatórias. No começo de julho, após ir novamente à Coreia do Sul para jogar a President’s Cup (ficou em terceiro, invicto) e fazer amistosos pelo Oriente Médio, o Bangu estava de volta para a etapa seguinte do Brasileiro. O grupo era difícil e só um avançava às semifinais. Do bloco dos grandes, vinham os fortes times do Vasco (de Roberto Dinamite, Geovani, Mauricinho e de um garoto recém-promovido chamado Romário) e do Internacional (de Mauro Galvão, Luís Carlos Winck e do uruguaio Rubén Paz). Completava a chave o surpreendente Mixto, de Cuiabá, terceiro classificado no outro grupo “dos pequenos”, atrás apenas de Sport e Ceará.

Só que o Bangu não tomou conhecimento da força dos adversários: após empatar com o Inter no Maracanã na estreia (1 a 1), goleou o Mixto em Cuiabá (4 a 1) e bateu o velho conhecido Vasco (2 a 0). No returno, depois de um tropeço inesperado diante dos mato-grossenses em Moça Bonita (1 a 1), o time jogaria contra o Vasco de olho em manter também sua escrita recente – entre 1983 e 1986, os banguenses ficaram dez jogos oficiais sem perder para os cruzmaltinos, com seis triunfos e quatro empates. E conseguiu (3 a 1), graças ao futebol exuberante de Marinho, autor do primeiro e do terceiro gols e do passe para o segundo, marcado com categoria por Mário.

Na última rodada, no domingo, 21 de julho, o Bangu jogava pelo empate contra o Inter no Beira Rio. Saiu na frente com gol de João Cláudio e sofreu o empate com gol do lateral André Luís. Mas no segundo tempo, Marinho cobrou falta com perfeição e selou a quarta vitória banguense naquele grupo, além da classificação. Curiosamente, a partida seguinte também seria em Porto Alegre, mas no Olímpico, agora a casa do Brasil de Pelotas, surpreendente classificado no grupo em que também estavam o Flamengo (favorito), o Bahia (sensação da primeira fase) e o Ceará.

O Bangu novamente não se intimidou com a atmosfera criada pelos torcedores xavantes. Venceu na capital gaúcha (1 a 0) e também no Maracanã (3 a 1), assim como já havia derrotado o Brasil em Pelotas e em Moça Bonita na primeira fase, inclusive pelos mesmos placares. Na partida do Maracanã, Marinho esteve impossível, imarcável. Foi uma atuação de antologia, coroada com dois gols, o primeiro numa meia-bicicleta e o segundo recebendo um passe de calcanhar de Mário.

Na decisão contra o Coritiba, numa noite de quarta-feira, mais uma vez os torcedores dos quatro grandes cariocas se juntaram aos banguenses nas arquibancadas do Maracanã. Os mais de 91 mil presentes silenciaram com o gol dos paranaenses que abriu o placar, numa cobrança de falta de Índio que desviou no rosto do zagueiro Jair. Depois vibraram com o empate em gol de Lulinha, também com desvio que enganou o goleiro Rafael. Na etapa final, João Cláudio acertou a trave. E aos 40 minutos, veio o lance que poderia ter mudado toda a história do campeonato.

Marinho recebeu lançamento primoroso de Mário, avançou com a bola dominada, driblou o goleiro e tocou por entre as pernas do zagueiro Gomes, postado quase em cima da linha. O ponta correu para o abraço. O bandeirinha Osvaldo Campos correu para o centro do campo. Mas, depois de alguns segundos, o árbitro Romualdo Arppi Filho anulou o gol por conta própria, apontando impedimento do camisa 7 na jogada.

Nos pênaltis, Marinho converteu o seu, o último do Bangu na série normal. Mas nas cobranças alternadas, o jovem ponta-esquerda Ado, 21 anos, chutou para fora, enquanto Gomes marcou para os coxa-brancas, que celebraram o título diante de um Maracanã incrédulo. Como consolo, restou a Marinho a aclamação unânime. Eleito o craque do campeonato, recebeu da revista Placar a Bola de Ouro. Foi o único atleta a superar a nota 8 como média.

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A derrota traumática na decisão do Brasileiro não deteve Castor de Andrade, que reforçou o time para o Estadual trazendo de volta o meia Arturzinho (após passagens por Vasco e Corinthians) e o centroavante Cláudio Adão (que também andara por São Januário no primeiro semestre). Nem abalou o futebol de Marinho. Ausente por lesão nas quatro primeiras rodadas da Taça Guanabara, voltou marcando gol no empate em 2 a 2 com o Fluminense. Se os tricolores aproveitaram os tropeços dos rivais para conquistar o turno até com certa folga, no segundo o Bangu voltou a dar as cartas, seguido de perto pelo Flamengo.

Marinho seguiu marcando gols cruciais para a campanha alvirrubra. Fez o segundo na vitória por 2 a 1 diante do Flu e o dedicou à modelo Luíza Brunet, a recém-instituída “musa” do clube. Outro gol fundamental veio contra o Bonsucesso, o da vitória por 1 a 0 aos 41 minutos do segundo tempo, num domingo de manhã no alçapão rubroanil de Teixeira de Castro – este, dedicado à esposa Tânia.

bola de ouro

Na última rodada, no entanto, um empate com o Botafogo (antepenúltimo colocado daquela Taça Rio) decretou novamente uma partida extra contra o Flamengo pelo título do turno – e, como dois anos antes, deu Fla 1 a 0, gol de Adílio. Mesmo assim, o Bangu ficou outra vez com a vaga no triangular pela maior soma de pontos nos dois turnos. E ficou bem perto da taça principal quando, depois de um empate no Fla-Flu inaugural do triangular, teve sua revanche contra o Flamengo, vencendo por 2 a 1, com gols de Marinho e Arturzinho.

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E era de um empate que o Bangu precisava no terceiro e último jogo do triangular, contra o Fluminense, para conquistar um título que enfim coroasse seu grande futebol apresentado em 1985. Melhor ainda se fosse por intermédio de Marinho, seu craque maior. E era justamente isso o que estava acontecendo no intervalo da partida. Os alvirrubros venciam por 1 a 0, gol marcado pelo ponta em cabeçada após cobrança de falta lateral para a área.

No segundo tempo, no entanto, o time cairia de rendimento, dando a chance ao Fluminense de empatar o jogo com Romerito (em posição duvidosa) e virar em falta cobrada pelo ponta-esquerda Paulinho. Mas haveria um último ato em mais um desfecho triste. Aos 45 minutos, Marinho percebeu Cláudio Adão avançando livre e lançou o centroavante, que foi parado dentro da área com uma “gravata” do zagueiro Vica. O árbitro José Roberto Wright já se virava para apitar o fim do jogo no centro do campo e ignorou a penalidade. Formou-se uma enorme confusão, com troca de agressões até dentro do túnel para os vestiários. Mas, no fim das contas, novamente o Bangu e Marinho acabavam sem o troféu.

Mágoa na Seleção e título na Taça Rio

O ano de 1986 foi um grande anticlímax para ele e para o clube. O Bangu nem chegou perto de brigar pelo título dos dois turnos do Estadual, naufragou na primeira fase da Taça Libertadores da América (o técnico Moisés pagaria com o cargo) e ainda acabou eliminado precocemente, antes mesmo das oitavas de final, no Campeonato Brasileiro. Mesmo assim, Marinho foi convocado para a Seleção Brasileira por Telê Santana para os amistosos de preparação para a Copa do Mundo do México.

marinho seleção

O ponta disputou duas partidas: entrou no lugar de Müller na derrota por 2 a 0 para a Alemanha Ocidental em Frankfurt em 12 de março e foi titular do ataque ao lado de Careca e Edivaldo na vitória por 3 a 0 sobre a Finlândia em Brasília, em 17 de abril. Marcou inclusive o primeiro gol do jogo, de cabeça – seu único pela seleção principal, ironicamente no estádio que levava o nome de Mané Garrincha. O corte da lista final para o Mundial gerou muita mágoa, afogada mais uma vez no álcool, eclipsando seu futebol pelo resto daquele ano.

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Em 1987, porém, Marinho parecia renascido. Com a chegada do técnico Pinheiro ao Bangu após a Taça Guanabara, o time voltou a engrenar, jogando como em seus melhores dias de dois anos antes. Atuando com mais liberdade dentro do esquema, o ponta voltava a destruir defesas adversárias ao longo do returno. O título veio de forma invicta, com 10 vitórias e três empates, no dia 14 de junho. Os alvirrubros passaram por cima do Botafogo: aos cinco minutos de jogo já venciam por 2 a 0, com Marinho abrindo a contagem e depois servindo Arturzinho para ampliar. O placar final de 3 a 1 foi fechado na primeira etapa. E o time enfim partia para a tão ansiada volta olímpica, de troféu na mão.

No segundo semestre, o Bangu disputou o Módulo Amarelo do Campeonato Brasileiro e conquistou a vaga para as semifinais como campeão de seu grupo no segundo turno. Para isso, precisou disputar um jogo extra contra o Vitória, com quem havia terminado empatado em pontos. No tempo normal, empate em 1 a 1, gol de Marinho. E nos pênaltis os cariocas venceram por 4 a 3, novamente com Marinho convertendo a cobrança que selou a classificação. Nas semifinais, no entanto, mesmo marcando nas duas partidas contra o Sport, o ponteiro viu o Bangu ser eliminado após vencer por 3 a 2 em Moça Bonita e perder por 3 a 1 em jogo muito tumultuado na Ilha do Retiro.

Nova tragédia familiar e início do fim da carreira

No início do ano seguinte Marinho seria envolvido numa negociação um tanto insólita – ainda que simbólica daqueles tempos – entre o Bangu e o Botafogo: Castor de Andrade cederia os passes do ponta-direita, do zagueiro Mauro Galvão e do meia-atacante Paulinho Criciúma em troca de pontos de jogo do bicho espalhados pelo Rio de Janeiro que pertenciam a Emil Pinheiro, “patrono” alvinegro. Em Marechal Hermes, o trio se juntaria a um elenco fortíssimo, que já incluía nomes como Josimar, Wilson Gottardo, Cláudio Adão e Éder Aleixo.

Mas, pelo menos naquela temporada, aquele time não engrenou: o Botafogo sequer ficou entre os quatro melhores na soma dos dois primeiros turnos do Campeonato Carioca, que avançariam para a terceira etapa da competição, e passou todo o Campeonato Brasileiro, até a última rodada, brigando para escapar do rebaixamento. Sua única alegria pelo clube veio em agosto, na conquista do Torneio Ciutat de Palma de Mallorca, quando depois de derrotar o Boca Juniors na semifinal, o Alvinegro venceu o Barcelona treinado por Johan Cruyff na decisão por 1 a 0, gol de Marinho.

marinho cigarro

Para o ponta, o ano foi ainda mais doloroso e seria o baque definitivo em sua carreira, por mais uma tragédia familiar. No Carnaval, enquanto dava entrevista a uma emissora de TV, seu filho caçula, Marlon, de um ano e sete meses, caiu na piscina de sua mansão em Jacarepaguá, longe dos olhares de todos, e morreu afogado. Marinho sumiu de casa e do clube por nove dias. Ao voltar, entrou progressivamente numa espiral de bebida, problemas disciplinares e familiares. Separou-se da esposa, abandonou os treinos, saiu de casa e passou a morar em seu Mercedes-Benz, recordação do auge da carreira.

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Retornou inúmeras vezes ao Bangu, a primeira delas no segundo semestre de 1989, para a disputa da Série B do Brasileiro, e a última no Campeonato Carioca de 1997, já perto de completar 40 anos, quando era apenas uma relíquia de tempos gloriosos do clube e entrava no fim das partidas. Entre idas e vindas por Moça Bonita, também passou mais uma vez pelo América de São José do Rio Preto e até pelo boliviano San José de Oruro – sua única experiência no exterior.

Enfrentando uma luta constante contra o alcoolismo e as dificuldades financeiras, Marinho casou-se novamente e teve outros filhos. Foi convidado para treinar as categorias de base do Ceres, o outro clube profissional do bairro de Bangu. Recebeu ainda uma homenagem dos alvirrubros quando o clube aposentou sua camisa 7. E foi amparado por amigos com algumas partidas beneficentes entre times de másters. E é reconhecido e admirado até hoje no bairro, onde ainda mora.

Em entrevista de 2009 ao jornal Extra, mesmo ao comentar as dificuldades o ex-ponta preferiu o tom de brincadeira para disfarçar a amargura da vida: “A situação está feia, fazendo macumba com caldo Knorr. Todo mundo que me vê diz: ‘O Marinho está sempre sorrindo, o Marinho é alegre’. Mas é que se eu for chorar, eu vou ter de alagar Bangu, Padre Miguel e Realengo, porque vai ser muita lágrima pra derramar”. Poucos jogadores no futebol brasileiro tiveram trajetória tão agridoce, de fazer rir e chorar ao mesmo tempo, quanto Marinho.