Cada jogador que estiver sendo alvo de ofensas racistas durante um jogo de futebol tem o direito de lidar com a situação da maneira que achar mais adequada. Tem quem ignore, tem quem transforme os insultos em raiva e responda em campo e, agora, tem também quem simplesmente manda a mensagem que deveria ser corroborada por todo mundo: se houver racismo, não há futebol.

O Porto vencia o Vitória de Guimarães, fora de casa, por 2 a 1, aos 23 minutos do segundo tempo, quando o malinês Moussa Marega, atacante dos Dragões, perdeu a paciência com o que afirma serem ofensas racistas e pediu para ser substituído. Trocado por Wilson Manafá, entrou no túnel em direção aos vestiários fazendo gestos obscenos em direção à torcida da casa.

O que também foi lamentável no episódio é que a substituição demorou três minutos para ser concretizada porque alguns jogadores do Porto, muitas vezes de forma enfática, tentaram fazer com que ele mudasse de ideia e continuasse jogando, inclusive o treinador Sergio Conceição.

Argumentaram, gritaram e tentaram até mobilizá-lo fisicamente em vez de fazer o que deveriam ter feito e mostrar solidariedade a Marega também se recusando a continuar a partida porque, repetindo que cada um tem o direito pessoal de lidar com abusos da maneira que achar melhor, ninguém tem o direito de dizer a uma vítima como ela deve reagir ao preconceito.

“Gostaria apenas de dizer a esses idiotas que vêm ao estádio fazer gritos racistas… vá se foder”, escreveu Marega, em seu Instagram, depois da partida. “E também agradeço aos árbitros por não me defenderem e por terem me dado um cartão amarelo porque defendo minha cor de pele. Espero nunca mais encontrá-lo em um campo de futebol. VOCÊ É UMA VERGONHA!!!”.

Marega foi advertido com cartão amarelo pelo árbitro Luis Miguel Branco Godinho logo depois de marcar o gol da vitória do Porto, aos 15 minutos do segundo tempo, e comemorar batendo enfaticamente no braço esquerdo. Essa celebração levou o presidente do Vitória de Guimarães, Miguel Pinto Lisboa, a um outro clichê muito comum em casos de racismo: culpar a vítima.

 

Segundo Miguel Pinto Lisboa, Marega teve “comportamentos provocatórios” e “incendiou o espetáculo” ao comemorar daquela maneira e lembrou de outras atitudes “inadequadas” do malinês, quando ele defendia o próprio Vitória de Guimarães em 2016/17 e, em uma partida contra o Nacional, agrediu Nuno Sequeira, foi expulso e abandonou o estádio sem autorização do clube.

O que aquele episódio tem a ver com as acusações de racismo feitas por Marega neste domingo? Miguel Pinto Lisboa tentou explicar e prometeu que checará as câmeras de vigilância e, se constatar o abuso, punirá os torcedores que forem identificados. “Marega já foi jogador do Vitória de Guimarães e também quis abandonar o campo sem ter nada a ver com situações de racismo”, disse.

Falando neles, os torcedores, um grupo de fãs do Vitória de Guimarães chamado ‘White Angels’ rebateu as acusações com um comunicado meio confuso em que diz que na verdade Marega é que foi o racista da história: “Arranjem de tudo como é costume: desde insultamos (sic) a própria cidade até o fato de sernos (sic) insultados por um preto, mas o racismo só existir quando nós o insultamos (…) Parabéns à máquina de comunicação social que hoje só viu ‘racismo’ contra um jogador e não viu o ‘racismo’ desse mesmo jogador. (…) Ao jogador racista e seu treinador: obrigado por demonstrarem com a vossa atitude e palavras o fato de sempre defendermos que no Vitória não devemos seguir ídolos a não ser os seus próprios adeptos e o símbolo (…)”.

Sergio Conceição, que também teve passagem pelo Vitória de Guimarães, usou as redes sociais para dizer que “Somos todos Moussa” e admitiu em entrevista à Sport TV que o jogo ficou em segundo plano após as ofensas racistas. “Estamos completamente indignados. Sei bem da paixão que existe aqui em Guimarães pelo clube, mas sei que a maior parte dos torcedores não se vê naquilo que aconteceu com um pequeno grupo de torcedores insultando Marega desde o aquecimento”, disse.

O Porto “repudiou e condenou” os comportamentos racistas que, na sua visão, “constituem um dos momento mais baixos da história recente do futebol português” e cobrou punição aos responsáveis.