O que você sabe sobre Papua Nova Guiné? Mais: o que sabe sobre o futebol em Papua Nova Guiné? Sua resposta provavelmente é a mesma que o técnico brasileiro Marcos Gusmão daria antes de aceitar o convite para dirigir a seleção filiada à Confederação da Oceania (OFC). Colocada em 177º lugar entre as 207 equipes que compõem o ranking da Fifa, Papua tenta organizar seu futebol para pensar em melhores resultados no futuro.

Em entrevista por telefone à Trivela, Gusmão falou sobre sua trajetória e o desafio de desenvolver o futebol em um país que tem o rugby league (variação do rugby tradicional) como esporte mais popular.

´Não tinha nenhuma noção sobre o futebol daqui´, disse. ´Mesmo pesquisando, não encontrava nenhuma informação. Mas aceitei o convite, não pelo dinheiro, mas pelo status de treinador de seleção. Aos 40 anos, é algo que abre portas´.

Trabalhar no exterior não é novidade para o técnico brasileiro, que já teve experiências em times da China, Ilhas Maldivas, Emirados Árabes e Japão. A primeira oportunidade surgiu quando um grupo de empresários chineses observou o trabalho de Gusmão no time juvenil do Nacional de Rolândia, do Paraná, em uma competição da categoria em Pouso Alegre, sul de Minas Gerais.

´Nós ganhamos um jogo contra o Corinthians naquele torneio, e então veio o convite dos chineses. Lá, dirigi primeiro um time sub-20, depois o profissional do mesmo clube´, contou. ´Foi minha primeira saída do país, uma experiência incrível´.

Um dos momentos marcantes no Oriente foi a disputa da Liga dos Campeões da Ásia com o New Radiant, das Ilhas Maldivas, na temporada 2002/3. O time superou o primeiro obstáculo – o Air Force, do Sri Lanka – e ganhou o direito de enfrentar o Shimizu S-Pulse, do Japão.

´Éramos inexperientes, naturalmente levamos uma surra´, relatou Gusmão, sobre a goleada de 7 a 0 sofrida no primeiro jogo. Na despedida da competição, o time conseguiu um honroso empate sem gols, em casa.

Gusmão teve uma breve carreira como jogador de futebol, com passagens por Santo André e Bahia, no início dos anos 80. Em seguida, formou-se em Educação Física. Hoje, vangloria-se por ser um dos poucos treinadores brasileiros com diplomas de cursos da Fifa e da Uefa, que o credenciam não apenas a dirigir a seleção de Papua, como também a formar novos treinadores por lá.

A iniciativa da federação de Papua para fortalecer o futebol no país teve seu primeiro marco em 2002, com a criação da Academia Nacional de Futebol. Outro passo decisivo veio em 2006, com a criação de uma liga semiprofissional – a National Soccer League (NSL) –, com a participação de seis times, no sistema norte-americano de franquias. Os jogos são disputados em dois estádios com capacidade para 10 mil pessoas, os maiores do país.

´Acreditamos que, com a liga, o futebol possa até superar o rugby, em popularidade. Os jogos são transmitidos na televisão, já existe uma maior procura dos patrocinadores. Ainda não temos rivalidades, mas aos poucos vão surgindo grupos de torcedores´, disse o técnico.

Dificuldades e objetivos

O maior obstáculo para Gusmão tem sido a impossibilidade de reunir a seleção com freqüência, pela falta de recursos. O último jogo disputado foi em maio de 2004, ainda pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2006.

O panorama deve ser diferente, no entanto, para os Jogos do Pacífico Sul, entre os dias 25 de agosto e 8 de setembro, em Samoa. A competição fará parte das eliminatórias para o Mundial de 2010 – as três primeiras colocadas se juntarão à pré-classificada Nova Zelândia na Copa das Nações da Oceania, que levará a vencedora a um dos grupos da fase final na zona asiática.

Após o encerramento da liga nacional, em junho, a seleção fará parte da preparação na vizinha Indonésia. ´Serão cinco amistosos, três contra clubes e dois contra a seleção. Depois, vamos para Malásia e Cingapura´, afirmou Gusmão, que conta com apoio financeiro para observar os jogadores de Papua que atuam no exterior – três na Nova Zelândia e dois na Austrália.

O fato de a Austrália ter se mudado para a Confederação Asiática (AFC) ajuda a sonhar, ainda que de longe, com uma eventual conquista de título ou classificação para a Copa do Mundo. Mas Gusmão alerta para a necessidade de manter os pés no chão, já que Papua Nova Guiné ainda está em condições inferiores às de seleções como Taiti e Fiji. Será preciso superá-las antes de pensar em uma briga com a Nova Zelândia.

“Existe um plano de metas, mas não é fácil ter resultado imediato. A Nova Zelândia, que tem jogadores atuando na Inglaterra, está em outro patamar”, destacou o brasileiro, que revelou um plano de naturalizar compatriotas para reforçar a seleção. “Hoje temos, na liga, estrangeiros de países como Fiji e Ilhas Salomão. Pensamos em trazer dois brasileiros e naturalizá-los, e a idéia é bem aceita pela federação”.

No mês passado, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, fez sua primeira visita oficial a Papua Nova Guiné, na ocasião do congresso geral da OFC. Mas para que a federação de Papua tenha maior influência no jogo político da Oceania, será preciso mais esforço dos dirigentes.

O país não tem representante na primeira edição da Liga dos Campeões da Oceania, mesmo depois da desistência do Port Vila Sharks, de Vanuatu. Os organizadores preferiram incluir um segundo clube da Nova Zelândia – Waitakere United – entre os seis participantes. A expectativa é de que o vencedor da próxima edição da liga semiprofissional de Papua esteja na competição internacional no ano que vem, quando o número de times deve aumentar para oito.