Por Lu Castro*

Furtaram-me o direito ao pecado capital da vez: a preguiça. A preguiça de viver o eterno retorno nietzschiano quando penso em futebol feminino. Traduzindo: a preguiça é diária. Vamos nós com mais uma colocação inoportuna acerca do futebol das mulheres. Curiosamente surgem declarações, desabafos e as mais puras e singelas intenções em época de Copa do Mundo ou Olimpíadas, algo impressionante e desanimador quando penso que toda a movimentação cessa em poucas semanas.

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O recém-intitulado coordenador da seleção feminina na CBF, o ex-vereador Marco Aurélio Cunha, foi a bola da vez em declaração para a publicação canadense The Globe and Mail. MAC tem um extenso currículo no futebol e uma carreira, podemos dizer, vencedora com o futebol masculino. Isso o credencia para algumas tarefas, é bem verdade, mas não elimina resquícios de machismo contra o qual batalhamos há décadas para eliminar.

Antes de penetrar os recônditos das frases machistas, convém citar rapidamente o Campeonato Brasileiro de 2014, quando em um jogo televisionado, deu vergonha alheia ao ver o uniforme das jogadoras do Sport. Lamentavelmente escrachado o fato das meninas vestirem o resto da equipe masculina. E com a seleção feminina, até pouco tempo atrás, a situação era a mesma. Restos.

É óbvio ululante que o corte do uniforme para a prática do futebol pelas mulheres tem que ser diferente. Aliás, o futebol praticado pelas mulheres é distinto por uma série de razões, e uma, que supera todas as outras, é a fisiologia. Não. Não adentrarei os argumentos fisiológicos pois são extensos e cabem aos especialistas. Indico um do Centro de Excelência FIFA para a explanação, caso se interessem.

E aí que Marco Aurélio Cunha chegou à CBF, deixando uns 40 mil votos para trás, para abraçar o futebol feminino, com o qual, segundo ele próprio na ocasião de sua posse, “sempre sonhou em lidar”. Segundo o que ouvi de fontes, saiu uniforme novo, a diária está sendo paga integralmente e ele tem brigado por algumas coisas para as meninas da seleção. Ótimo! Mas aí…

Agora, as mulheres estão ficando mais bonitas, usando maquiagem. Elas vão a campo elegantes. O futebol feminino costumava copiar o masculino. Até mesmo o modelo das camisas eram mais masculinizados. Costumávamos vestir as mulheres como homens. Então, faltava ao time o espírito de elegância e feminilidade. Agora, os shorts são um pouco mais curtos, e o estilo dos cabelos mais cuidadosos. Não são mais mulheres vestidas como homens, em entrevista a The Globe and Mail, explicando por que acha que o futebol feminino vai começar a ganhar mais atenção.

Compreendi o que MAC quis dizer, mas a ideia carecia de cuidado para ser externada. São frases e chavões que não encontram mais espaço, que não são mais aceitos. Definitivamente, são desnecessários. As mulheres jogam futebol. Ponto. Apenas isso. É um esporte como qualquer outro e não há necessidade alguma de objetificá-las sexualmente, mais ainda dentro de um mundo onde elas são objetos desde sempre.

Meu comparativo segue no seguinte questionamento: por acaso é imprescindível que os homens que jogam futebol sejam bonitos e “másculos”? Por acaso se destaca a “beleza” (pffff)  dos jogadores para que o futebol seja algo que chame a atenção? Porque, vamos combinar, se carecesse de beleza para ser algo interessante, nem várzea teríamos.

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Que ótimo que estão se preocupando com o uniforme das meninas. Sempre pedimos isso. As atletas pedem identidade. Cuidem das questões femininas que, em um grupo, no convívio, se tornam tão mais evidentes. Cuidem do uniforme, cuidem das chuteiras, cuidem do fisiológico, cuidem da preparação física, cuidem da psicologia, cuidem da alimentação, cuidem da saúde da atleta como se deve cuidar.

Só não queiram transformar o futebol feminino em desfile, porque a igualdade no tratamento que todas nós queremos passa primordialmente pelo futebol. E que Kant e Vinicius me perdoem, mas a beleza fundamental aqui, é a jogada com a bola, dentro de campo.

*Lu Castro é jornalista. Cobriu as Libertadores femininas de 2009, 2011, 2012 e 2014, é parceira do Museu do Futebol para futebol feminino e colaborou com o grupo de trabalho para o desenvolvimento do futebol feminino do Ministério do Esporte. Escreve em um blog sobre o assunto no LANCENET! e tem o contato da Formiga no WhatsApp. 

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