Marcelo completa dez anos de títulos e identificação com o Real Madrid

Nesta mesma semana, em 2006, começou a passagem marcante do lateral esquerdo brasileiro por um dos maiores times do mundo

Marcelo parecia tímido naquele 15 de novembro de 2006. Não era para menos: tinha 18 anos e estava sendo apresentado por um dos maiores clubes do mundo, em um templo do futebol, com a missão de ser o sucessor de um lateral esquerdo, seu ídolo, que consta em qualquer lista de melhores da história. Precisava de muita personalidade para dar certo e, para a sorte do Real Madrid, isso ele tem de sobra. O cabelo bem cortado de moço comportado foi crescendo e se transformando no invocado penteado que ele ostenta atualmente, mais condizente com o seu jeito expansivo de ser. Uma evolução que acompanhou a do seu futebol. Dez anos depois de chegar ao Real Madrid, o brasileiro já conquistou 12 títulos, marcou em final de Champions League, é o vice-capitão da equipe e, discutivelmente, o melhor jogador do mundo na sua posição.

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O clube espanhol não se esqueceu da data. O presidente Florentino Pérez presenteou Marcelo com uma camisa especial pela década que ele passou vestindo branco. Foram, até agora, 372 partidas pelo Real Madrid, o que coloca o jogador em terceiro lugar na lista de estrangeiros que defenderam o gigante espanhol. Está próximo de Alfredo Di Stéfano (396) e ainda longe do seu ídolo Roberto Carlos (527). Mas tem apenas 28 anos e muita lenha para queimar. Ocupa o cargo de segundo capitão da equipe, o que evidencia a moral que tem no Santiago Bernabéu, e está jogando muito bem. Existe, atualmente, algum brasileiro mais identificado com um clube europeu? Eu diria que não.

Marcelo, dez anos atrás, sendo apresentado pelo Real Madrid (Foto: AP)
Marcelo, dez anos atrás, sendo apresentado pelo Real Madrid (Foto: AP)

A vida na Espanha nem sempre foi tão boa para Marcelo. Chegou ainda cru do Fluminense, com sérios problemas na marcação, e inspirou desconfiança nos seus primeiros anos. Passou os seis primeiros meses na reserva. Foi firmando-se como titular nas temporadas seguintes, ainda revezando com Miguel Torres e Heinze de vez em quando. Em 2011, chegou Fabio Coentrão para disputar a posição com ele, que acabou vencendo essa batalha com folgas. Passou boa parte da temporada 2012/13 machucado, uma pedra no caminho que antecedeu o prêmio maior, que viria na época seguinte.

Outra lesão fez com que Carlo Ancelotti preferisse começar a decisão da Champions League contra o Atlético de Madrid, em Lisboa, com o português na lateral esquerda. Marcelo entrou no lugar de Coentrão no segundo tempo e, a dois minutos do fim da prorrogação, marcou o gol que decretou de vez a conquista da décima taça europeia. Suas investidas ao ataque são sua marca registrada, responsáveis por uma coleção de pinturas pelo Real Madrid. Ganharia outra copa europeia, dois anos depois, convertendo sua cobrança na disputa de pênaltis em Milão, novamente contra o Atlético. Desta vez, jogou a final inteira. Somam-se a esses dois títulos continentais outras dez taças: três do Campeonato Espanhol, duas da Copa do Rei, duas da Supercopa da Espanha, duas da Supercopa da Europa e uma do Mundial de Clubes.

“Quando cheguei, queria conquistar títulos, jogar e ser titular do Real Madrid. Consegui”, disse, em entrevista à TV oficial do clube. “Normalmente, aos 18 anos, o jogador está no Castilla (segundo time do Real) e eu jogava na equipe principal. O clube me ensinou muitas coisas. A valorizar os torcedores e as pessoas necessitadas, porque este clube ajuda muita gente. A cada lugar que você vai percebe que este clube não é grande apenas pelo futebol, mas também porque ajuda as pessoas”. E, como vice-capitão, um pouco dessa responsabilidade também é de Marcelo. “Tenho que ensinar muitas coisas aos jovens e dar exemplo. Tento dar o máximo em cada partida e cada treinamento”.

Desde que chegou ao Real Madrid, Marcelo usa a mesma camiseta, número 12, data do seu aniversário em maio. “Eu pude escolher entre a 12, a 16 e a 20. Escolhi a 12 porque é o dia em que eu nasci e, desde então, a levo nas costas e não pretendo mudar”, afirmou. Foi com ela, inclusive, que ele se aproximou de Di Stéfano e Roberto Carlos em número de partidas – “Roberto Carlos é meu ídolo e estar próximo do seu ídolo não tem preço – e disputou o jogo mais inesquecível da sua carreira. “O momento que me deixou sem palavras durante uma semana foi a Décima. Fazia muito tempo que o Real Madrid não ganhava a Champions League e foi um momento inesquecível quando o árbitro apitou o final da partida”, disse. “Marcar um gol pelo Real Madrid é especial, mas fazê-lo em duas finais de Champions (dando uma forçada de barra para considerar o pênalti contra o Atlético, em 2016, como um gol) e conquistá-las não tem preço. Sempre que vejo esses dois jogos fico arrepiado. Minha família também se emocionada quando os vê e é algo que levarei para toda a minha vida”.

Nesta temporada, Marcelo tem 11 jogos, todos como titular, e um gol, seu 26º com a camisa do Real Madrid. O momento mais marcante, no entanto, foi seu retorno à Seleção. Preterido por Dunga, foi titular nas duas primeiras partidas de Tite. Perdeu a data Fifa seguinte por lesão e disputou os 90 minutos contra a Argentina, na última sexta-feira. Não enfrentou o Peru, por suspensão. Mesmo com uma década de alto nível na Europa, sua carreira no time brasileiro tem sido inconstante. Lesionou-se algumas vezes e teve rusgas com Dunga, que treinou a Seleção em seis desses dez anos. Soma apenas 45 partidas e disputou somente duas grandes competições, todas sob o comando de Felipão (Copa das Confederações de 2013 e Copa do Mundo de 2014). Além de continuar bem no Real Madrid, deve ter como objetivo buscar mais protagonismo no Brasil, como seu ídolo Roberto Carlos conseguiu sem contestações.