As duas primeiras divisões do Campeonato Brasileiro somam 40 clubes. Destes, apenas três técnicos são negros. Dois deles estão na Série A: Roger Machado, do Bahia, e Marcão, do Fluminense, que se enfrentaram neste sábado no Maracanã. Em razão da ocasião, o Observatório de Discriminação Racial do Futebol, convidou os dois clubes a participarem de uma ação conjunta que ressaltasse o combate ao racismo. Os dois clubes abraçaram a causa. E os dois técnicos vestiram uma camiseta contra o racismo, do Observatório. Uma ação afirmativa que tem imensa importância.

Há claramente um problema quando apenas dois dos 20 clubes da Série A possuem técnicos negros. Não é uma coincidência. Embora a população negra do Brasil seja maioria, nos técnicos, uma posição de comando, isso não se reflete. Aliás, não se reflete nem mesmo comparando ao que se vê em campo: grande parte dos jogadores de futebol são negros. Na Série B, Hemerson Maria é o único técnico negro. Ele dirige o Botafogo de Ribeirão Preto.

Para o diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, Marcelo Carvalho, esse é um reflexo do racismo estrutural que existe no país. “É o racismo estrutural, que faz com que negros não cheguem a cargos de chefia. E isso reflete no futebol, onde a gente tem uma quantidade muito grande de atletas negros, mas não temos técnicos, dirigentes e presidentes. É essa questão racial. Aceitam o negro como um par, mas não ser comandados por um. O futebol reproduz isso muito bem. O espaço do negro é dentro das quatro linhas, ou em cargo de menor expressão: auxiliar técnico, roupeiro, massagista, outras funções”, disse Marcelo em entrevista ao Lance.

Marcão e Roger dizem nunca terem enfrentado preconceito racial dentro do futebol. Roger tem uma hipótese que explica isso. “Não é surpreendente porque o preconceito que existe no país é velado. E o futebol, diferentemente de outras áreas da nossa sociedade, nos torna um pouco mais brancos. Em volta da qualidade artística do nosso trabalho, a gente é bem aceito, bem visto em todos os ambientes”, explica o treinador do Bahia ao Globoesporte.com.

“Hoje nos posicionamos mais que em outros momentos. Mas isso gera enfrentamentos. À medida que você se posiciona, há quem diga que você está agindo em causa própria e defendendo uma luta que não deveria existir. Esse assunto não era debatido publicamente. O posicionamento, há. Quantos têm a oportunidade como eu de estar falando? Somos poucos. Esse meu lugar na elite do futebol brasileiro é de resistência e protesto. Permanecer é resistência e protesto para que outros possam se enxergar possíveis treinadores de futebol, não só brilhando no campo, mas em áreas de imposição e comando e liderança”, disse ainda Roger Machado.

“Eu vejo isso como um marco. Será que já tivemos mais de três treinadores na série A ou B ao mesmo tempo? Isso é pouco, bem pouco, mas vamos tomar isso como um marco para mudança. O mercado é fechado, pois o círculo é vicioso. Sai um e entra o mesmo de antes em seguida. Não muda”, disse Marcão, em entrevista ao Lance.

“Resolvi estudar e me capacitar para ser treinador de futebol por causa dos treinadores que tive na época de atleta. Parreira, Abel, Valdir Espinosa, Ricardo Gomes. Só tive boas referências na minha carreira. E acho que minha experiência de jogador ajuda bastante nisso, mas o futebol se renovou. Evoluiu para outros conceitos. Outro dia vi uma palestra do Marcelo Bielsa onde ele falou que existem mais de 100 táticas de jogo para aplicar. Fui estudar. Me qualificar. Me aprofundar nisso. Trabalhar ao lado de treinadores renomados e promissores me deu mais conhecimento. E em nenhum momento sofri preconceito por isso. Pelo contrário, só recebi incentivos e elogios com os profissionais que trabalhei. Espero que essa chance que o Fluminense me deu, seja duradoura o suficiente para provar que o comando técnico de um time não dependa de cor, mas sim de competência e preparação do profissional”, continuou Marcão.

“O fato de sermos negros não deveria ser relevante diante dos desafios que temos. A cor da pele não poderia balizar o conhecimento de ninguém. Sigo acreditando que dentro do campo de jogo, o futebol é o esporte mais democrático e inclusivo que conheço, entretanto fora das quatro linhas há muito o que ser debatido e resolvido. Eu, Marcão e muitos outros, estamos no mercado não como excludentes e sim como agregadores de conteúdo e valor – afirmou Roger, também ao Lance.

Há treinadores negros que estão sem trabalhar no momento e tiveram passagens por times de Série A recentemente, como Jair Ventura, ex-Botafogo, Santos e Corinthians; e Cristóvão Borges, que trabalhou em diversos clubes, como Vasco, Bahia, Fluminense e Corinthians. Há, porém, uma barreira grande para ser rompida pelos técnicos negros. Ainda são poucos, como os citados, que conseguiram chegar no nível mais alto.

Roger Machado, de 44 anos, começou a sua carreira no Juventude, em 2014. Depois, foi para o Novo Hamburgo, da região metropolitana de Porto Alegre, em 2015. Foi o ano que teve a chance de ir para o Grêmio, onde foi ídolo e jogou por nove anos, de 1994 a 2003. Passou também por Atlético Mineiro e Palmeiras antes de chegar ao Bahia, neste ano de 2019.

Marcão nunca teve o cargo de técnico efetivo. Faz parte da comissão técnica permanente do Fluminense. O volante foi ídolo no clube das Laranjeiras, que defendeu de 1999 a 2006, com rápida passagem pelo Al Ittihad, do Catar, em 2005/06. Já tinha passado pelo Fluminense, trabalhando na comissão técnica e efetivado no fim do Campeonato Brasileiro de 2016. Acabou demitido no ano seguinte, depois do que ele considera uma cisão política.

É importante que os dois treinadores negros da Série A falem sobre isso. É uma questão de representatividade também e que ajuda a quebrar preconceitos. Tanto Roger quanto Marcão sabem o quanto é relevante que estejam nas posições que estão. A ação do Observatório de Discriminação Racial no Futebol é muito importante não só pelas denúncias que faz, em relatórios anuais, mas também pela conscientização sobre os problemas. Só sabendo quais são os problemas para enfrentá-los. E nisso, é fundamental que o trabalho que o Observatório faz ganhe os holofotes.

Por tudo isso, recomendamos os relatórios do Observatório:

Acesse e leia os “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol” 201420152016, e 2017 com os casos de preconceito e discriminação no esporte brasileiro aqui.