Em tese, o Atlético Paranaense visitaria o Maracanã para tentar confirmar sua vantagem rumo à final da Copa Sul-Americana. O que aconteceu, na realidade, foi bem diferente. Porque o Furacão mais se assemelhou a uma horda de bárbaros, vikings prontos para tomar o gigante de concreto e pilhar (em diferentes sentidos do termo) o time do Fluminense ao longo dos 90 minutos. Os rubro-negros mandaram na noite. Transformaram o lendário estádio em mero anexo da Baixada, invadido, dominado. E o que poderia ser um jogo duro terminou como um grito de afirmação dos atleticanos, senhores de uma partida na qual passaram incólumes, sem qualquer ameaça. A vitória por 2 a 0 conclui um confronto no qual os paranaenses se impuseram. Ganham confiança para a decisão, contra Junior de Barranquilla ou Independiente Santa Fe.

A vitória por 2 a 0 em Curitiba dava uma ampla tranquilidade ao Atlético Paranaense. Depois de um jogo tão intenso na Arena da Baixada, na qual poderia ter feito mais não fosse o goleiro Júlio César, o Furacão teria a chance de reduzir a marcha e administrar melhor a situação. No entanto, a concentração logo nos primeiros minutos se tornou vital. E o ímpeto valeu o gol aos quatro, a partir de uma roubada de bola no campo de ataque. Marcelo Cirino cruzou da direita e, depois que a bola passou por todo mundo, Nikão apareceu no segundo pau para concluir.

O placar parcial no Maracanã estava diretamente atrelado ao que ocorrera semanas antes. E a mesma inoperância se viu no Fluminense, ainda mais perdido pela cobrança imposta pelos quatro gols necessários naquele momento. Os tricolores se limitavam a cruzamentos na área, infrutíferos. Afundavam-se no próprio nervosismo, sem indicar qualquer estratégia definida. O dono da noite era mesmo o Atlético, controlando a situação. Defendia com solidez, não se expunha aos adversários. É verdade que os rubro-negros pouco criaram no ataque, exceção feita a um chute impedido de Lucho González. Em compensação, mantinham o seu padrão de jogo e sufocavam os tricolores a partir da saída de bola, com a marcação pressionando. Um time totalmente consciente de si, muito bem alinhado.

Já nas arquibancadas, se o Maracanã não lotou, ainda contou com fiéis que acreditavam no Fluminense – a despeito da péssima sequência do clube, sem sequer balançar as redes nos sete compromissos anteriores. E como manter as esperanças quando o gol do oponente sai tão cedo? A insatisfação tomou a atmosfera, em forma de vaias. E o barulho tomou diferentes tons com o baile que se deu no segundo tempo.

O Fluminense continuou como um bando em campo, tentando abafar. O gol quase saiu com Luciano, em um lance no qual Thiago Heleno precisou salvar dentro da área, quando o goleiro Santos já estava batido. E foi justamente na sequência, a partir de um contra-ataque, que o Atlético Paranaense sacramentou o placar, aos nove minutos. A boa trama encontrou a defesa tricolor arreganhada. Nikão puxou a investida e tocou a Cirino na esquerda. Então, o atacante mais uma vez serviu de garçom e passou a Bruno Guimarães, aparecendo para concluir. O jogo estava morto.

Depois disso, o que se viu foram quase 40 minutos desnecessários. O Fluminense se afogava sem dar qualquer sinal de que sabia nadar, precisando de cinco gols. O Furacão administrava a sua vantagem e até parecia mais pronto a anotar o terceiro. Nas arquibancadas, os torcedores tricolores xingavam o time e os dirigentes, poupando apenas alguns membros. Ocorriam focos de confusão. Já a massa rubro-negra ia à forra. Era um mero protocolo esperar o apito final. Na única chegada do Flu, Santos salvou com a ponta dos dedos o chute de Ayrton Lucas, nos acréscimos. Mas neste momento, boa parte dos 37 mil presentes já haviam ido para casa no Maracanã esvaziado. Prevaleceu a comemoração dos visitantes que celebravam a passagem à decisão.

O Fluminense continuará vivendo dias tensos. A Sul-Americana era uma ambição, que vinha como bônus na temporada. Agora, surge a obrigação de se manter na elite do Campeonato Brasileiro. E se as atuações do time não transmitiam garantias quanto à permanência na Série A, principalmente pela falta de gols, o passeio desta quarta causa um abalo psicológico. Em campo, Gum convocou a torcida e deu entrevista com os olhos marejados. Nos vestiários, segundo palavras do próprio Marcelo Oliveira, alguns de seus atletas choravam. O Tricolor tem seus problemas, mas poderia fazer mais com os jogadores que possui à disposição. Perde-se em seus traumas.

Por outro lado, nota-se um Atlético Paranaense triunfante. O clube faz uma campanha sonora na Sul-Americana. Eliminou Peñarol e Newell’s Old Boys de maneira categórica, antes de passar pelo Caracas. Depois, suou sangue diante do Bahia, em confronto no qual foi beneficiado pela arbitragem. Mas a incerteza acaba ficando para trás, após as duas vitórias inapeláveis contra o Fluminense. Os rubro-negros vivem um momento muito bom, ganhando sustentação neste segundo semestre. Aproveitam do trabalho de Tiago Nunes, que combinou características de seus antecessores, acrescentando muita consistência defensiva e agressividade no ataque. Ainda é a equipe “moderna”, agora também funcional. Os resultados falam por si. E parece ser totalmente factível sonhar com o primeiro título continental a ser levado para a Baixada. O Maracanã é mais uma terra subjugada e arrasada pelo Furacão.