Texto publicado originalmente em junho de 2015

“Desde cedo, a romaria da população com destino ao Estádio Municipal emprestava à cidade aspecto fora do comum. De todos os bairros desciam verdadeiras massas humanas, dando impressão de que se tratava de êxodo. E de fato era, rumo ao Maracanã, onde se ergue o colossal estádio municipal”.

O texto do Jornal dos Sports, de Mário Filho (que ainda não batizava o estádio), descreve o evento único que aconteceu no Rio de Janeiro em 17 de junho de 1950. A multidão estimada em 150 mil pessoas não estava se dirigindo ao bairro do Maracanã apenas para ver o duelo entre as seleções paulista e carioca de novos. Queriam mesmo é participar do nascimento de um gigante naquele dia. O Estádio Municipal, a sede da Copa de 1950. O lendário Maracanã.

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A cobertura extensa feita pelo principal jornal esportivo do Rio de Janeiro na época dava grande atenção ao evento que aconteceu. O transporte público era insuficiente para a multidão que se dirigia ao estádio, “apinhando” as ruas da capital nacional. Uma convulsão popular que acontecia na mais perfeita ordem.

“Cada um como entrando em sua casa. Depois de visto e revisto o Estádio, todos os cantos esmiuçados, o homem do povo, o operário, o estudante, o granfino – enfim, todos os setores da vida social de uma grande metrópole – demonstravam que tudo estava perfeito”, descreve um dos textos. Os portões do estádio foram abertos 12 horas antes do início do evento, e já contavam com centenas de pessoas ansiosas em conhecer o monumento.

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A inauguração contou uma cerimônia entre autoridades em 16 de junho. Já no dia seguinte é que ocorreu a grande festa aberta ao público. O prefeito Mendes de Morais discursou, antes do desfile de representações esportivas. E, claro, antes da partida que iniciou a história do Maracanã como um grande palco do futebol.

Às vésperas da Copa do Mundo, o primeiro jogo do estádio reuniu a velha rivalidade entre Rio e São Paulo, em um duelo entre as seleções estaduais que servia de claro evento para testes. A preparação dos jovens paulistas para aquele embate foi exaltada, com Brandãozinho comandando a vitória por 3 a 1. No entanto, quis o destino que um carioca anotasse o primeiro gol do novo estádio: o promissor Didi, aos 21 anos, quase uma década antes de botar a bola sob os braços e liderar o Brasil em seu primeiro título mundial, em 1958.

No entanto, nem tudo ocorreu à perfeição naquela inauguração. Por mais que tivessem corrido contra o tempo, as obras não estavam concluídas (o que só aconteceu, de fato, em 1965) e as estruturas de madeira que sustentavam a marquise ainda estavam nas arquibancadas. Presente no evento, Jules Rimet elogiou o estádio, mas impôs a primeira versão de seu Padrão Fifa – com justiça, neste caso.

“Jamais assisti a um espetáculo semelhante. Isto é uma maravilha. Mas lamento que todo o madeiramento não tenha sido retirado antes da Copa do Mundo, afetando assim a impressão magnífica do estádio”, declarou Rimet, então presidente da Fifa. As promessas do prefeito Mendes de Morais era de que nenhum vestígio das obras ficaria para a abertura da Copa, a ser realizada uma semana depois.

Em 24 de junho de 1950, o Brasil fez sua estreia no Mundial de 1950, vencendo o México por 4 a 0 no Maracanã – diante de relatadas mais de 100 mil pessoas pelo jornal, em renda recorde no futebol sul-americano, ainda que os números oficiais da Fifa apontem para 81,6 mil. Além dessa abertura, outros sete jogos da Copa foram disputados no Maraca. Incluindo aí o inesquecível Uruguai 2×1 Brasil, diante de mais de 200 mil pessoas, em 16 de julho. O episódio mais marcante de uma história incrível. O rico passado do estádio que completa 65 anos nesta quarta como um dos maiores templos do futebol.

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Extras

Além dos textos sobre a inauguração do Maracanã, outros dois trechos do Jornal dos Sports de 18 de junho de 1950 chamam a atenção. Na coluna de Edgar Proença, há uma defesa escancarada para que o Estádio Municipal passasse a ter o nome de Mendes de Morais, o prefeito responsável pelas obras. Um coro da clara influência política de Mário Filho. Idealizador do estádio, o jornalista utilizou amplamente o Jornal dos Sports para apoiar a construção, considerado como personagem fundamental para sua viabilização e para a sua conclusão a tempo para a Copa de 1950. O batismo com o nome de Mário Filho ao Maracanã só aconteceu em 1966, um mês após sua morte.

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Além disso, na última página, há uma discussão que se repetiu em 2014: a necessidade da criação de uma torcida organizada para a seleção brasileira. Flávio Costa e Barbosa comentam a ideia, dando a entender que faltava uniformidade ao comportamento nos jogos da equipe. Declarações que permanecem atuais.

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