Por Emmanuel do Valle, jornalista e dono do blog Flamengo Alternativo

Contando neste ano com a participação de Atlético-MG, Corinthians, Fluminense e Internacional, a Florida Cup vem movimentando a pré-temporada dos clubes brasileiros e os colocando frente a times de outras partes do mundo. Faz lembrar uma época em que era praxe para nossas principais equipes excursionar por outros continentes (especialmente o europeu) e disputar, em troca de prestígio e gorda premiação financeira, vários torneios que fizeram história.

De longa trajetória e curta duração, com jogos às vezes um dia após o outro, quase sempre disputados em estádios acanhados e no verão do hemisfério norte, estas competições proporcionaram a escrita de páginas memoráveis do nosso futebol. Como esquecer a vitória do Vasco sobre o Real Madrid de Di Stéfano no Torneio de Paris em 1957? E o baile do São Paulo de Telê sobre o Barcelona de Cruyff na final do Teresa Herrera de 1992, numa prévia do jogo de Tóquio? E o triunfo épico do Flamengo, sem Zico, com apenas oito jogadores em campo, diante do Real Madrid completo no torneio de Palma de Mallorca em 1978? E o também épico Botafogo x Juventus, um 4×4 alucinante vencido nos pênaltis pelos cariocas na decisão do Teresa Herrera de 1996?

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Relembramos no mapa abaixo 20 destes torneios. A maioria deles (12) na Espanha, mas também na França, Holanda, Suíça e até fora da Europa – no México, Marrocos, Japão e Coreia do Sul. Na verdade, houve uma infinidade de troféus em disputa, especialmente em gramados espanhóis. Para “filtrar” os que listamos, estabelecemos alguns critérios. Consideramos: a) apenas torneios que tiveram pelo menos dez anos de disputa ininterrupta; b) torneios com a participação de pelo menos quatro clubes brasileiros em sua história; c) torneios em que esses quatro clubes fossem de pelo menos três estados diferentes. Por isso, infelizmente, tivemos que deixar algumas competições lendárias e prestigiosas de fora, como a International Soccer League americana (vencida por Bangu e America nos anos 1960); o Torneio Città di Milano e o Mundialito de Milão (disputados, cada um, apenas três vezes); e o Torneio Príncipe Felipe de Astúrias, o Troféu Ibérico de Badajoz, o Torneio Ciutat de Barcelona e o Torneio Conde de Fenosa (palco da histórica vitória do Bonsucesso carioca sobre o River Plate em 1975), todos espanhóis.

Mesmo com a seleção rigorosa, nos 20 escolhidos não faltaram grandes duelos que para as gerações mais novas só são possíveis no mundo virtual. Pense num confronto aleatório e sensacional entre um clube brasileiro e um europeu. Por exemplo, Cruzeiro x Stoke? Teve. Flamengo x Ajax? Teve. Grêmio x Standard Liège? Teve. Vasco x Tottenham? Teve. São Paulo x Sampdoria? Teve. Botafogo x Colônia? Teve. Internacional x Manchester City? Teve. Fluminense x Dukla Praga? Teve. Palmeiras x Sevilla? Teve. Real Madrid x Vitória da Bahia? Teve. Barcelona x America do Rio? Teve isso e muito mais.

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A lista é gigantesca. A participação de brasileiros era tão frequente que havia espaço até para clássicos nacionais, como o Santos 4×1 Botafogo que decidiu o Teresa Herrera de 1959 e o Atlético-MG 1×0 Santos pela final do Ramón de Carranza em 1990. Ou mesmo estaduais, como Palmeiras x São Paulo (vencido pelo Alviverde por 2×1) no mesmo torneio em 1993, além do Fla-Flu (deu Flamengo nos pênaltis em 1978) e do San-São (Santos 1×0, em 1986), ambos pelo Teresa Herrera.

Organizados por clubes, prefeituras ou patrocinadores (como era o caso da Copa Phillips e a Copa Kirin), os torneios tiveram número de participantes e formatos variados ao longo do tempo, mas o mais comum era o triangular ou o mata-mata simples com semifinal e final. Porém, havia regulamentos malucos, como o do Torneio de Amsterdã, disputado em “eliminatória dupla”, em que os vencedores da primeira rodada não necessariamente se enfrentavam na segunda e última, e que também contava pontos para cada gol marcado – o que poderia levar (como aconteceu) a um clube poder vencer seus dois jogos e mesmo assim perder o título (no saldo de gols). Por fim, incluímos também a exótica (pra dizer o mínimo) President’s Cup, realizada na Coreia do Sul, um verdadeiro e imenso apanhado do “lado B” do futebol, reunindo clubes brasileiros de menor porte, outros sul-americanos e europeus obscuros e seleções asiáticas mais obscuras ainda. Divirtam-se!