Os minutos finais da vitória do Internacional dentro do Mineirão, no primeiro duelo das semifinais da Copa do Brasil, deixavam claro o péssimo clima de Mano Menezes no Cruzeiro. O treinador foi vaiado e achincalhado pela torcida. Em resposta, ironizou as arquibancadas celestes com sinais de positivo. E ofereceu uma última imagem emblemática para a sua passagem pelo clube. Menos de uma hora depois, estava confirmado o que parecia fatal, a esta altura: Mano não será mais o técnico da Raposa. Encerra uma relação que não era exatamente um mar de rosas, embora tenha rendido títulos importantes, e agrava um pouco mais a crise em um clube que tem muito a se preocupar.

“Gostaria de comunicar oficialmente que a gente interrompe o trabalho à frente do Cruzeiro nesta noite, porque entendemos que era o momento em que nós não poderíamos estender mais essa fase difícil. São 18 jogos e uma vitória, a gente sabe que isso no futebol não se sustenta. A decisão parte de uma consciência de que as coisas podem piorar. Hoje, o torcedor teve uma reação que, para mim, é fundamental com o técnico: ele não pode achar que somos burros, porque o burro vem aos 47 do segundo tempo hoje, amanhã ele vem aos 30, e isso vai numa continuidade afetar a equipe. Eu tenho muito respeito pelo Cruzeiro. Não vou permitir que isso atrapalhe ainda mais este momento difícil”, apontou Mano, após a partida. A decisão teria sido tomada em conjunto, sem partir somente do treinador ou da direção.

“Eu não acho que a direção do Cruzeiro tenha me derrubado. Eu acho a saída justa. Um conjunto de 18 jogos sem vencer uma partida, você não pode continuar conduzindo o trabalho. Treinador tem que ter essa ideia e essa noção clara. E foi por isso que tomei essa iniciativa de conversar com eles já no domingo, e hoje novamente. Quando o resultado não vem em uma série tão grande como essa, o trabalho precisa ser interrompido. E o treinador precisa ter o respeito pelos seus jogadores, porque vive de uma teoria de futebol. Essa teoria é, na prática, executada pelos seus jogadores dentro do campo. Na medida em que o resultado não vem, muitas vezes essa teoria perde confiança, e o próprio treinador perde confiança. Então, é simples, claro, cristalino e justo que se faça esta interrupção”, complementou.

A longevidade de Mano à frente do Cruzeiro se explica pela boa relação com a diretoria, que o segurou em outros momentos de provação, mas também pelo sucesso que construiu nestes três anos à frente da Raposa. Depois de uma breve passagem pela China, o comandante retornou e ajudou a afastar o risco de rebaixamento no Brasileirão de 2016. O sustentáculo de seu trabalho, de qualquer maneira, veio através da Copa do Brasil, após a eliminação para o Nacional do Paraguai na Copa Sul-Americana de 2017. O bicampeonato conquistado em 2017 e 2018 resgatou certo copeirismo que se tornara uma marca histórica celeste, sobretudo a partir da década de 1990. Recolocava os cruzeirenses como maiores campeões do torneio nacional.

Não foram exatamente campanhas incontestáveis na Copa do Brasil, mas os fins ajudaram a justificar os meios, diante de uma equipe que quase sempre jogou no fio da navalha para abrir o seu caminho. A partir das oitavas de final, foram três triunfos nos pênaltis somando ambas as caminhadas, além de outra pelos gols fora de casa. As duas vitórias sobre o Corinthians nas finais de 2018 representaram uma rara exceção, a um time que jogava com o regulamento sob os braços. Serviram para soltar o grito de uma torcida que, em partes, mantinha uma pulga atrás da orelha diante da visão geral do trabalho.

Os desempenhos no Campeonato Brasileiro, afinal, eram pouco àquilo que o Cruzeiro poderia almejar e ao elenco que o clube mantinha. O sucesso na Copa do Brasil fez com que os celestes levassem a banho-maria o outro principal torneio nacional, com campanhas na parte superior da tabela, mas acomodadas na reta final. E a Libertadores de 2018 também não ajudou, após a eliminação diante do Boca Juniors, em que se reclamou da arbitragem na Bombonera, mas não se negou a autocrítica àquilo que os mineiros foram incapazes de cumprir. Nada, porém, que diminuísse as esperanças para 2019.

E, como a memória permite lembrar, o Cruzeiro fazia um início de ano promissor. O problema estava no nível em que se inseria. Conquistou o Campeonato Mineiro com certas sobras e também voou baixo na fase de grupos da Libertadores. O tempo, contudo, não demoraria a indicar que a falta de competitividade da chave maquiou a realidade celeste. O início do Brasileirão e a sequência nos mata-matas se mostrou implacável. A Raposa sofreu uma queda de rendimento vertiginosa e há 18 partidas só contabiliza uma vitória, justo num clássico, que garantiu um respiro pouco condizente aos problemas gerais. Na zona de rebaixamento do Brasileiro, acovardado contra o River na Libertadores e insuficiente também na Copa do Brasil, Mano Menezes teve um destino óbvio.

O que mais martela na cabeça do cruzeirense, neste momento, são os mais de 800 minutos sem marcar gols. A estatística já histórica serve de retrato escancarado àquilo que a torcida mais reclamou de Mano ao longo destes três anos: o estilo de jogo retrancado e pouco efetivo dentro das possibilidades do elenco. O Cruzeiro preferia fazer o mínimo e jogar por uma bola. Com detalhes favoráveis, escreveu a história do bicampeonato na Copa do Brasil. Porém, as últimas partidas guardaram o pior dessa escolha, a uma equipe que abdicou de suas próprias pretensões por acreditar que a bola certa viria em um instante isolado. Contra o Inter, viu-se já uma Raposa mais propositiva. Em compensação, também deslocada daquilo que vinham sendo suas ideias, e impotente para superar um adversário bem armado. O gol de Edenílson foi a pá de cal.

Mano Menezes deixa a Toca da Raposa com bem menos moral dos que seus títulos indicam, em explicação que se concentra no futebol pobre do Cruzeiro. O comandante insistia em seus dogmas e não achava o caminho. O risco de rebaixamento se tornou sufocante e somente as parcas esperanças nos mata-matas o sustentavam. Ao final, nem isso valeu mais. Para que as esperanças não se percam completamente é que a mudança acontece. Todavia, o substituto terá um árduo trabalho a fazer. O cenário é de terra arrasada, mesmo que existam peças para os mineiros se safarem no Brasileiro.

O entrave não se concentra apenas no péssimo futebol apresentado por Mano. O ponto é superar tudo o que o circunda e que foge da mera alçada do treinador. A crise política do Cruzeiro é imensa, diante de um rombo financeiro que trava investimentos e parece pesar também sobre as costas do elenco. A gestão de Wagner Pires de Sá é investigada por uma série de crimes seríssimos, incluindo lavagem de dinheiro e falsificação de documentos. O desmanche tem sido gradativo e a pressão aumenta diante daquilo que se cobra. Some-se a isso alguns medalhões dentro do grupo que possuem temperamentos fortes e a quantia de pólvora aumenta. O novo comandante terá que acertar o time em campo e também aparar arestas no que vai além, caindo de para-quedas nesta zona de guerra.

Resta ainda uma fagulha de que as próximas quatros semanas sirvam para reverter o quadro contra o Internacional em Porto Alegre. A projeção do Cruzeiro, entretanto, precisa ser mais realista. Colocar o mínimo de ordem na casa é o primeiro passo para que o preço pago não seja caro de mais. E a questão vai além. Se o momento é péssimo e exige contundência a curto prazo, para tirar a equipe desta espiral de futebol medíocre e nulidade ofensiva, as perspectivas não guardam muito para o futuro próximo, diante da péssima gestão financeira e das irregularidades denunciadas. Apagar o incêndio atual é a urgência, mas possivelmente não representará o fim das preocupações. A saída de Mano Menezes talvez seja o marco em uma transição bem mais árdua aos cruzeirenses.