Quando Alexandre Mattos chegou, o Palmeiras era terra arrasada. Havia escapado apenas por um fio de ser rebaixado no ano do seu centenário e estava prestes a passar por uma grande reformulação. Apenas Fernando Prass, Valdivia, alguns estrangeiros pedidos por Ricardo Gareca e uma molecada ficaria para o ano que vem. Mas, ao mesmo tempo, as contas estavam mais saudáveis, fruto do trabalho de austeridade e dos empréstimos pessoais de Paulo Nobre. O Allianz Parque havia sido inaugurado, o sócio-torcedor decolava e, em breve, a Crefisa aterrissaria na Pompeia.

Alexandre Mattos era tudo que o Palmeiras necessitava naquele momento. O dirigente que havia ganhado fama pelo bicampeonato brasileiro do Cruzeiro emprestaria a sua credibilidade a um clube que se acostumara a ser coadjuvante no mercado de transferências. Um novo elenco quase inteiro seria contratado, e compras no atacado são a sua especialidade. E Mattos fechava negócios, apelo particularmente importante para o torcedor palmeirense cansado de ver nomes ligados ao seu clube, mas que no fim das contas acabavam atuando pelos rivais.

E ele fez bom trabalho em seus primeiros dois anos. Montou um time praticamente do zero em 2015, trazendo nomes que seriam importantes durante períodos mais curtos, como Rafael Marques, Barrios, Vitor Hugo e Robinho, e outros que seguem no elenco até hoje, como Thiago Santos. E, claro, Dudu.

A contratação de Dudu foi o grande momento de Mattos no Palmeiras. Ele era o tipo de reforço que o palmeirense havia relutantemente aceitado que estava fora do alcance. O Palmeiras nem estava na disputa e qualquer avaliação de prós e contras informaria que era melhor aceitar as propostas de São Paulo ou Corinthians. Mattos interveio e, do dia para a noite, convenceu Dudu a confiar no projeto que começava a ser desenvolvido no Allianz Parque, pegando quase todo mundo de surpresa.

E ele não foi um one hit wonder (aquela banda que só consegue emplacar um sucesso em toda a carreira). Teve boas sacadas no ano seguinte, notoriamente Moisés e Mina, e acertou, em um primeiro momento, na contratação de Cuca para liderar o primeiro título brasileiro do Palmeiras em 22 anos. Acontece, porém, que não demorou para ficar clara a sua principal falha: a escolha de treinadores.

Ao longo dos cinco anos em que comandou o futebol do Palmeiras, seguiu uma linha que podemos chamar de conservadora quando decidia quem colocaria na casamata alviverde. Começou com Oswaldo de Oliveira, um veterano que não fazia um grande trabalho há muitos anos e não conseguiu fazer mais nenhum. Marcelo Oliveira era um nome óbvio quando chegou, bicampeão brasileiro nos anos anteriores, mas acabou sendo no Palmeiras que começamos a descobrir a profundeza da sua decadência.

Cuca talvez tenha sido o que mais se aproximou de um meio termo. Era rodado, mas havia preservado a imagem de técnico de primeira linha quando trocou o Atlético Mineiro pelo Shandong Luneng e fez um bom trabalho na primeira passagem. Houve apenas duas exceções, tentativas infrutíferas com os novatos Eduardo Batista e Roger Machado, cujos primeiros momentos de baixa fizeram com que o dirigente imediatamente recorresse ao que ele considerava ser bolas de segurança.

No primeiro caso, foi o retorno de Cuca, que deixava claro em cada entrevista que sua vontade era fazer qualquer outra coisa que não fosse treinar um time de futebol. No segundo, foi Luiz Felipe Scolari, e o fato de Mattos ter acreditado que ele era a solução evidenciou duas coisas importantes: uma visão restrita de curto prazo, a qual Felipão realmente correspondeu com o título de 2018, e a ausência quase completa de criatividade para pensar em nomes de treinadores.

E esse foi o grande problema do mandato de Alexandre Mattos. Em nenhum momento, talvez com exceção da primeira temporada em que a demanda era diferente, ele foi capaz de conceber, desenvolver e executar um projeto de time, tanto na manutenção de uma ideia na contratação de treinadores, sempre apelando a qual medalhão estava disponível no mercado, quanto na própria montagem do elenco, que continuou a ser tocada à base de volume e manchetes, sem seguir uma linha coerente.

Porque uma coisa influencia a outra. O jogador que um treinador pediu e aprovou pode não servir para o comandante seguinte e, com mudanças tão frequentes quanto às que o Palmeiras colocou em prática sob Mattos, o elenco vai pouco a pouco se transformando em uma colcha de retalhos. E os grandes reforços que deveriam agradar gregos e romanos, como Borja e Gustavo Scarpa, nunca conseguiram entregar o prometido.

Entre as boas sacadas, Mattos também fez alguns negócios inexplicáveis. Fabrício, Michel Bastos e Henrique Dourado talvez sejam os melhores exemplos. Guerra até valia a tentativa, mas não deu certo. Erik custou R$ 13 milhões e nunca se firmou. E há uma coleção de nomes que o palmeirense nem tem certeza se chegaram a realmente jogar de verde, como Emerson Santos, Rodrigo, Régis e Artur Cabral.

Esses em particular foram resultado da estratégia de imposição financeira para arrebatar as revelações de outros clubes brasileiros, mas sem nunca dar reais oportunidades a elas, ao mesmo tempo em que ocupam espaços que poderiam ser dos jogadores das categorias de base, e assim chegamos ao atual elenco que tem um craque, alguns jogadores muito bons, mas também uma série de vaga-lumes e atletas notas seis ou seis e meio.

Era suficiente. O campo e bola meio destrambelhado do Palmeiras nos últimos cinco anos conseguiu brigar pelos títulos diante do nível baixo de futebol jogado no Brasil, até o Flamengo aumentar a exigência e mostrar que era possível fazer mais, tanto na qualidade dos reforços quanto do trabalho do treinador.

E agora o Palmeiras não precisa mais de um dirigente famoso que contrata em baciada e consegue fechar negócios que outros não conseguiam porque está em outro patamar em termos financeiros e de reputação. O que precisa é de alguém que consiga replicar o modelo rubro-negro, proporcionalmente ao que o clube paulista pode gastar, que também não guarda nenhum segredo: ótimos jogadores comandados por um ótimo técnico.

Quando Felipão caiu, e Mano Menezes foi contratado, o principal questionamento foi por que trocar um treinador identificado com a torcida palmeirense por outro muito ligado ao maior rival e que pregava mais ou menos o mesmo estilo de futebol. Sampaoli e Jesus já haviam mostrado que era possível, com elencos mais ou menos qualificados, ter resultados com um futebol mais agradável de se ver e, principalmente, mais bem jogado.

Mano Menezes tentou entregar um estilo mais expansivo de jogo, mas evidentemente não era a pessoa mais recomendada. Nem seus melhores times tinham essa característica e, naquele momento, havia acabado de deixar o Cruzeiro com um fim de trabalho horroroso. Então por que foi contratado? Se a ideia era que o Palmeiras atuasse com mais posse de bola e ofensividade, não era melhor ter contratado alguém que soubesse fazer isso?

Porque Mattos nunca se importou com filosofias e ideias de jogo. Porque sempre quis contratar Mano e, quando teve a oportunidade, o fez, independentemente de ser o que o time precisava. Essa foi sua linha: contratar nomes fortes, de jogadores ou treinadores, e depois ver o que dava para fazer. Mano acabou sendo a última tentativa de fazer com que ela esse certo, o último suspiro de um projeto moribundo, o último exemplo de que o dirigente que ganhou o apelido de “mito” havia se tornado obsoleto às novas necessidades do clube, e a demissão de ambos é a chance de finalmente tomar um rumo diferente.