Na Argentina, o Dia do Goleiro é comemorado em 12 de junho. A data remete ao nascimento de Amadeo Carrizo, considerado o melhor goleiro sul-americano do Século XX. Já no Brasil, o Dia do Goleiro se celebra em 26 de abril, por um motivo parecido. A ideia é relembrar a carreira de Manga, um dos melhores arqueiros da história do país, em seu aniversário. O pernambucano pode se dizer ídolo de todos os clubes que passou e a homenagem aconteceu quando ainda estava na ativa, em 1976. Por iniciativa de Raul Carlesso e Reginaldo Bielinski, professores da Escola de Educação Física do Exército, 26 de abril virou data festiva a todos os goleiros.

E numa semana na qual a Argentina se despediu de Carrizo, falecido aos 93 anos, Manga será bem cuidado pelos brasileiros. Aos 82 anos, o craque enfrentou dificuldades nos últimos anos, entre a falta de condições financeiras e complicações de saúde. A partir de agora, o goleiro poderá desfrutar de sua velhice no Retiro dos Artistas, em iniciativa ampla, que contou com o apoio de profissionais da imprensa e fãs do veterano, sobretudo torcedores do Botafogo. Será o primeiro jogador de futebol a morar no local.

A história de Manga foi bastante falada durante os últimos meses. O goleiro se aposentou no Barcelona de Guayaquil no início dos anos 1980 e, desde então, seguiu vivendo no Equador ao lado da atual esposa. Em setembro de 2019, porém, declarou que gostaria de “passar seus últimos dias no Uruguai”. Contou com um amplo auxílio do Nacional, um dos tantos clubes onde se fez lenda e com o qual conquistou a Copa Libertadores de 1971. Torcedores tricolores se esforçaram para bancar a viagem, dar abrigo a Manga em Montevidéu e custear uma cirurgia à sua insuficiência renal. O próprio clube passou a providenciar um auxílio regular. Todavia, em janeiro, o pernambucano preferiu retornar ao Equador para se juntar à família.

Agora, Manga volta ao Brasil. O goleiro foi chamado para morar no Retiro dos Artistas, instituição centenária que auxilia artistas idosos no Rio de Janeiro. O veterano tinha sido convidado pela reportagem da ESPN para assistir ao Botafogo x Bangu pelo Campeonato Carioca e contar sua história. A partida acabou realizada com portões fechados, mas Manga esteve presente e ainda visitou um treino dos botafoguenses. Passou um pouco de sua experiência aos atuais goleiros alvinegros, entre eles Gatito Fernández e Diego Cavalieri.

Durante as conversas com o jornalista Marcelo Gomes, da ESPN, Manga contou também seu desejo de retornar ao Brasil. A esposa do pernambucano havia contatado seus antigos clubes no final de 2019, quando ele necessitava da operação renal, mas não obteve resposta. Diante da confissão do veterano, conforme contou à reportagem do UOL, Gomes entrou em contato com Stepan Nercessian (presidente do Retiro dos Artistas, além de botafoguense fanático) para pedir ajuda. Em poucos dias, o ator assegurou uma casa para o ex-arqueiro no local e ele teria onde morar se permanecesse no Rio de Janeiro.

A habitação ainda necessitaria de uma reforma. Assim, uma campanha idealizada por Marcelo Gomes e pelo cinegrafista Fábio Lonardi viabilizou o dinheiro. A torcida do Botafogo se mobilizou em peso: os alvinegros garantiram mais de R$14 mil, que servirão para as obras e também para mobiliar a residência. Manga morará ao lado de sua esposa, Maria Cecília, com acompanhamento médico e cinco refeições gratuitas por dia. Por enquanto, diante da situação do coronavírus, não poderão voltar a Quito para buscar seus pertences.

Nascido em Recife, Manga teve uma infância humilde e superou uma varíola, que deixou marcas em seu rosto. De tanto apanhar mangas, ganhou o apelido. E depois de fazer fama nas peladas da Ilha do Leite, como um jovem arqueiro arrojado e corajoso, seria levado ao Sport em 1954. Com os rubro-negros, ganhou a titularidade após brilhar em uma excursão à Europa e conquistou um Campeonato Pernambucano. Mudou-se ao Rio de Janeiro em 1958, quando acertou sua transferência ao Botafogo.

Manga vestiu a camisa alvinegra por uma década e se firmou como fenômeno. Foram quatro títulos no Campeonato Carioca, três no Rio-São Paulo, diversas excursões de sucesso. Era essencial ao esquadrão do Botafogo. Chegaria à seleção brasileira em 1965 e seria convocado à Copa de 1966, mas não se saiu bem quando entrou. Jogado em uma fogueira no duelo decisivo contra Portugal, falhou na eliminação e perdeu seu espaço na equipe nacional. Também não demorou a ter problemas nos alvinegros, acusado de vender o estadual de 1967. Arrumou briga sobretudo com João Saldanha. Assim, saiu pela porta dos fundos, mas acertou com o Nacional.

O Gran Parque Central serviu para ampliar a grandeza de Manga. Foi quatro vezes campeão uruguaio e faturou a inédita Libertadores, então um feito restrito ao Peñarol no país. O goleiro seria um dos grandes nomes na campanha de 1971, na qual sofreu apenas quatro gols. Na decisão, o Bolso desbancou o então tricampeão Estudiantes. A volta ao Brasil se deu em 1974, quando assinou com o Internacional. Seria também protagonista no esquadrão de Rubens Minelli, com três taças do gaúcho e outras duas no Brasileiro, consagrando-se com a grande atuação na final de 1975, contra o Cruzeiro.

Depois disso, Manga rodaria. Teve seu melhor momento no Operário, que alcançou as semifinais do Brasileirão. Também foi campeão estadual no Coritiba e no Grêmio. Por fim, ergueu o troféu do Campeonato Equatoriano pelo Barcelona de Guayaquil, antes de se aposentar aos 45 anos. Trabalhou como preparador de goleiros nos Canários, onde chegou a ter José Francisco Cevallos entre seus aprendizes. Já neste momento, poderá desfrutar o carinho no Brasil, o que não aconteceu da devida maneira desde sua saída há quatro décadas. Torcidas para adorá-lo não faltam. E, por isso, é importante o papel dos clubes em respeitar e relembrar a lenda.

Neste sentido, o Dia do Goleiro poderá ser especial em 2020. Embora a data possua mais de 40 anos de significado, Manga mal a viveu de perto. No próximo 26 de abril, poderá sentir um pouco mais o calor daqueles que aplaudem sua história e reconhecem sua importância dentro do futebol. As condições sanitárias não permitem uma homenagem presencial a Manga. A internet, ainda assim, pode ter um papel importante para celebrar o gigante que possui tamanho significado.