Quando se pensa na ótima fase do Liverpool, o nome de Sadio Mané é um dos primeiros que vêm à cabeça. O senegalês é autor de seis dos 23 gols que os Reds marcaram até então na Premier League, sendo o jogador com o maior número de gols no time. Quem o vê jogando com Philippe Coutinho e Roberto Firmino, e formando, com eles, um trio de ataque cheio de sintonia, tem a impressão de que os três jogam juntos já há algum tempo. Bem, os dois brasileiros, sim. Mas Mané foi um pedido de Jürgen Klopp para esta temporada, depois de se destacar no Southampton. E embora tenha sido fácil para ele chegar em um dos maiores clubes do mundo e se adaptar rapidamente, sua trajetória até à elite do futebol não foi nem um pouco simples.

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É sobre isso que o camisa 19 do Liverpool fala em entrevista exclusiva ao Goal.com, em aspas que ele conta como foi ter que deixar sua família para trás com apenas 15 anos de idade para enfrentar diversos obstáculos em busca de seu maior sonho. Como o futebol estava presente em sua vida antes de se tornar profissional e como seu destino começou a ganhar forma. “Tudo começou quando deixei a cidade em que eu vivia para ir para a Dakar com meu tio. Lá aconteceriam algumas peneiras”, revela o jogador. “Chegamos lá e tinham muitos garotos sendo testados e organizados em times. Nunca me esquecerei disso. É engraçado agora, mas quando eu estava lá havia um homem mais velho que me olhava com uma cara como se eu estivesse no lugar errado”.

“Ele me perguntou: ‘você está aqui para fazer o teste?’. Eu respondi que sim. Então ele fez outra pergunta: ‘mas com essas chuteiras? Olhe só para elas! Como você consegue jogar com isso?’. Realmente, minhas chuteiras eram bem ruinzinhas. Eram velhas e estavam rasgadas. Então, ele virou e disse: ‘e com esse calção? Você não tem nem um calção decente para jogar boa?”, narra Mané. “Eu falei para ele que estava ali com tudo de melhor que eu tinha, e que eu só queria jogar e mostrar um pouco do que eu sabia fazer. Quando entrei em campo, pude ver uma expressão de surpresa em seu rosto. Ele veio até a mim e falou: ‘estou escolhendo você imediatamente. Você jogará no meu time”.

O atacante revela que desde muito novo tem o futebol guardado do lado esquerdo de seu peito. “Lembro de quando tinha uns dois ou três anos de idade, eu já vivia com a bola nos pés. Se eu visse crianças jogando futebol na rua, eu logo ia atrás e pedia para jogar com elas”, conta. “Foi assim que eu comecei a praticar o esporte. Apenas nas estradas e ruas da vida. Quando fiquei mais velho, comecei a ir assistir aos jogos no estádio, especialmente quando a seleção senegalesa ia jogar. Eu queria ver meus heróis e me imaginar no lugar deles”, diz. “Senegal foi à loucura na Copa do Mundo de 2002, quando chegamos às quartas de final em nossa primeira vez na competição. Mas na minha vida já era só futebol muito antes disso acontecer”.

“Lá no vilarejo onde eu morava, nós costumávamos ter um pequeno campeonato. Eu sempre estava lá para assistir”, narra o jogador. “Todo mundo me dizia que eu era o melhor na cidade jogando futebol, mas minha família não ligava muito para o esporte. Eles são muito religiosos, e, por isso, queriam que meu caminho fosse dentro da religião. Mas quando eles começaram a enxergar que na minha cabeça e no meu coração só existia o futebol, eu consegui convencê-los a me deixar ir para a capital para participar das peneiras. No começo eles não aceitaram a ideia. Mas quando eles viram o quanto eu queria jogar bola e que não havia nada mais para mim, eles decidiram me apoiar”.

Mané começou sua trajetória nas categorias de base do Génération Foot, time de Dakar. No entanto, suas condições financeiras eram muito precárias para que ele, ainda muito jovem, pudesse se sustentar em outra cidade. O clube não o dava suporte extracampo, mas ele conta que contou muito com a sorte e a boa vontade de pessoas desconhecidas nessa época de sua vida. “Fui viver com uma família que eu sequer conhecia. Minha família conhecia alguém que conhecia essas pessoas, que me levou até a casa delas. Lá, fui acolhido. Cuidaram de mim e fizeram de tudo para que eu me preocupasse apenas com o futebol. Isso até o dia que eu fui para a França, para assinar contrato profissional com o Metz”.

“Eu disse a mim mesmo para aguentar firme e continuar trabalhando duro. Para me esforçar porque algo grandioso me aconteceria. Foi o que eu fiz”. Após uma temporada no clube francês em que ele jogou em boa parte das partidas da segunda divisão do Campeonato Francês, Mané se transferiu para a Áustria, onde atuou pelo Salzburg. E foi lá que sua carreira deslanchou de vez. Foi lá que ele viu que sua capacidade para colocar a bola na rede era real. “Depois disso, fui para a Premier League. Joguei bem Southampton e Jürgen Klopp me quis. Agora eu sou sortudo o bastante por estar trabalhando com um dos melhores técnicos do mundo. Isso estava destinado a acontecer”.

“Por muito tempo senti muita falta da minha família. Da minha mãe, das minhas irmãs. Mas para me tornar um jogador de futebol eu precisei passar pela saudade. Precisei enfrentar dias difíceis”, desabafa o camisa 19. “Muitos, muitos, muitos garotos com os quais cresci junto, garotos muito habilidosos, por sinal, não tiveram a chance que eu tive de se tornar profissional”, complementa. “Sei que as coisas que foram difíceis foram importantes para o meu sucesso. E agora eu estou aqui, sem arrependimentos. Estou vivendo o meu sonho”. E, para Mané, este ainda é só o começo dessa experiência que está colhendo depois de derrubar muito suor.