Roberto Mancini é uma figura central na Itália durante os últimos meses. O treinador assumiu o comando da seleção e vem conduzindo um bom trabalho, para recuperar o prestígio dos azzurri após a ausência na Copa do Mundo de 2018. O elenco se renovou e conta com jogadores de potencial, que podem fazer bonito na Eurocopa adiada para 2021. Ainda assim, o momento é mais de concentrar esforços nas necessidades do que pensar no supérfluo. Os italianos enfrentam um cenário assustador com a pandemia de coronavírus e precisam se unir mais.

Neste domingo, a Gazzetta dello Sport publicou uma longa entrevista com Mancini. O técnico deixou várias de suas ideias e impressões, desde a sensação da calamidade aos desdobramentos que a suspensão das atividades causa. O veterano não nega o impacto que sofre, sobretudo com as centenas de mortos em Bérgamo, cidade que se tornou símbolo da devastação que o vírus pode causar. No entanto, mantém as esperanças.

“A imagem daquele comboio de caminhões militares saindo de Bérgamo com os caixões foi como um soco na minha cara. Ninguém estava preparado para seu inferno na Terra. Pensar que as pessoas estão morrendo porque não há leitos suficientes é um absurdo, completamente inaceitável”, declarou o treinador. “Nossos médicos estão fazendo um trabalho heroico e tenho absoluta fé neles. É por isso que eu nem considerei deixar a Itália. Quero me sentir próximo dos necessitados. Eu digo que sou um cidadão simples, não devo ter privilégios por meu papel institucional ou porque represento a Itália”.

Mancini também revelou que perdeu um colega de infância em meio à pandemia: “Estou preocupado com meus pais, que ainda moram em Jesi [cidade na região central], mesmo que estejam bem. Minha irmã me ligou para dizer que um amigo de infância morreu por causa do coronavírus. Ele costumava jogar bola comigo quando éramos crianças. Trabalhava voluntariamente para a Cruz Verde em Jesi”.

Por outro lado, o comandante não esconde o orgulho ao ver a comunhão dos compatriotas, sobretudo nos vídeos em que vizinhos cantam e tocam músicas tradicionais nas sacadas de seus apartamentos: “Gostei muito daqueles vídeos. São a Itália mais autêntica, isso nos representa. É o que damos de melhor em circunstâncias difíceis, abraçamos, ajudamos e colocamos toda a nossa humanidade em jogo. Essas pessoas, depois de tanta dor e medo, mereciam ter a Eurocopa para se distrair e recomeçar”.

Sobre a Eurocopa, Mancini não esconde que gostaria de jogar ainda nesta temporada. O treinador, entretanto, compreende as necessidades sanitárias e a prioridade oferecida aos clubes, caso seja possível voltar a campo dentro de algumas semanas. Para ele, a competição continental poderá apresentar um nível alto em 2021, com outras seleções fortes aprimorando suas gerações.

“Espero uma Eurocopa de alto nível, com muita qualidade. Tentaremos ganhar um torneio de primeira. Mal posso esperar para ficar à frente do banco e ouvir o hino nacional. Depois de tudo o que nosso país está atravessando, será uma sensação imensa”, analisou.

Para a Itália, o adiamento é benéfico em certos aspectos. Com um elenco em clara renovação, diversos jovens podem evoluir em 12 meses. Além disso, há também a chance de recuperar atletas lesionados – a exemplo de Nicolò Zaniolo.

“Claramente, recuperar um jogador com características únicas como Nicolò é importante e muitos jovens jogadores estarão mais experientes uma temporada depois. Se Federico Chiesa mudasse a um clube maior e jogasse competições internacionais, também aceleraria seu processo de amadurecimento. Disse isso ao pai dele, Federico tem que jogar com máxima motivação. Outros como Domenico Berardi já devem ser estrelas, mas ele ainda tem 25 anos e pode crescer muito no futuro”, pontuou.

“Manuel Locatelli tem uma temporada pela frente para confirmar sua forma e se propor à seleção. Quanto aos laterais, nós conhecemos Adam Masina, embora ele tenha desaparecido do radar um pouco depois de seguir ao Watford. Luca Pellegrini já passou algum tempo com a seleção principal e pode melhorar. Seria ótimo se Emerson Palmieri, que não está jogando muito pelo Chelsea, pudesse voltar à Itália”, complementou.

Além disso, Mancini falou sobre a possibilidade de seguir contando com Ciro Immobile e Andrea Belotti como centroavantes no grupo: “Belotti sempre trabalhou como um maluco, talvez até demais. O Torino sofreu nesta temporada, mas Belotti sempre deu sua contribuição. Ele e Immobile seguem como garantias para nosso ataque da Itália. Se Francesco Caputo repetir a temporada que teve com o Sassuolo, sem dúvidas eu o consideraria”.

Sobre a retomada da temporada, Mancini avaliou que as discussões mais conclusivas não têm razão para acontecer. Inclusive, espera que os clubes aguardem um pouco mais para tomar decisões mais drásticas, como cortar salários: “Não faz sentido tomar decisões agora. Vamos esperar. Penso positivamente, tenho certeza que a liga começará de novo e será concluída. Então, se todos os jogos forem disputados, o problema será menor. E os jogadores ainda têm um senso de responsabilidade para responder da maneira certa, se os clubes precisarem”.

Por fim, o veterano não negou que seu desejo é ver a temporada concluída, não apenas pelo senso de justiça, como também para transmitir uma mensagem forte à sociedade: “A Juventus será a favorita, mas a luta permanecerá aberta. A Lazio está na corrida, mas também diria a Inter, precisamente porque a situação será excepcional, um novo mundo, é impossível fazer previsões. Pode haver surpresas. O importante será recomeçar, porque significaria que recuperamos a normalidade. É por isso que eu esperaria até o último minuto para suspender as Olimpíadas. É uma competição muito importante, seria a festa que o medo deixou para trás”.