Desde a aposentadoria de Alex Ferguson, apenas um clube da Premier League gastou mais do que o Manchester United em reforços, considerando tanto o gasto bruto quanto o saldo entre compras e vendas. A diferença de aproximadamente £ 150 milhões nos dois medidores em relação ao Manchester City não é grande coisa, especialmente espalhada ao longo de seis anos, e a distância assustadora entre o que ambos alcançaram nesse período aponta para muita coisa errada em Old Trafford – bem óbvio para quem acompanha o clube.

Os erros podem ser traçados a escolhas de treinadores, à falta de uma visão de médio ou longo prazo e à ausência de um diretor de futebol com um perfil técnico, mas principalmente estão no mercado de transferências. A lista de fracassos é longa e cara: Di María, Falcao García, Bastian Schweinsteiger e, mais  recentemente, Alexis Sánchez. E além dos erros crassos, o elenco atual está a milhas de distância da qualidade com a qual um clube tão grande se acostumou.

O lado bom é que o United está ciente do problema e tentando corrigi-lo. É o que afirma uma reportagem publicada no site The Athletic. Na era Ferguson, o processo era liderado pelo próprio treinador, com seu irmão Martin no comando dos olheiros europeus e uma agenda de contatos sem precedentes. Desde que ele se aposentou, o Manchester United acrescentou 45 olheiros à estrutura e, segundo a reportagem, apenas agora o clube sente que desenvolveu o sistema certo e, mesmo que chegue um diretor de futebol, espera-se que as mudanças sejam mínimas.

E não é nenhuma física quântica. Pelo que a matéria descreve, o processo envolve especialmente um análise mais rígida de cada contratação e o uso de dados para ter um panorama mais detalhado dos jogadores, o que é mais ou menos o básico em todo clube grande e vai saber por que demorou tanto para chegar ao Manchester United.

O exemplo dado é o de Aaron Wan-Bissaka, jovem lateral direito contratado por £ 45 milhões do Crystal Palace. Começou com Ole Gunnar Solskjaer dizendo ao clube que precisava de um lateral direito. Especificou as características que queria: capacidade de defender, muita energia, velocidade para atacar e voltar para evitar contra-ataques. Enfim, em resumo, ele queria um bom lateral direito. Os analistas chegaram a 50 nomes, diminuíram a lista para 15 e enviaram olheiros para fazer a análise detalhada desses nomes, atualizando Solskjaer durante o processo. Enfim, chegaram a três candidatos e começaram a negociar com todos ao mesmo tempo, caso não desse para contratar a primeira opção.

O mais diferente é a utilização de investigadores particulares para coletar informações que às vezes não estão em campo. Pode parecer exagero, e é um pouco, porque o exemplo que justifica a estratégia poderia ter sido solucionado com uma busca no Google. Quando o Manchester United contratou Marcos Rojo, em 2016, acertou um contrato de cinco temporadas com o defensor argentino sem saber que ele estava sendo investigado por agredir um vizinho com uma garrafa e poderia ser preso. A informação chegou ao clube apenas depois da assinatura do contrato, quando um funcionário escreveu “Rojo” no site de pesquisa citado acima.

Ali o clube aprendeu a usar o Google antes de comprometer dezenas de milhões de libras, mas o defensor acabou chegando a um acordo com seus acusadores e tudo ficou bem. Em outro caso, o United teve menos sorte. Bastian Schweinsteiger passou dois anos pouco notáveis em Old Trafford, quase sempre lesionado e voando para a Alemanha. Acontece que a sua contratação não passou por nenhum tipo de filtro: apenas seguiram a palavra de Louis Van Gaal, técnico da época. Segundo a reportagem, o United diz que esse tipo de erro dificilmente acontecerá novamente.

O processo, relata a matéria, evitou que o clube contratasse Jérôme Boateng. Quando ele estava sendo considerado, custaria £ 13 milhões, valor baixo para um jogador do seu status. Mas negócios que parecem bons demais para serem verdade geralmente o são. O United analisou os dados de Boateng e descobriu que ele tinha uma tendência a cair de rendimento a partir dos 25 minutos do segundo tempo. Corria menos, não dividia, não interceptava, não bloqueava e era vulnerável a atacantes rápidos. Isso combinado com o que já se sabia da sua propensão a lesões levou o clube a desistir da contratação. No último mercado, preferiram pagar muito mais por Harry Maguire, que pelo menos parecia um reforço confiável.

A reportagem também explica os motivos que levaram o Manchester United a não tentar a contratação de Neymar, quando ficou público que ele queria sair do Paris Saint-Germain, o que contraria a filosofia do executivo Ed Woodward de que o clube precisa sempre ter pelo menos um candidato a melhor do mundo dentro do elenco, mas que também levou a contratações de renome que não deram certo – embora seja aceitável o argumento do United de que, quando Alexis Sánchez foi contratado, pouca gente achou que seria um erro.

No caso de Neymar, houve um preconceito com jogadores brasileiros, explicitado em uma piada de mau gosto e xenofóbica (“Se você tem um brasileiro, tem um brasileiro. Se tem dois brasileiros, tem dois brasileiros. Se tem três brasileiros, tem uma roda de samba”), mas a decisão também envolveu o fato de o pai e agente de Neymar ser visto como “obcecado por dinheiro” e que o próprio jogador é mais vidrado em ganhar a Bola de Ouro do que Cristiano Ronaldo e Messi, mas não se dedica ao sonho com o mesmo esmero, nem parece entender o que precisa mudar para concretizá-lo.

Natural que depois de tantos erros os diretores do Manchester United tenham ficado um pouco tímidos, o que é mais explícito na recusa a fazer uma proposta por João Félix do que na decisão de não ir atrás de Neymar – que de fato traz consigo todo um pacote de problemas. Quando ouviram que ele estaria disponível, mas por um alto valor, ficaram em dúvida sobre a capacidade de o seu físico se adaptar ao futebol inglês e se ele conseguiria realizar tudo que prometeu. E faz sentido. O Atlético de Madrid também assumiu um risco ao comprometer tanto dinheiro a um jovem claramente talentoso, mas que teve apenas uma excelente temporada na carreira.

No entanto, enquanto o Atleti está em um momento que pode correr riscos, o Manchester United, depois de tantos erros, precisa minimizá-los.  A nova abordagem já foi aplicada no último mercado e deve ser colocada a teste de verdade em janeiro, quando o clube buscará quatro contratações, priorizando um atacante. A reportagem também diz que o clube está ciente que precisa de pelo menos meia dúzia de novos jogadores para realisticamente voltar a ser um candidato ao título e, se for verdade, ótimo. O primeiro passo para resolver um problema é identificá-lo.