Alexis Sánchez, Juan Mata, Ander Herrera, Antonio Valencia, Matteo Darmian, Nemanja Matic, Anthony Martial, Jesse Lingard, Phil Jones e Paul Pogba. Esses nove nomes representam mais ou menos metade dos homens adultos que o Manchester United tem sob contrato para jogar futebol com a sua camisa e que foram desfalques no jogo de volta das oitavas de final da Champions League contra o Paris Saint-Germain. Ole Gunnar Solskjaer não teve escolha a não ser colocar em campo o melhor time remendado que podia e lotar o banco de reservas de moleques. E, de alguma maneira, funcionou. No Parque dos Príncipes, o Manchester United venceu o Paris Saint-Germain por 3 a 1 e avançou às quartas de final.

LEIA MAIS: Cantona: “Solskjaer é o filho espiritual de Alex Ferguson, como Guardiola e Cruyff”

Impossível dissociar do resultado final os erros individuais do Paris Saint-Germain, espalhados pelos três gols. Também impossível ignorar que a molecada do Manchester United mostrou caráter para resistir aos avanços franceses durante boa parte dos 90 minutos, que Lukaku foi brilhante para aproveitar as oportunidades cedidas pelo adversário e que Rashford teve a personalidade de um veterano para cobrar o pênalti decisivo nos acréscimos, diante da lenda Gianluigi Buffon, com quase o dobro da sua idade.

E que Solskjaer, o homem do gol no último minuto, conduz um trabalho brilhante, que revolucionou uma temporada praticamente perdida do Manchester United. Do time insosso de José Mourinho, os Red Devils têm tudo para terminar a Premier League entre os quatro primeiros e alcançaram uma das classificações mais emocionantes da sua história, daquelas que compõem a mística do clube que se reconstruiu do pior desastre para, em dez anos, ser o primeiro inglês campeão europeu e que foi protagonista de uma das finais mais eletrizantes de todos os tempos. Sublinham o espírito que parecia perdido desde a aposentadoria de Alex Ferguson, um orgulhoso decano assistindo a tudo das arquibancadas, convidado pelo pupilo a viajar a Paris com a delegação.

Lukaku, agora com seis gols nas últimas três partidas, aproveitou o passe para trás de Thilo Kehrer para entrar na área, driblar Buffon e abrir o placar, com uma jogada que melhor mistura suas qualidades: técnica, força e velocidade. Era o tento que o Manchester United precisava, tão cedo no jogo, para ganhar confiança e esperança. Dez minutos depois, Juan Bernat jogou água no chope, ao completar o cruzamento rasteiro de Mbappé na segunda trave. O United, mais uma vez, precisava de dois gols.

.

 

O que provavelmente ninguém esperava é que o primeiro deles seria um presente de Buffon. Depois de um período de domínio do PSG, em que De Gea precisou fazer uma boa defesa e Di María quase ampliou com um chute colocado, Rashford mandou de fora da área. Buffon bateu roupa, e Lukaku estava mais uma vez muito ligado para conferir. Faltava um gol.

 

Para ser sincero, pouca coisa aconteceu no segundo tempo. Parecia um jogo de sério, cada um esperando o outro errar primeiro. O Paris Saint-Germain teve imensa posse de bola – terminou o jogo com 72% -, mas criou pouco. A ponto de as finalizações certas da partida terem sido divididas quatro a quatro entre os dois times. A melhor chance apareceu quando Mbappé recebeu sozinho e tentou driblar De Gea, mas pisou na bola, completando uma noite muito ruim da jovem estrela francesa.

 

E eis que no começo dos acréscimos do segundo tempo, Dalot, que estava em campo apenas porque o improvisado Eric Bailly saiu machucado – porque, afinal, parece muito difícil, no momento, ficar inteiro vestindo a camisa do Manchester United -, chutou, e Kimpembe desviou com o braço. O United preparava o escanteio, quando o árbitro esloveno Damir Skomina foi alertado pelo assistente de vídeo e foi checar.

 

Kimpembe, de fato, pula com o braço um pouco aberto. Também, de fato, pula de costas e provavelmente não teve intenção de tocar a bola com ele. Enquanto não houver uma regulamentação objetiva para esse tipo de lance, haverá quem ache que ele aumentou o comprimento do corpo, que ele não aumentou o comprimento do corpo o bastante, que foi um movimento anti-natural, que foi um movimento natural, e dez pessoas em uma sala discutindo o lance terão dezenove opiniões diferentes. A que vale, porém, é a do árbitro.

Terei que reforçar este ponto porque ele é muito importante. Rashford tem 21 anos, defende um clube do tamanho do Manchester United, estava em um estádio lotado de torcedores adversários fazendo barulho e tinha que bater um pênalti contra um dos maiores goleiros de todos os tempos para colocar o seu time na próxima fase da Champions League. A maneira como executou a cobrança, com confiança e firmeza, colocando a bola no alto, sem qualquer possibilidade de Buffon defender, apenas ratifica que há algo de muito especial neste jovem atacante inglês.

 

O árbitro estendeu a partida muito além dos três minutos iniciais de acréscimo. O Paris Saint-Germain abafou e pressionou, mas nada conseguiu. Não foi uma atuação coletiva particularmente ruim dos franceses, mas, em que pesem os erros individuais, eles tiveram tempo de sobra para matar a eliminatória. Com peças imensamente mais técnicas que as do adversário, criaram pouco, proporcionalmente ao domínio.

Pelas circunstâncias, a eliminação pode ser mais doída do que aquela contra o Barcelona, levando 6 a 1 no jogo de volta, porque o Paris Saint-Germain atuava em casa, contra um time pior e, mesmo não achando pênalti de Kimpembe, o álibi da arbitragem é muito menor. A derrota serve para o Paris Saint-Germain repensar o seu projeto. Empilhar jogadores bons e importantes ou contratar técnicos competentes, como Thomas Tuchel, nem sempre são suficientes.  Um time também precisa de senso coletivo, cultura e alma, três aspectos que sobraram no Manchester United e que nenhum dinheiro do mundo pode comprar.