A reestruturação segue devagar, mas o Manchester United acaba de dar mais um passo no mercado: o clube anunciou neste sábado a contratação do lateral-direito Aaron Wan-Bissaka, do Crystal Palace, por £ 45 milhões, com cláusulas no contrato podendo elevar o valor a £ 50 milhões. Wan-Bissaka tem apenas 21 anos de idade e sequer fez 50 partidas na Premier League, e isso pode fazer você se perguntar por que diabos os Red Devils pagariam tanto em um lateral tão inexperiente. Vale a pena cavar um pouquinho para descobrir.

O Manchester United vem de um passado recente decepcionante. O péssimo início com José Mourinho e a chegada de Ole Gunnar Solskjaer – primeiro como técnico interino, emplacando uma sequência vitoriosa apenas para, logo depois, preparar terreno para a frustração do fim da temporada – criaram as condições para um momento de transição importante no clube.

O vai e vem de técnicos e contratações nos anos que sucederam a era Alex Ferguson resultou em um elenco pouco equilibrado e de péssimo aproveitamento em relação às expectativas. Os grandes nomes não rendem o esperado, e o número de jogadores medianos ou medíocres não é pequeno. Um dos mais criticados é justamente Ashley Young, atual lateral-direito titular do clube.

Young acabou por virar um símbolo do fraco desempenho técnico do clube nos últimos tempos. Se em outros momentos o jogador pôde viver dias melhores, com boas atuações contra grandes adversários, a última temporada deixou claro que, se o United deseja alçar voos maiores, não pode ter alguém como ele como titular.

Além de ineficaz no ataque, em 2018/19, Young se tornou uma enorme deficiência defensiva dos Red Devils. Não foram poucas as oportunidades em que gols foram sofridos e pontos, desperdiçados, devido a erros do experiente ponta transformado em lateral. O United precisava reforçar o setor, e a solução foi encontrar o exato oposto de Young.

Em uma época em que os grandes laterais do mundo, como Trent Alexander-Arnold e Andrew Robertson, do rival Liverpool, são exaltados por sua proficiência ofensiva e pela contribuição aos gols da equipe, Wan-Bissaka se destacou justamente pelo que faz na outra metade do campo.

Nascido em Croydon, ao sul de Londres, e de ascendência congolesa, Wan-Bissaka começou sua vida no futebol como ponta-direita. Dessa origem, herda características interessantes para um lateral, como o movimento rápido dos pés e as fintas, que o tornam às vezes imprevisível para os adversários. Mas seu maior aporte é curiosamente na defesa.

“Seus pontas não gostam dele”

Talvez a principal característica do jovem de 21 anos seja seu desempenho no um contra um. É realmente muito difícil passar pelo jogador. Não é à toa que a torcida do Crystal Palace dedicou a ele um verso em que diz aos torcedores adversários: “Seus pontas não gostam dele”. Seu talento defensivo surpreendeu até Wilfried Zaha, jogador dos mais dribladores da Premier League.

“Fiquei meio chocado com o quão bom ele era quando joguei contra ele. Você pode até passar por ele, mas ele sempre dá um jeito de conseguir um desarme de última hora. Ele é bom demais defendendo.”

Aaron Wan-Bissaka (Reprodução/Instagram)

Wan-Bissaka terminou a temporada como o defensor que mais fez desarmes por jogo na Premier League, com 3,7. No total, só ficou atrás dos volantes Idrissa Gana Gueye, do Everton, e Wilfred Ndidi, do Leicester. Foi também o sétimo atleta com mais interceptações na competição, com uma média de 2,4 por partida. Entre os laterais, foi o segundo menos driblado, com média de 0,3 por jogo.

Ole Gunnar Solskjaer deixou claro perto do fim da temporada que o Manchester United iria atrás de jogadores empenhados, que sabem o significado de defender a camisa de um clube de tamanha estatura e que, portanto, vão se entregar completamente ao projeto, e a mentalidade de Wan-Bissaka certamente teve um papel na escolha do clube.

“É incrível até onde ele chegou, e ele é o mesmo garoto, exatamente o mesmo. Tem os pés no chão, trabalha muito duro no campo de treinamento, te ouve se você lhe diz alguma coisa. Então acho que, com o temperamento, o caráter e a habilidade que tem, pode chegar até o topo”, descreveu ainda neste ano o experiente meio-campista do Crystal Palace James MacArthur.

Se, por um lado, Wan-Bissaka é já um grande defensor, por outro, precisa melhorar seu desempenho no ataque para poder chegar à prateleira, por exemplo, dos laterais do Liverpool. Mas mesmo isso não pode ser descartado. Além da idade a seu favor, conta também com resiliência.

O jogador diz que, nas categorias de base, era um ponta com as características do agora ex-companheiro Wilfried Zaha. Gostava de driblar – o que ainda mantém, sendo o 13º jogador com mais dribles na Premier League – e se expressar ofensivamente. Não gostou inicialmente da transformação em lateral promovida pelos técnicos do Sub-23 do Palace Richard Shaw e Dave Reddington. Ainda assim, abaixou a cabeça, não reclamou e só trabalhou. “Treinar contra o Wilf (Zaha) e o Yanick Bolasie me fortaleceu.”

Ainda que sua origem pudesse sugerir que ele se tornaria um jogador bastante ofensivo, foi justamente ela que ajudou a moldar um dos melhores defensores no um a um. “Como um ex-ponta, você tem uma ideia do que eles estão tentando fazer, para qual lado podem ir, como eles estão pensando. Dá para antecipar as coisas com mais facilidades”, explicou ao Guardian em fevereiro deste ano, época por volta da qual viveu um de seus momentos de maior destaque, liderando o número de desarmes entre todos os jogadores das cinco grandes ligas europeias.

Wan-Bissaka liderou estatísticas defensivas entre os laterais

Cravar que Wan-Bissaka será um sucesso, seja no Manchester United ou em sua carreira como um todo, é um exercício de futurologia que não estou disposto a fazer. O que é possível é analisar a contratação no momento em que ela acontece – e por que ela acontece com estes termos.

Para vingar no futebol, mais do que bola, o jogador precisa ter a mentalidade certa. Os indícios até aqui apontam que isso Wan-Bissaka tem. O atleta é, sim, uma aposta do United, ainda mais por esse preço. Porém, é uma aposta calcada em terreno sólido. Se dá certo, o clube pode ter um lateral-direito atuando em bom nível durante cerca de dez anos. E se tem algo de que um time do status do United precisa, ainda mais depois de atingir o baixo patamar em que está hoje, é de estabilidade. E isso se faz também com o estabelecimento de uma base de jogadores longeva e determinada.