O dérbi de Manchester mudou muito de figura nos últimos anos e o jogo desta quarta-feira foi um capítulo inesquecível para os torcedores do Manchester City. Mesmo jogando em Old Trafford, casa do seu rival de cidade, o Manchester United, o time comandado por Pep Guardiola foi melhor, teve mais futebol, uma melhor estratégia e mais talento para superar o United por 2 a 0. Assim, assume a pole position na acirrada disputa com o Liverpool pelo título inglês, que tenta conquistar consecutivamente pela primeira vez na sua história.

O Manchester City venceu os últimos 16 jogos consecutivos na Premier League, algo que tornou a briga pelo título uma batalha de excelência. O Liverpool tem mantido a toada, bravamente, mas o que o Manchester City faz é algo ainda mais impressionante. Dizimou a vantagem que o Liverpool tinha na tabela até o meio da temporada e, agora, efetivamente toma a ponta para assumir a pole positivo na disputa pelo título. O Liverpool precisará torcer para que a excelência e precisão do City se perca, em algum momento dos próximos duelos, para ter alguma chance.

A disputa do título não terminou com essa vitória do Manchester City, mas deixa o time de Guardiola como o favorito a partir da agora, nas próximas três rodadas, para assegurar a conquista da taça. Há três duelos no calendário do City para terminar a temporada da Premier League: Burnley fora de casa; Leicester em casa; Brighton fora de casa. Claro que é possível algum deles tomar ponto do City, mas a força que o time mostrou, por ter um futebol dos mais envolventes e eficientes da Europa, o deixa na pole position desta corrida pelo título.

Mudança de forças em Manchester

A vitória também foi uma demonstração de diferença de forças no momento. Manchester segue sendo uma potência do futebol inglês e europeu, mas não mais pelo lado vermelho, e sim pelo lado azul da cidade. O time de Guardiola é melhor em todos os aspectos que o rival e isso ficou claro jogando no estádio que costumava ser o mais temido de todo o futebol inglês. O City jogou mais, dominou a posse de bola e foi melhor, mesmo em um jogo que o United se esforçou muito para equilibrar o jogo. Como conseguiu, no primeiro tempo. Não sustentou no segundo.

Manchester United despedaçado

O esforço que o Manchester United fez em campo para igualar o duelo com o Manchester City. A superioridade do rival fez Ole Gunnar Solskjaer armar um time muito mais defensivo, o que parecia ser uma boa estratégia. Mesmo assim, o que se viu em campo foi um time muito, muito inferior. A derrota torna a busca por uma vaga nos quatro primeiros colocados, e consequentemente à Champions League, muito mais complicada. Para sorte de Solskjaer e seus comandados, o Arsenal sofreu e perdeu do Wolverhampton. Assim como o Chelsea já tinha empatado em casa com o Burnley. O United, porém, parecia ter se arrumado com o novo técnico. Já não parece mais. E precisará mostrar mais bola nos últimos três jogos da temporada, contra Chelsea, em casa, Huddersfield, fora, e Cardiff em casa.

Escalações, formações e estratégias

O técnico Ole Gunnar Solskjaer pareceu tentar adotar uma formação tática e uma estratégia que teve sucesso no jogo contra o PSG, em Paris, pela Champions League: uma linha de cinco defensores, com Matteo Darmian, normalmente lateral, como um dos zagueiros. Romelu Lukaku ficou no banco, assim como o volante Nemanja Matic, que foi mal na goleada sofrida diante do Everton, e do atacante Anthony Martial. O ataque do time da casa foi formado por Rashford e Lingard.

Pep Guardiola manteve o seu esquema mais usado, 4-3-3. A lateral esquerda, um dos problemas do time, foi ocupada pelo ucraniano Oleksandar Zinchenko. Kompany e Laporte formaram a zaga, com Kyle Walker na lateral direita. Fernandinho foi o titular no meio, com Ilkar Gündogan ao seu lado e David Silva com mais liberdade. O ataque tinha Raheem Sterling, Bernardo Silva e Sergio Agüero.

O jogo

Foram 20 minutos bastante intensos no início do jogo. Como esperado, nos primeiros minutos o Manchester City teve mais a bola. E o United demorou alguns minutos para conseguir um primeiro ataque, mas foi perigoso quando teve a bola. E obrigou Kompany a fazer uma falta dura, logo a 10 minutos. Em cima de Rashford. O zagueiro e capitão do City levou o cartão amarelo.

O primeiro chute perigoso do time da casa foi de Pogba, que chutou de fora da área e fez Ederson trabalhar. O City, com a posse, chegou ao ataque com Sterling em um chute que foi fraco, mas como foi desviado, quase pega De Gea de surpresa. A pouca força colocada na bola permitiu que o goleiro espanhol chegasse a ela.

O United fazia um jogo muito direto quando tinha a bola e foi mais perigoso. Aos 16 minutos, um lançamento longo de Pogba, da esquerda, para Lingard, na direita, já dentro da área. O atacante pegou de primeira, em um chute muito difícil, mas mandou para fora. Levou perigo ao gol defendido por Ederson, tirando um “UUUH!” da torcida.

O City conseguiu a resposta aos 18 minutos. Depois de uma boa troca de passes, David Silva ajeitou para Bernardo Silva, na entrada da área, e o português soltou uma bomba de pé esquerdo. A bola foi forte e bem defendida por De Gea, que estava bem posicionado e espalmou para frente. O United saiu rapidamente no contra-ataque com Lingard, que lançou Rashford. O atacante até conseguiu chegar à bola antes do goleiro do City, mas não o suficiente para tirar dele.

Atento no jogo, o Manchester United tentou mais uma vez, em um chute perigoso, aproveitando um erro de passe de Gündogan, interceptado por Andreas Pereira e que rapidamente acionou Rashford. O camisa 10 do United não pensou muito: ajeitou o corpo e bateu para o gol, mesmo de longe. A bola foi por cima, mas levou perigo e assustou Ederson.

As estratégias estavam bem claras. O City sempre coma bola, rondando a área do United, que fechava cada espaço. O time azul pouco conseguia fazer com o espaço que lhe era dado. Além disso, o United estava sempre ligado para aproveitar qualquer bobeada do City. Em alguns momentos, no primeiro tempo, o United tomou a bola, se antecipando ou interceptando, mas errava em seguida, ou adiantando demais a bola, ou segundo demais ou errando o passe.

Ao seu estilo, o City foi costurando uma chance, aos 42 minutos, trocando passes e mais passes com a sua habitual precisão. A bola chegou em Sterling, que fez a finta, já dentro da área, mas finalizou sem muito equilíbrio. Ainda assim, exigiu uma ótima defesa do goleiro De Gea, outra vez bem posicionado. A melhor chance do City no jogo até ali. Logo depois, aos 44, Agüero até recebeu a bola dentro da área, com um pouco de espaço, mas finalizou mal.

No início do segundo tempo, problema para Guardiola: Fernandinho sentiu lesão e precisou deixar o gramado. Sem um jogador que possa substituí-lo com a mesma característica, o técnico preferiu tornar o time ainda mais ofensivo. Colocou Leroy Sané no lugar do lesionado brasileiro, recuando Bernardo Silva para formar trio com Gúndogan, mais recuado, e David Silva.

Logo nos primeiros minutos em campo, Sané apareceu na ponta esquerda com perigo, tocou para David Silva, recebeu de volta e cruzou perigosamente. Lindelof afastou dali. Logo depois, porém, não teve jeito. Bernardo Silva, na nova função, recebeu de Gündogan com mais liberdade do que vinha tendo, puxou da direita para dentro e chutou, no canto do goleiro De Gea, de forma precisa e rasteira: 1 a 0 para o Manchester City, aos oito minutos.

Aproveitando que o adversário ainda estava atordoado, o City desferiu outro golpe e o United escapou apenas por sorte. Em uma troca de passes pelo meio, Sergio Agüero finalizou colocado, mas a bola tocou o pé da trave e saiu. Em 10 minutos do segundo tempo, o City pareceu resolver um problema que lidou durante todo o primeiro, sem sucesso.

O United se reestabeleceu e criou uma chance, mas a desperdiçou. Rashford chegou ao ataque, depois de uma travada, e aproveitou uma bola no alto para cruzar novamente para a área. Kompany furou, sem conseguir interceptar a bola, mas Lingard igualmente o fez, logo atrás, sendo surpreendido. Perdeu a chance de empurrar a bola para as redes, já que a bola passou por cima do goleiro Ederson no cruzamento e se oferecia limpa para ser colocada para dentro.

Aos 20 minutos do segundo tempo, um erro foi fatal. Fred errou em passe no meio-campo. Kompany tomou a bola, tocou para Sterling, que avançou com muita velocidade, esperou o momento certo e abriu para o lado esquerdo, onde estava Sané. O camisa 19 recebeu e estava na cara que chutaria. E chutou no canto do goleiro De Gea, que aceitou: 2 a 0 para os Citizens em pleno Old Trafford. Tornou a missão muito mais difícil.

A vantagem tornou o jogo muito confortável para o City. A posse de bola, que já era sua, permitia controlar o jogo. Seus poucos torcedores entre os mais de 70 mil presentes passaram a ser ouvidos, enquanto os do United sentiam o peso da decepção. Peso, aliás, que os jogadores do United em campo também pareciam sentir.

Solskjaer tentou mudar o time sacando o meio-campista Andreas Pereira e colocando o centroavante Romelu Lukaku. Tornou o time mais ofensivo, mas o problema não era bem esse. A questão para o lado vermelho do dérbi era criar chances, que rarearam com o passar dos minutos em campo. O controle do jogo foi do City, que desacelerou o jogo, tocando com paciência e tranquilidade ainda maiores do que o seu habitual. Ditou o ritmo. Deixou o Manchester United correndo de um lado para o outro, tendo que lidar com a pressão e o desespero.

Solskjaer fez mais tentativas desesperadas de mudar um jogo que parecia já decidido. Tirou Jesse Lingard e colocou Anthony Martial; também tirou Matteo Darmian e colocou Alexis Sánchez. Desfez a linha de cinco, enfim, aos 38 minutos do segundo tempo. O problema era que o seu time não sabia como recuperar e muito menos manter a bola. Os acertos no primeiro tempo em retomar a bola e acelerar o jogo não funcionavam mais. O City, que ficava sempre adiantado e tentando arriscar.

Uma vitória categórica do City diante do seu rival de cidade, histórico, e que torna o caminho para o título muito mais aberto. É favorito, mas a disputa ainda não acabou. Será preciso manter o nível de atenção, e de futebol, para garantir três vitórias nos últimos jogos e, assim, ficar com a tão almejada taça da Premier League.

FICHA TÉCNICA

MANCHESTER UNITED 0 X 2 MANCHESTER CITY

Estádio: Old Trafford, em Manchester (ING)
Público: 74.431 pessoas
Árbitro: Andre Marriner (ING)
Gols: Bernardo Silva aos 9’/2T, Leroy Sané aos 21’/2T (Manchester City)
Cartões Amarelos:
Vincent Kompany, Oleksandr Zinchenko (Manchester City), Andreas Pereira, Luke Shaw (Manchester United
Cartões Vermelhos:
nenhum

Manchester United

David De Gea; Matteo Darmian (Alexis Sánchez, 38’/2T), Ashley Young, Chris Smalling, Victor Lindelof e Luke Shaw; Andreas Pereira (Romelu Lukaku, 27’/2T), Fred e Paul Pogba; Jesse Lingard (Anthony Martial, 38’/2T) e Marcus Rashford. Técnico: Ole Gunnar Solskjaer

Manchester City

Ederson; Kyle Walker, Vincent Kompany, Aymeric Laporte e Oleksandr Zinchenko; Fernandinho (Leroy Sané, 6’/2T), Ilkay Gündogan (Danilo, 44’/2T) e David Silva; Raheem Sterling, Sergio Agüero (Gabriel Jesus, 44’/2T) e Bernardo Silva. Técnico: Pep Guardiola