“O que dizem no Brasil é uma mentira”. As palavras são de Malcom, comentando algo que virou notícia no Brasil nos últimos dias, desde a sua ida para o Zenit, da Rússia. Contratado e anunciado no dia 2 de agosto, o atacante foi recebido da pior forma possível, com racismo, no seu primeiro jogo. Por causa desse episódio, uma agência de notícias russa especulou que o brasileiro poderia deixar o Zenit no próximo mercado de transferência, em janeiro, algo que ele negou em entrevista ao site russo Sport24.

O Zenit pagou € 40 milhões para tirar Malcom do Barcelona. Ele recebeu a camisa 8 e foi a campo pela primeira vez no dia 4 de agosto, quando a torcida levou uma faixa de protesto que dizia: “Obrigado aos diretores pela fidelidade às tradições”, uma ironia em relação ao clube não contratar jogadores negros. Aliás, não só negros: estes ultras (espécie de torcida organizada) defendem que apenas os jogadores de origem eslava (como sérvios, croatas, bósnios) e jogadores do leste e norte da Europa, por exemplo, joguem pelo clube.

Oficialmente, o clube não concorda com isso – tanto que contrata jogadores sul-americanos e negros, como Hulk, que defendeu o clube de 2012 a 2016. O clube, porém, não parece querer combater essas manifestações claramente racistas dos seus torcedores. Mais do que isso, veio a público para tentar esclarecer. O comunicado que o Zenit emitiu foi de uma cara de pau tremenda: disse que a faixa foi mal interpretada.`

“O Zenit tem uma longa tradição de convidar os melhores jogadores de todo o mundo, independente do seu passado, etnia ou nacionalidade. Há muito tempo o clube apoia e instiga iniciativas antiracistas, inclusivas e de igualdade e continuará a fazê-lo agora e no futuro”, diz o texto do clube russo. O texto culpa a imprensa no exterior e outros, como clubes de futebol, que “desonestamente relataram a questão” e ainda diz que espera que estas organizações possam “verificar completamente os fatos antes de fazer quaisquer declarações ou acusações depreciativas”.

O site Sport24 pergunta a Malcom: “A imprensa no Brasil tem discutido rumores nos últimos dias que você foi mal recebido pelos torcedores e que supostamente no inverno [mercado de janeiro] você pode deixar o Zenit”. Malcom, então, diz a frase que está no início deste texto. “Eu quero ficar aqui no Zenit. Cumprir meu contrato, fazer história. O que eles dizem no Brasil é uma mentira. Eu estou feliz por estar no Zenit, este é um estágio importante para mim. E, como eu disse, eu quero fazer história aqui”, afirmou Malcom em entrevista.

Foi o máximo que a entrevista do Sport24 chegou a tratar sobre a questão do racismo e, mesmo assim, de forma bastante indireta. Nesse sentido, a entrevista não pareceu querer entrar em algo que seria uma polêmica no país. O Zenit nega o que aconteceu, mesmo com o comunicado dos seus torcedores. O próprio Malcom não parece incomodado.

Outro tópico que foi falado é de seleção brasileira e seleção russa. O entrevistador diz que como ele não jogou pela seleção brasileira – embora tenha sido convocado -, se ele considera a possibilidade de jogar pela Rússia. “Você não jogou pela seleção brasileira ainda. Na Rússia há uma tradição que se um bom brasileiro que não joga pela seleção vem para cá, nós damos a ele um passaporte e oferecemos para jogar pela Rússia. Você gosta desse plano?”, pergunta o repórter.

A resposta de Malcom, claro, é bastante polida. “Eu não sei, tudo pode acontecer. Se a seleção brasileira não me convocar, e a Rússia mostrar interesse, então tudo pode acontecer”, respondeu o brasileiro. Essa possibilidade, porém, é muito remota: para poder se naturalizar e poder defender a seleção russa, é preciso morar, ininterruptamente, por cinco anos na Rússia.

Isso significa que é preciso que Malcom fique no país até 2024, quando terá 27 anos. Se, até lá, não tiver jogado nenhuma partida oficial pela seleção brasileira, ou seja, Eliminatórias da Copa ou Copa América, ou mesmo Copa do Mundo, então ele poderia se naturalizar. Por isso, é bastante improvável.

O jogador ainda falou sobre a escolha do Zenit, que conta ter sido muito rápido. “Tudo aconteceu realmente muito rapidamente. Depois de conversar com o Zenit, nós concordamos. O Zenit entendeu que eu queria jogar, mostrar meu futebol na Europa e jogar a Champions League. Eu sabia que para mim este seria um bom passo, eu estarei sendo visto por todo o mundo pelo meu futebol”, declarou Malcom.

“Eu rapidamente concordei, mais uma vez eu nem precisei pensar, eu sei que o Zenit é um time sólido na Rússia e na Europa. Além disso, eu queria conhecer uma nova cultura, língua, um novo país, um novo futebol. É importante para mim sempre aprender algo novo, incluindo outros países e culturas”, contou o jogador.

Outro ponto polêmico da sua carreira foi o acerto com a Roma, depois desfeito pelo interesse do Barcelona. Segundo Malcom, quem tomou a decisão foi o Bordeaux, não ele. “Este é um caso que ficará para a história. Meu empresário acertou tudo com a Roma, tudo estava pronto. De repente, o Barcelona apareceu. Como resultado, a proposta do Barcelona foi aceita pelo presidente do Bordeaux. Eu não escolhi, eu fui para o Barcelona. Mas eu posso dizer que foio realmente um sonho jogar pelo Barça, junto com os melhores do mundo”, contou Malcom.

Malcom jogou duas partidas pelo Zenit até aqui, ambos entrando no segundo tempo. No primeiro jogo, contra o Krasnodar, jogou 18 minutos no empate por 1 a 1, no dia 3 de agosto. Depois, no dia 10 de agosto, entrou no intervalo da vitória por 2 a 0 sobre o Dynamo Moscou.