Documentários sobre grandes jogadores costumam ter um tom positivo, poucas vezes fugindo de um roteiro padrão. Começam na infância ou adolescência, passam pelos obstáculos para virar profissional, a chegada ao time principal, os grandes títulos e jogos, às vezes uma lesão séria ou algum momento de baixa para dar um tempero extra, e terminam na aposentadoria e na veneração da torcida dos clubes que eles defenderam. “Make Us Dream”, disponível no Amazon Prime, sobre Steven Gerrard tem todos esses elementos, mas o tom não é positivo. E não é porque, equilibrando os altos e baixos, a história de Gerrard no Liverpool (ainda) não teve um final feliz.

Seu último jogo com a camisa vermelha, uma derrota por 6 a 1 para o Stoke City, foi uma boa metáfora, mas serve apenas como epílogo. A jornada do herói termina no escorregão contra o Chelsea e subverte as expectativas que temos quando assistimos a um filme normal: o mocinho hesitará, terá conflitos internos, passará por enormes dificuldades, mas conseguirá completar a sua missão. Há tudo isso na trajetória de Gerrard, menos o triunfo final. Ele nunca conquistou a Premier League. Como se Luke Skywalker deixasse cair o sabre de luz contra Darth Vader ou se Indiana Jones tropeçasse no próprio chicote, com a diferença de que nem Skywalker e nem Jones eram cobrados por milhares de pessoas todas as vezes em que iam à padaria.

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O que torna “Make Us Dream” rico e ao mesmo tempo sombrio é a maneira crua como Gerrard relata o quanto foi difícil suportar o fardo de ser o Messias de um clube tão gigante. Ser adorado por uma torcida fanática como a do Liverpool e atuar na atmosfera que ela constrói em Anfield são os benefícios de quem decide atuar por ela. Mas a mesma intensidade que torna isso verdade aumenta a pressão quando as coisas não dão certo, e, durante a carreira de Gerrard, muita coisa não deu certo. Como capitão, craque do time e ídolo local, representante de cada um dos torcedores dentro de campo, Gerrard sentiu a responsabilidade de reverter esse cenário, especialmente porque muitas vezes ele era o único que poderia fazer isso.

Quando conseguisse, como em Istambul, sentiria alívio e alegria como poucos homens vivos. Quando falhasse, profunda tristeza, como notou na derrota para o Chelsea na Copa da Liga de 2005. “Naquele dia, eu percebi que os altos seriam os melhores dias da minha vida e os baixos seriam os piores”, disse. O começo daquela temporada foi um momento marcante para Gerrard no Liverpool, porque foi quando ele efetivamente ficou sozinho, após a saída de Michael Owen para o Real Madrid. Ao lembrar do episódio, não fez questão de esconder um pouco de ressentimento porque os dois formavam uma dupla de jogadores criados em casa que reergueriam o Liverpool mas, de repente, ele estava sozinho.

Não por acaso, começaram a surgir as primeiras especulações sobre uma saída de Gerrard para o Chelsea, com os cofres recheados pelos euros de Roman Abramovich e comandado pelo fã confesso do meia, José Mourinho. A narrativa de que Gerrard estava prestes a sair tomou conta daquela temporada. Narradores chegaram a dizer que, dependendo do resultado da final da Copa da Liga, ele poderia decidir ficar ou ir embora, atribuindo um pouco de importância demais a uma competição secundária. A final da Champions League, por outro lado, poderia ter esse potencial.

Curiosamente, teve para os dois lados. Em meio ao êxtase de uma virada que ocorre apenas uma vez por geração, Gerrard disse: “Como eu posso ir embora depois do que aconteceu hoje?”. O mercado seguinte, porém, foi o que mais esteve próximo de trocar de clube. Embora campeão europeu, o time continuava fraco demais para disputar títulos com frequência e talvez uma sensação de dever cumprido também tenha influenciado. E havia os problemas com o treinador. Rafa Benítez tem qualidades, mas nenhuma delas é ser caloroso com seus jogadores, dar uma mensagem de apoio quando necessário, e Gerrard ressentia-se de não contar com a total confiança do seu chefe.

“O que eu estava dando ao clube era minha vida. Eu dei tudo. Mas talvez eu merecesse jogar em um time melhor, por um treinador que gostasse de mim. Talvez fosse melhor seguir em frente. A minha cabeça estava girando e eu estava preso naquele giro”, lembrou, ao documentário. A imprensa noticiou que ele havia informado ao clube que queria sair. Conversas contratuais estavam em andamento. Torcedores queimavam camisas número 8. E, no fim, o responsável por mantê-lo no Liverpool também se chama Gerrard. “Eu era jovem e estava um pouco perdido. Tinha tanta coisa acontecendo, era difícil pensar direito e tentar não tomar uma enorme decisão da qual você não tem certeza se é certa ou errada. É preciso alguém próximo para lembrá-lo de quem você é”, disse.

Esse alguém foi o seu pai, Paul: “No final das contas, será sua decisão, mas aquelas pessoas não vão amá-lo como as pessoas daqui. Você não pode mudar quem você é, a maneira como foi criado. Você é um scouser (alcunha de quem nasceu em Liverpool)”. E Gerrard acrescentou: “Ele me disse: esses torcedores adoram-no. Você é tudo para eles. Você é a esperança deles, os sonhos deles, todos os dias. O Liverpool está no seu coração, esqueça o que está na sua cabeça. Se o Chelsea está na sua cabeça, é só um barulho. Lembre-se de onde veio, quem o criou. O Liverpool é o seu time”.

E Gerrard ficou: “Nove em dez vezes, talvez o certo fosse ir. Mas não sou um dos nove. Eu sou o um”.

“Eu não deveria ter jogado”

Steven Gerrard, do Liverpool, contra o Chelsea (Photo by Clive Brunskill/Getty Images)

O filme tem alguns defeitos. Como o entrevistado nunca aparece na tela, fica um pouco difícil sacar quem está falando. E, depois do fico, o ritmo acelera demais. Passa rápido pela saída de Torres e nem cita que o clube foi vendido para a Fenway Sports Group. Fala de uma séria lesão no púbis que quase encurtou sua carreira e, de repente, estamos na temporada 2013/14, quando um veterano Gerrard teve a última oportunidade de conquistar a Premier League. Ao longo da trajetória do jogador, a importância da quebra do jejum de títulos ingleses, entrando em seu 30º ano, foi muito bem construída, e o desavisado poderia pensar que o equivalente ao beijo do mocinho na mocinha no fim do filme seria Gerrard erguendo a taça aos céus.

Como sabemos (spoiler alert), não foi assim que aconteceu. O Liverpool ficou muito próximo de conquistar o Campeonato Inglês naquela temporada, mas a derrota para o Chelsea, em casa, foi crucial, combinada com o empate com o Crystal Palace, no jogo seguinte, depois de abrir 3 a 0 no placar. Infiltrações e analgésicos foram os únicos motivos de ele ter disputado 34 rodadas naquela Premier League. Gerrard conviveu com dores a temporada inteira e a semana anterior ao jogo contra o Chelea foi particularmente dolorosa.

O próprio admitiu que não deveria ter entrado em campo, mas o capitão, o líder, o herói, o Messias, não poderia ficar de fora de uma partida tão decisiva, e, no sacrifício, ele entrou em campo para ser protagonista de um dos momentos mais cruéis que o futebol já viu. De todas as 22 pessoas com permissão para tocar na bola em Anfield naquela tarde, ninguém merecia menos ficar marcado pela derrota do que ele, de uma maneira tão embaraçosa quanto escorregando no meio-campo e tentando alcançar Demba Ba antes que ele fizesse 1 a 0.

Gerrard sabia que havia sido a última chance, até porque, quando a temporada reiniciou, reviveu cenas de capítulos anteriores quando Suárez foi vendido ao Barcelona. Anunciou alguns meses depois que jogaria pelo Los Angeles Galaxy e, por mais que Brendan Rodgers tenhar recebido parte da culpa por não ter conseguido segurá-lo em Liverpool, o documentário deixa claro que era impossível. Depois de tantos anos sendo o depósito de “sonhos e esperanças” do seu povo, depois de ter feito tudo que podia, de ter entregado um título europeu, de ter ficado quando o mais racional seria ir embora, de ter desafiado o próprio corpo para tentar uma última vez, Gerrard queria o direito de simplesmente jogar bola: “Aqui (em Los Angeles), eu tive a chance de respirar. Terminar a minha carreira com um sorriso no rosto”. Em Liverpool, Gerrard era Deus. Na Califórnia, poderia ser apenas Steven.

O documentário termina com Gerrard na lateral do gramado comandando a molecada do Liverpool, antes de virar treinador principal do Rangers, dizendo que ainda “tem assuntos não resolvidos”. E talvez o final do filme não seja o herói bebendo o cálice da glória porque a trajetória ainda não terminou. Talvez a franquia tenha uma continuação, com Gerrard de terno e gravata no banco de reservas de Anfield. Talvez “Make us Dream” seja “O Império Contra-Ataca” e não “Uma Nova Esperança”.

“Não acredito que minha jornada esteja completa. Veremos”, encerrou Gerrard.