Em uma época de pandemia, um meme traz um humor um tanto mórbido: homens bem vestidos dançando enquanto carregam um caixão. O meme viralizou especialmente em uma época que se fala sobre a pandemia do novo coronavírus, mas vai bem além disso. O grupo retratado nos vídeos é o Dancing Pallbearers, de Gana. E é um ritual muito respeitoso, que celebra a morte lembrando o que a pessoa fez de bom. O líder do grupo, Benjamin Aidoo, é um apaixonado por futebol. É torcedor do Barcelona e, claro, é muito fã de Lionel Messi.

O meme com os dançarinos carregando caixões voltaram à tona nesta pandemia do novo coronavírus, mas já aconteciam desde 2015, ao menos. Nos vídeos, as pessoas aparecem fazendo coisas perigosas, ou às vezes só mesmo pouco inteligentes, seguida do vídeo dos dançarinos vestidos com ternos, chapéus e ao som da música Astronomia, de Tony Igly. Com isso, o meme que a pessoa cometendo o ato estúpido ou perigoso acaba morrendo. No ritual real, porém, a música é outra, mais característica do país e algumas vezes com temática religiosa.

“Estou achando ótimo, as pessoas estão usando minhas imagens para se divertir enquanto estão entediadas em suas casas”, afirmou Aidoo à Folha. “Sextas e sábados são os dias mais movimentados de funerais aqui. Comecei a oferecer esse serviço para amigos, primeiro com uma equipe, depois duas, três… Hoje tenho cem pessoas trabalhando comigo”, contou.

As equipes de Aidoo são compostas por sete pessoas. Seis carregam o caixão, enquanto uma atua como uma espécie de regente, que guia o grupo. “No começo, nós apenas carregávamos o caixão nos ombros, da igreja ou da casa da pessoa para o cemitério. Mas chegou um ponto em que pensei: quero acrescentar algo a isso, algo que faça as pessoas se animarem, rirem, em vez de chorarem”, explicou.

“Minha opinião é que temos que comemorar a morte. Por quê? Porque quando uma pessoa nos deixa, temos que lembrar o que ela fez durante a sua vida. Você sabe o que essa pessoa contribuiu, o que ela fez por você. De alguma maneira você tem que agradecer a ela que, em parte, você é como é graças a essa pessoa. Por isso dançamos”, afirmou Aidoo à rádio Cadena Ser, da Espanha.

“Eu decidi adicional coreografia a isso, então se o cliente vem até nós, perguntamos a ele: ‘Você quer uma solenidade ou você quer um pouco mais performático? Ou talvez você queira alguma coreografia? Eles apenas pedem e nós fazemos”, explicou Aidoo em entrevista à BBC, em 2017.

“Essas pessoas, quando eles estão levando nossas pessoas amadas ao seu lugar de descanso final, eles também dançam, então eu decidi dar à minha mãe uma viagem dançante para o seu criador”, contou Elizabeth Annan à BBC.

Um torcedor do Barcelona e fã de Messi

“Meu jogador favorito é Messi, me encanta. Gosto da sua maneira de jogar e dos gols que marca. Sinto amor pelo futebol que ele pratica. Além disso, não é egoísta, isso é muito importante. Me encanta o futebol e me encanta jogar, é um dos meus hobbies”, afirmou Benjamín Aidoo, criador do grupo.

“Sou torcedor do Barcelona, eu gosto muito. Mas sobretudo sou fã de Messi, é um jogador enorme. É um líder e temos que agradecer, sem ele o Barcelona não seria o que é. Tendo Messi, o Barcelona ganhou títulos que sem ele não teria conseguido e não teríamos melhorado tanto como melhoramos nos últimos anos”, analisou o ganês.

Festa pelo que significou a vida

Em janeiro de 2015, o blog Follow My Braids relatou que foi até Gana para o funeral da sua sogra. “Eu fui informado que os funerais ganeses são muito extravagantes e podem durar dias. Esta bonita ‘volta para casa’ durou três longos dias e valeu a pena para uma rainha-mãe que agraciou a terra por 96 anos”, diz o post no blog.

Segundo o relato, os familiares contribuem para o funeral e alguns chegam a pegar empréstimos, quando não têm dinheiro, porque o ritual de passagem é importante. Depois da morte, é comum que as pessoas fiquem até dois meses no mortuário, em freezers, até que a família consiga decidir uma data, um local e possa fazer todas as preparações para o funeral. Além disso, são usadas roupas feitas para o funeral. É uma tradição que a família vista preto e branco com um mesmo padrão. As cores preta e branco são vestidas para celebrar quem passa dos 70 anos. Há muita comida, preparada pela família da pessoa que morreu. Por fim, os dançarinos carregadores de caixão.

“Foi uma experiência alucinante! Estou tão feliz por poder testemunhar esse desempenho pessoalmente. Na verdade, gostei do incrível talento e força desses jovens. E eles nunca perdem o ritmo!”, conta o blog.

Com o serviço que oferece, Benjamin criou mais de 100 empregos para jovens homens e mulheres. Segundo ele, é uma forma de tentar amenizar o desemprego no país. E o ritual é feito com afinco, com direito aos membros do grupo com uma roupa elegante. Algo que é um investimento do líder, que faz questão que todos usem roupas e sapatos elegantes e padronizados, como dá para ver nos vídeos.

Os funerais são eventos sociais importantes. Por isso mesmo, muitas pessoas investem um bom dinheiro para ter uma despedida com estilo para seus entes queridos, com direito a um grupo que anima um pouco a despedida. As cerimônias custam de 800 a 900 cedi, moeda local (algo entre R$ 700 e R$ 800). Há ainda uma opção de luxo, com roupas toda branca, que custa 1200 cedi (pouco mais de R$ 1 mil). O valor, segundo contou Aidoo à Folha, é negociável em caso de famílias mais pobres, já que não é um valor que qualquer um pode pagar em Gana.

O trabalho de Aidoo, portanto, é tentar dar um pouco de alegria a quem vive momentos duros. Em certo aspecto, tem alguma similaridade com aquele de quem é fã. Lionel Messi leva alegrias e muitas partes do mundo com seu futebol, sua dança, sua arte. Como Aidoo, em Accra, tão distante geograficamente, mas perto a cada gol que o argentino marca com a camisa do Barcelona.