Poucos poderiam imaginar que o São Paulo de Diego Aguirre chegaria à liderança do Campeonato Brasileiro em 2018. Um clube que foi de mal a pior em 2017 e correu riscos de rebaixamento em meados do campeonato queria melhorar o desempenho e mesmo uma vaga entre os seis primeiros já seria bem vista. Só que julho chegou, o São Paulo chegou à primeira posição e a expectativa, como não poderia deixar de ser, também subiu. O título parecia possível e o time entregava resultados condizentes com essa ideia.

LEIA TAMBÉM: No Brasileirão de pouco brilho, a eficiência é o grande mérito do líder Palmeiras

Passados três meses, o São Paulo caiu para a quarta posição, já há seis pontos do líder (podendo chegar a nove ainda na rodada) e ameaçado de deixar o G-4 do Campeonato Brasileiro, que dá vagas diretas à fase de grupos da Libertadores. Quinto e sexto colocados entram nas fases preliminares e precisam começar a temporada a sério mais cedo, o que é sempre um risco. Como um time que estava no curso da liderança, com tudo parecendo a seu favor, viu a maré virar a ponto de sentir a ameaça de ficar fora dos quatro primeiros colocados? O que se viu no jogo contra o Atlético Paranaense no Morumbi ajuda a entender.

O jogo de sábado à noite era muito importante para o São Paulo. O Atlético Paranaense é um bom adversário, que o time sentiu na pele na Copa do Brasil, ao ser eliminado pelo Furacão. Ao mesmo tempo, foi neste ano que, no primeiro turno, o time paulista quebrou o tabu de nunca ter vencido na Arena da Baixada, em Curitiba. Só que o que se viu no Morumbi foi o São Paulo ainda cheio de problemas e incapaz de decidir jogos. O placar de 0 a 0 é ruim e, mais do que isso, um alerta.

A equipe comandada por Diego Aguirre deu um salto no final do primeiro turno para tomar a liderança que era, então, do Flamengo. Vitórias improváveis, conseguidas por vezes na bacia das almas e com alterações que o técnico fazia, pararam de acontecer. A lesão de Éverton tirou do time um dos seus pilares e Aguirre não conseguiu soluções para esse problema que não fossem temporárias, como Reinaldo atuando no seu lugar. Em alguns jogos que o time não conseguia jogar bem, alterações do treinador surtiram efeito e o banco ganhou pontos importantes, como no jogo contra o Vasco, que Santiago Tréllez garantiu o triunfo.

Algo mudou, mas passa menos pelo desempenho do time e mais por problemas que nunca conseguiu resolver. Na sua melhor fase, na liderança, o São Paulo era um dos times que menos dava chutes a gol. O número baixo de finalizações não era um problema porque o time tinha um aproveitamento muito acima da média.

Quando esse aproveitamento caiu, o time passou a fazer menos gols e, assim, vencer foi ficando ainda mais difícil. Em número de passes, sempre esteve entre os que menos tinham a bola e menos passavam a bola, o que exigia que o desempenho ofensivo fosse, acima de tudo, incrivelmente eficiente. Qualquer coisa abaixo disso vira um risco

O ponto onde o time era mais forte, a defesa, também passou a sofrer mais. Permitiu mais chutes do adversário, deu mais espaço, errou mais, coletiva e individualmente. Considerando os últimos cinco jogos, o São Paulo tomou oito gols. Tomou dois gols ou mais em três desses jogos. No jogo contra o Atlético Paranaense, tomou bola na trave e viu o rival chutar 10 vezes ao gol. Tomou uma bola na trave. Também acertou duas na trave, é verdade. Mas o time não é mais tão seguro quanto era em momentos anteriores.

O desempenho do São Paulo na liderança era uma corda esticada. A qualquer momento poderia se romper. Bastava que um dos elementos que vinham muito bem esticassem demais para arrebentar. E, aparentemente, os problemas do time passam por mais de um setor. Na defesa, a mudança de Éder Militão prejudicou, claro, mas o sistema coletivo também piorou. Individualmente, Anderson Martins, por exemplo, perdeu rendimento.

No meio-campo, Jucilei passou a ser questionado pelo seu rendimento e acabou no banco de reservas contra o Atlético Paranaense, substituído por Luan, da base. Nene, que também não vinha rendendo bem, começou no banco e entrou muito bem, mas a alteração acabou sendo um problema: Aguirre tirou Diego Souza, que estava bem. Liziero, um dos que parece que precisa estar no time, também entrou, mas no lugar de Araruna, que era lateral. Hudson foi deslocado para a posição.

Rojas, uma das boas surpresas do time na parada da Copa e que ajudou o São Paulo a crescer e se tornar forte, entrou em uma fase péssima. A sua velocidade segue existindo, claro, mas a tomada de decisão do equatoriano foi muito ruim. Ele errou basicamente tudo que tentou, mas ficou em campo até o final. Poderia ter saído para a entrada de Helinho, um jogador que foi muito bem na Copa São Paulo de Juniores e esteve no banco de reservas pela primeira vez. Acabou não entrando.

Individualmente, o time caiu. Diego Souza e Nene, dois dos melhores jogadores, pareceram sentir, mas continuam sendo muito importantes. Talvez o mais relevante seja mesmo o trabalho pelos lados do campo. Com Éverton fisicamente inteiro e Rojas muito bem, o time tinha força para atacar e defender bem. Sem Éverton e com Rojas mal, o time perde demais e sobrecarrega jogadores como o próprio Nene.

A boa notícia para o São Paulo contra o Atlético Paranaense foi Carneiro, que foi bem no comando de ataque. Fez algumas boas jogadas e mostrou que pode ser uma opção. Só que o time precisa render muito, muito mais do que o que tem rendido. Se não, será necessário voltar a ter um aproveitamento espetacular tanto na defesa quanto no ataque, o que é improvável mesmo para times melhores. É possível fazer mais do que o São Paulo tem feito e esse mesmo time já mostrou isso. Nem que seja buscando alternativas como Helinho. As pontas são as duas posições que mais têm influenciado a eficiência do time. E é esse o problema que precisará ser atacado nas próximas rodadas.

Jogando o que está jogando, a tendência parece ser continuar sofrendo. E o Grêmio, quinto colocado atualmente, pode beliscar essa quarta vaga. O Atlético Mineiro está mais distante e parece mais difícil que alcance o São Paulo, mas não quer dizer que seja impossível. Nos últimos cinco jogos, o São Paulo somou só três pontos, com empates. É verdade que no jogo contra o Atlético Paranaense teve algumas melhoras em relação aos jogos anteriores. A melhora, porém, foi marginal. O time precisa ser mais capaz de decidir jogos. E precisa fazer isso rapidamente.

Na próxima rodada, terá o Vitória pela frente, em Salvador, com os baianos precisando vencer para manter-se fora da zona do rebaixamento. Depois disso, terá a sequência avassaladora que enfrentou na volta da Copa do Mundo e que deu ao time o embalo para se tornar líder: Flamengo, no Morumbi; Corinthians, em Itaquera; Grêmio, no Morumbi; Cruzeiro, novamente no Morumbi. Pode ser suficiente para o time estar praticamente garantido na Libertadores, se conseguir ir bem. Também pode terminar ameaçado de não estar nela, brigando até pela manutenção de um lugar entre os seis primeiros. Depende se o time terá, ou não, uma melhora de rendimento.