O São Paulo prometeu uma apresentação grandiosa a Daniel Alves. E cumpriu o esperado, ao proporcionar horas inesquecíveis para o seu novo contratado. O Morumbi viveu uma noite pulsante, de uma maneira que há tempos não se via no clube. Por mais que seja um sacrilégio comparar, o clima lembrava o que aconteceu durante a despedida de Rogério Ceni. Porém, se aquela ocasião foi de emoção e gratidão a uma lenda que dedicou boa parte de sua vida à camisa tricolor, desta vez o espírito era distinto, entre a empolgação e a expectativa. E, contando com a enorme adesão dos são-paulinos, a diretoria soube vender muito bem o sonho, agora com um rosto. O sentimento de grandeza se ampliou um pouco mais nesta terça.

O importante no anúncio de Daniel Alves não é apenas o bem material, o valor que se agrega ao elenco. É justamente o que se transforma em perspectiva, seja pela mentalidade que o multicampeão adiciona, seja à maneira como os torcedores voltam a perceber o time depois de anos penosos. Isso não afasta o ceticismo, longe disso. O tombo ainda pode ser grande, já que não há garantias de resultados e, temor maior, sequer de que todas as contas realmente poderão se pagar ao final da aposta. De qualquer maneira, o são-paulino está em seu direito de agarrar a esperança. E foi a esperança que reluziu ao longo da noite no Morumbi.

O discurso de Daniel Alves tem o seu efeito. Todo mundo sabe que o capitão da Seleção não jogará de graça. Todavia, preferiu desconsiderar possíveis propostas que seriam mais vantajosas esportivamente ou financeiramente. Além do mais, também não é mentira que sua relação com o São Paulo e a afeição criada ainda na infância influenciaram a sua decisão. É isso o que mais fortalece o laço e cria uma identidade imediata. O sebastianismo pintado no baiano se dá porque os tricolores creem que ele compreende e incorpora o espírito vencedor que regeu o clube antes da derrocada desta década.

“Estou realizando um sonho de criança. Hoje eles não estão contratando um jogador, mas um torcedor do São Paulo. Alguém que se emocionou pelo Raí e por tantos outros nomes como Muller, Cafu, Kaká, Luís Fabiano… É muito prazeroso viver esse dia. Sonhei com este momento, que chegou. Espero retribuir ao São Paulo. Vou tentar retribuir da melhor maneira, não só futebolisticamente, mas também como pessoa, como torcedor. Esta diretoria não vai se arrepender de bater na minha porta. Sei que podem não entender, eu tinha muitas possibilidades, mas hoje estou realizando um sonho”, afirmou Daniel Alves, durante sua primeira coletiva. O pertencimento soa como música aos ouvidos dos são-paulinos, e é por isso que as camisas 10 com o nome de Dani já se multiplicam na torcida.

E as palavras de Daniel Alves são muito bem-vindas por outros motivos. O veterano é reconhecido por sua extravagância e, tantas vezes diante dos microfones, não esconde o orgulho pelo currículo recheadíssimo. Está em seu direito. Contudo, já se entende como uma liderança e sabe que o desafio que enfrentará no Morumbi é outro. Concentra-se em resgatar o brio dos tricolores rumo a novas conquistas.

“Vou tentar ajudar os jovens, mas venho com a mesma cabeça deles, o mesmo objetivo. Tanto que não quis pegar o número de ninguém, por isso escolhi a do Raí. Não sou mais importante do que ninguém. Não sou melhor do que meus companheiros. Quero ser tratado da mesma forma”, pontuou. “O São Paulo está em construção, está caminhando para respeitar toda a sua história. Estou vindo com este intuito, de corresponder com a minha experiência, para que o clube não passe tanto tempo sem almejar títulos. Por isso aceitei este desafio, para ficar perto das pessoas, para ir a um clube que precisa de troféus. Não pode ficar tanto tempo sem títulos”.

Camisa São Paulo 2019
O modelo 2019 da camisa do São Paulo, que tem Hernanes e Daniel Alves
A Trivela pode ganhar comissão sobre a venda.

“Eu acredito que, para o futebol brasileiro, pode ser uma coisa grande ‘eu, Daniel Alves’, mas para mim não. Muitos jogadores maiores que eu já voltaram para o Brasil e, se eu falar aqui, não vai acabar hoje. A começar pelo Romário e aí vai. O que posso dizer é que o São Paulo contratou um dos jogadores mais profissionais, disciplinados. Não é uma profissão fácil e não quero que a expectativa seja maior que minhas pretensões”, complementou. “Eu gostaria de retribuir tudo o que o futebol brasileiro me deu. Temos um compromisso com o nosso futebol, com os jovens que querem ser jogadores, ajudar a família, como fizemos. Devolver um pouco dessa oportunidade que o futebol brasileiro deu.”

Os pés no chão, entretanto, não interferem na ambição de Daniel Alves. O veterano deseja estrear já no próximo final de semana, quando o São Paulo encara o líder Santos pelo Brasileirão. Quer conciliar a sua ascensão no clube de coração com a vontade de estar presente na Copa do Mundo de 2022: “A primeira coisa que solicitei ao São Paulo é que eu preciso de solidez, projeto e estabilidade esportivamente falando, porque tenho outros objetivos. Preciso construir essa história. Sei das dificuldades que vou enfrentar, mas os sonhos que tenho são superiores a qualquer dificuldade. Tenho o desafio de disputar a Copa de 2022, e isso passa por estar em um clube que acredita na minha história e que possa me proporcionar isso. Acredito que isso foi o ponto primordial”.

E se Daniel Alves ofereceu suas primeiras palavras ao São Paulo, não há maneira de traduzir completamente o que aconteceu no Morumbi durante o primeiro contato do veterano com as arquibancadas. O estádio se encheu com 44,2 mil torcedores para entregar o seu carinho ao novo camisa 10, iluminado por sinalizadores e aquecido pelo peito aberto daqueles que confiam neste novo projeto. Dani teve o seu nome aplaudido, cantado, exaltado. Sabe do tamanho do apoio e da responsabilidade que isso representa. Mesmo a alguém como uma carreira tão emblemática, é um desafio enorme – agora com mais experiência, mas também com a idade pesando sobre as pernas.

O São Paulo soube ambientar Daniel Alves. Além de Raí e Lugano, membros da diretoria, e do companheiro Hernanes, o clube levou Luís Fabiano e Kaká para o palco. Incluiu o lateral entre alguns dos maiores ídolos tricolores das últimas décadas. Kaká e Luís Fabiano entregaram as primeiras camisas 10 ao antigo companheiro de Seleção. Já no telão do estádio, os são-paulinos exibiram um vídeo com vários depoimentos desejando sorte a Dani. Cristiane, Casemiro e Miranda apareceram, bem como os ex-companheiros Lionel Messi e Luis Suárez. O novo colega Juanfran, por sua vez, até arranhou (bem) o português.

“Eu não sei como agradecer por este momento que vocês estão me proporcionando, mas eu prometo retribuir com a mesma entrega com que estão me recepcionando hoje. Espero devolver a alegria de fazer história com o São Paulo. Muito obrigado pela recepção. Chega de falar e vamos fazer”, afirmou Dani Alves, diante da torcida. “Não deixem de acreditar em vossos sonhos porque eles são possíveis. Agora, depois de ter rodado o mundo, é o primeiro clube que visto a camisa e sou torcedor. É uma emoção receber esse manto, e o momento chegou”. Logo depois, o veterano seguiu ao escudo do São Paulo na beira do gramado. Tirou os sapatos, subiu no emblema, ajoelhou-se e beijou. Uma reverência que se torna simbólica ao momento.

As juras de amor estão feitas. Daniel Alves transbordou sua paixão tricolor e contou com o abraço de um Morumbi lotado, que representou toda uma torcida. Será necessária paciência e também consciência de que os resultados podem não ser imediatos. Mas, àquilo que se oferece aos são-paulinos, a maioria está disposta a confiar. O craque será mais um como eles, e isso é o mais valioso nesta noite marcante.