Quem acompanha futebol sabe que alguns pensamentos são repetidos cotidianamente por profissionais da área, jogadores, jornalistas e torcedores, mesmo que não sejam totalmente verdadeiros. Um deles é que, entre os muitos fatores que fazem o futebol europeu ser mais evoluído que o do resto do mundo está a longevidade do trabalho dos treinadores nos seus respectivos times.

LEIA TAMBÉM: Caio Júnior brilhou em Portugal e queria ser técnico do Vitória de Guimarães

Em parte, é evidente que essa linha de raciocínio está correta. Basta olhar para os maiores clubes do continente e ver como eles investem na continuidade do trabalho de seus técnicos. Por outro lado, porém, há muitas equipes médias e pequenas que parecem usar o exemplo brasileiro quando o assunto é troca de treinadores.

Em Portugal, a temporada não chegou nem mesmo à metade (faltam duas rodadas para o término do primeiro turno do campeonato nacional) e a substituição de técnicos já está batendo recordes. Em 15 rodadas disputadas até agora, 11 trocas já foram feitas nos comandos das equipes, sendo 10 delas por demissões. Ou seja, dos 18 times da primeira divisão, 11 já não contam com o técnico que iniciou o campeonato.

O único que deixou o cargo por vontade própria foi Jorge Simão. Com campanha de sucesso no Desportivo Chaves, ele aceitou o convite para trabalhar no Braga, que havia demitido José Peseiro.

Os portugueses costumam definir as demissões de técnicos como “chicotadas psicológicas”. Em 2016/17, o chicote estalou pela primeira vez logo na quinta rodada, quando o brasileiro Paulo César Gusmão perdeu o emprego no Marítimo.

A partir daí, outros clubes seguiram o exemplo e também viram na demissão dos seus técnicos uma maneira de tentar resolver os problemas: Belenenses (Julio Velázquez), Boavista (Erwin Sanchez), Rio Ave (Nuno Capucho), Moreirense (Pepa), Paços de Ferreira (Carlos Pinto – foto), Estoril (Fabiano Soares), o já citado Braga (José Peseiro), Feirense (José Mota) e Nacional (Manuel Machado).

Cada clube, naturalmente, tem suas próprias razões para tomar a decisão. É bem provável que alguns tenham acertado na escolha que fizeram, enquanto outros ainda vão perceber que tomaram a medida errada.

O fato é que, mesmo estando geograficamente tão perto de grandes centros do futebol mundial, Portugal não consegue entrar neste seleto grupo. Há diversas razões para isso – muitas vezes explanadas nesta coluna. Enorme diferença de poderio entre grandes e pequenos, desorganização, arbitragem fraca e picuinhas entre dirigentes estão entre os fatores. Outro deles é a falta de equipes que tenham projetos consistentes, nos quais a manutenção do treinador e da filosofia de jogo sejam pontos fundamentais e que não se baseiem apenas na ditadura de resultados.