Hao Haidong vestiu a camisa 10 da seleção chinesa que disputou a Copa do Mundo de 2002. O atacante é considerado um dos maiores jogadores da história do país, atravessando seu auge com a camisa do Dalian Shide, mas também com uma rápida passagem pelo Sheffield United. Aposentado em 2007, o ídolo permanece como o maior artilheiro da seleção (com 41 gols) e como o quarto em total de partidas. Nesta quinta, o veterano de 50 anos voltou às manchetes após participar de um vídeo criticando duramente o autoritarismo chinês.

A manifestação de Hao Haidong aconteceu durante o aniversário de 31 anos do massacre da Praça da Paz Celestial, um dos momentos mais simbólicos na luta pela democracia no país. O ex-atacante concedeu uma entrevista a Guo Wengui, bilionário que fugiu da China em 2014, acusado de uma série de crimes, e passou a viver nos Estados Unidos. Além disso, Hao gravou um vídeo em que faz uma declaração sobre o “Novo Estado Federal da China”. Os vídeos surgiram no YouTube, uma plataforma proibida na internet chinesa, o que não impediu a repercussão.

“Acho que o povo chinês não deve mais ser pisoteado pelo Partido Comunista. O partido deveria ser expulso da humanidade. Esta é a conclusão à qual cheguei após 50 anos de vida”, declarou Hao, falando ainda sobre corrupção e falta de assistência social. O ex-jogador também abordou outros temas importantes, como a ocupação do Tibete e a repressão que ocorre em Hong Kong, bem como a pandemia da COVID-19. O veterano concedeu a entrevista ao lado da esposa Ye Zhaoying – campeã mundial, medalhista de bronze nas Olimpíadas de Sydney e uma das maiores atletas da história do badminton.

Quando ainda atuava, Hao Haidong se manifestava sobre questões sociais e era bastante crítico aos dirigentes do futebol chinês. Mesmo aposentado, seguiu se posicionando contra as decisões da federação chinesa e de alguns dirigentes de clubes locais. Contudo, segundo a agência Reuters, o ex-atacante nunca tinha atacado publicamente a ditadura chinesa ou o sistema político do país. Apontou que a “desilusão com a corrupção nos esportes se transformou em um descontentamento mais profundo”. O veterano mora na Espanha.

Perguntado sobre o assunto, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que “não tinha interesse em comentar essas declarações absurdas, essa farsa”. Um dos mais importantes sites estatais de esportes, no entanto, emitiu uma nota em que dizia: “Hao Haidong fez um discurso que subverte o governo, prejudica a soberania nacional e usa a epidemia de coronavírus para difamar o governo chinês e espalhar inverdades sobre Hong Kong. Nós condenamos veementemente esse comportamento”. Pouco depois, o nome de Hao foi suprimido do artigo e substituído pela letra “H.”. Por fim, o texto seria deletado.

Segundo o Washington Post, a censura chinesa apagou todas as menções ao episódio na internet local. A conta de Hao no Weibo, rede social popular no país, desapareceu. O ex-atacante tinha 8 milhões de seguidores. No Zhihu, um site de perguntas e respostas, os registros também foram deletados. Já o Hupu, que serve como plataforma a torcedores, alertou sobre os “comentários prejudiciais” do ídolo – antes de também apagar a mensagem. O nome do veterano ainda passou a ser censurado em buscas. “Sua manifestação não pode ser vista como um indicador do sentimento popular em relação ao partido, mas Hao é provavelmente o cidadão chinês de maior importância que se manifestou com tanta força contra a liderança política do país, desde que o presidente Xi Jinping chegou ao poder”, analisa o jornal.

O Washington Post também aponta que Hao faz parte dos planos de Guo Wengui para promover suas ideias, após contratar Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump ligado ao nacionalismo e ao conservadorismo: “Os vídeos de Hao representam um pequeno golpe publicitário para Guo, o empresário que tem sido procurado pelas autoridades chinesas por uma série de acusações, incluindo fraude, chantagem e suborno. Depois de fugir da China, Guo, que já trabalhou em estreita colaboração com as principais autoridades da inteligência na China, se reposicionou como um opositor que prometeu derrubar o Partido Comunista, revelando seus segredos no YouTube. Apesar de dominar as conversas políticas em 2017, muitas das revelações de Guo pareciam infundadas ou falsas, e seu perfil perdeu força”.