Nascido na periferia de Paris, Riyad Mahrez poderia ter esperado por uma oportunidade para defender a seleção francesa, mas não se arrepende de ter escolhido vestir as cores da Argélia, onde nasceram seus pais. A importância de ajudar integralmente os Verdes a conquistar a Copa Africana de Nações em 2019, segundo ele, “valeu mais do que mil Copas do Mundo com a França”.

Em entrevista ao jornalista Ismaïl Bouabdellah, da BeIN Sports, o jogador do Manchester City tocou em vários assuntos, da escolha pela seleção argelina ao sonho frustrado de defender o Olympique de Marseille, seu clube do coração. Fez ainda duras críticas à organização da Copa Africana de Nações, mas não sem antes relembrar o histórico título da Argélia em 2019.

Caso você não lembre, Argélia e Nigéria lutavam por uma vaga na decisão da CAN do ano passado, e o empate por 1 a 1 persistia até os 50 minutos do segundo tempo. Eis que, em bela cobrança de falta, Mahrez dá o 2 a 1 aos Verdes e coloca seu nome na história do futebol de seu país, levando-o à final pela primeira vez desde 1990. Na decisão, a Argélia chegou a seu segundo título na história da competição.

“Esta cobrança de falta vale mil Copas do Mundo com a França. Quando eu estava no topo, como melhor jogador da Premier League, todo mundo me dizia: ‘Você poderia estar na seleção francesa’. Mas eu não vivo no ‘você poderia’. O presente era a Argélia”, explicou.

A edição do ano passado da CAN, diferentemente dos últimos anos, foi realizada na metade do ano, no período entre temporadas europeias, no verão do hemisfério norte. O torneio realizado no Egito agradou Mahrez, que se mostrou completamente contrário ao retorno para o fim do ano.

“Façam uma Copa Africana de Nações a cada quatro anos, no verão (europeu). Nós gostamos da edição no Egito, não estava muito quente. Fazer a cada dois anos, no inverno… É por isso que o futebol africano não é respeitado. Temos uma concorrência de louco nos clubes, e aí temos que sair durante dois meses”, reclamou, em relação ao período importante da temporada de clubes que os jogadores africanos perdem ao terem que representar suas seleções.

Sonho frustrado em Marselha

Mesmo nutrindo uma simpatia pelo PSG, que conta com forte torcida nos subúrbios de Paris, onde cresceu o jogador, Mahrez tinha como time de infância o Olympique de Marseille. Com apenas 18 anos, esteve muito próximo de realizar o sonho de defender os Phocéens, mas a história ficou apenas no quase.

“Fui fazer testes em Marselha. Estava muito feliz, porque o Marseille era o meu clube do coração. Eu gostava do PSG, porque era da minha cidade, mas queria muito ir para o Marseille. Fui para Marselha, estava treinando, e lembro que o técnico da base era o Franck Passi. O Anigo (então diretor esportivo do OM) desceu para ver o treinamento, me levou até seu escritório e me disse: ‘Sinceramente, quero assinar com você’. Na minha cabeça, eu estava dentro de um filme. Eu tinha 18 anos. Oito meses antes, estava no Sarcelles (clube amador da comuna onde vivia)”, relembra.

Mahrez então conta que o diretor de futebol do Marseille lhe perguntou se ele havia chegado à cidade de trem e pediu que a secretária do clube lhe comprasse passagens de avião para retornar para casa. Antes de se despedir, deu a Mahrez camisas do Marseille. “Voltei para casa acreditando que tinha acertado minha transferência.”

Porém, tudo mudou rapidamente. Pouco tempo depois do encontro, o Olympique de Marseille decidiu dar prioridade a um jogador da sua base. “Não sei o que rolou, mas, três ou quatro dias depois, ele liga para o meu empresário e diz: ‘Temos um jogador que é parecido com ele aqui, não queremos colocar obstáculos em seu caminho’.”

O jogador era Billel Omrani, que jamais teve sucesso no profissional e, em 2016, se transferiu para o Cluj, da Romênia. Mahrez tomou então outro caminho. Juntou-se ao Le Havre, da Ligue 2, mais tarde, em 2011, passou duas temporadas e meia no clube e então foi identificado pelo Leicester em 2014. Assinou em janeiro e ajudou os Foxes a vencerem a Championship. Mais tarde, virou um dos grandes destaques do histórico título da Premier League em 2015/16.