O Leicester não começou bem sua campanha na Premier League. Venceu apenas dois de seus primeiros oito jogos, chegando a ocupar a zona de rebaixamento. Foi a gota d’água para Craig Shakespeare, que deixou o Estádio King Power com a gratidão por ter ajudado no título de 2016 e na guinada da temporada passada, mas sem impressionar tanto assim por seus atributos na casamata. A diretoria das Raposas até tentou trazer de volta Claudio Ranieri, mas acabou escolhendo Claude Puel para tomar as rédeas do elenco. E novamente o “fato novo” parece transformar o time. Desde então, o Leicester venceu seis dos nove jogos disputados, derrotado apenas pelo Manchester City. Já nesta quarta, emendou o quarto triunfo consecutivo, ao golear o Southampton por 4 a 1 em St. Mary’s. Mais um resultado contundente para ressaltar a arrancada dos azuis.

Nas rodadas anteriores, o Leicester já vinha de excelentes atuações. Pulverizou o Arsenal, superou um duelo difícil contra o Burnley e se impôs em uma partida movimentada contra o Newcastle. Desta vez, não seria um desafio simples, visitando um dos estádios mais difíceis da Premier League. Pois outra vez as Raposas jogaram como os velhos campeões. O time de Claude Puel tinha menos posse de bola, mas compensava pela agressividade no ataque. Foram 11 finalizações apenas no primeiro tempo. E três tentos, que abriram o caminho à goleada.

Entre os renascidos, está Riyad Mahrez. O ponta voltou a mostrar o futebol que sabe. Os números da atual temporada já se aproximam dos registrados na Premier League 2016/17. São seis gols e duas assistências nos últimos 11 jogos. Depois da frustração pela almejada transferência que não aconteceu, com certas rusgas entre o argelino e a diretoria, ele finalmente entendeu que precisa fazer acontecer para melhorar o seu destino. E nesta quarta o camisa 26 abriu a contagem em St. Mary’s, aos 11 minutos. Arrancou em diagonal pela intermediária, em lance brigado, antes de bater cruzado da entrada da área.

Já o bombardeio das Raposas se intensificou depois dos 20. Em uma confusão na área, Shinji Okazaki anotou o segundo aos 32. E o terceiro veio com Andy King, aos 38, a partir de uma falta cobrada por Mahrez, que possibilitou o cruzamento de Harry Maguire para o camisa 10 completar. No segundo tempo, Maya Yoshida descontou ao Southampton. Mas Okazaki fechou a conta aos 24, escorando cruzamento de Jamie Vardy, após ótima enfiada de Mahrez.

Ao menos no papel, o Leicester possui uma equipe qualificada para se intrometer na parte de cima da tabela. Não para alcançar o Manchester City, obviamente, mas para fazer o que o Burnley tem conseguido. E se não fosse o início ruim, talvez as Raposas já estivessem na zona de classificação às copas europeias. O time de Claude Puel termina a rodada com 26 pontos, a quatro do Arsenal e a cinco de alcançar o Top Four – com Liverpool, Tottenham e Burnley igualados com os mesmos 31. Considerando que o Crystal Palace é o próximo desafio, dá para encurtar distâncias. O problema vem na sequência, com Manchester City, Manchester United, Watford e Liverpool até o final do ano. Se sobreviver a esta pedreira em dezembro, a equipe poderá escancarar suas ambições.

É possível até dizer que o atual elenco do Leicester tem mais recursos do que o campeão em 2015/16. N’Golo Kanté, especialmente, não tem sua ausência totalmente suprida e os protagonistas não vivem uma fase tão impossível quanto aquela de duas temporadas atrás. No entanto, as opções na rotação são maiores e tornam as Raposas menos dependentes de alguns jogadores. Isso pode fazer a diferença para que o time siga em frente na maratona de jogos e volte a construir uma grande campanha – mas sem prescindir do senso de responsabilidade de Mahrez, Vardy e Schmeichel, sobretudo. Mesmo que o conto de fadas de Ranieri seja irreproduzível, já seria um feito para se comemorar bastante.