Em 2014, Riyad Mahrez era um mero coadjuvante da Argélia que quase provocou uma hecatombe na Copa do Mundo. Porém, desde que ganhara o rótulo de craque na Inglaterra, conquistando o impossível pelo Leicester, o ponta habilidoso não tinha justificado as expectativas pela seleção. Foram várias campanhas decepcionantes dos argelinos desde então, entre confusões e quedas precoces. O camisa 7 ainda estava devendo. Mas, apesar do atraso, Mahrez vem sendo brilhante nesta Copa Africana de Nações. Não apenas lidera o melhor time do torneio até o momento, como proporcionou uma atuação histórica neste domingo. Com um golaço de falta exatamente no último lance da semifinal, o meia garantiu a vitória por 2 a 1 sobre a Nigéria e colocou as Raposas do Deserto na decisão.

Nem foi a melhor atuação de Mahrez no torneio. Durante parte do jogo, o ponta esteve um tanto quanto apagado. Ainda assim, apareceu justamente nos instantes decisivos. Criou o lance para o primeiro tento, um gol contra dos nigerianos. E bateu no peito para assinalar o segundo, memorável, daqueles que marcam a carreira de qualquer atleta em sua seleção. Mahrez faz isso em pleno Egito, rivais históricos dos argelinos, e contra um dos adversários mais tradicionais do continente. Este é o seu momento.

A Argélia se reencontrará com Senegal na decisão, após já ter vencido os Leões de Teranga durante a fase de grupos. Mahrez, aliás, foi justamente o destaque daquele triunfo. Será a primeira final dos argelinos na CAN desde 1990, quando conquistaram dentro de casa seu único título na competição.

Argélia começa se impondo

A Argélia precisou de pouco tempo para confirmar que atravessa um momento inspirado na Copa Africana de Nações. O problema era acertar a pontaria, com algumas boas chances jogadas no lixo. Aos sete minutos, o goleiro Daniel Akpeyi saiu errado em uma bola cruzada e o centroavante Baghdad Bounedjah não aproveitou. Mesmo com a meta aberta, a bola bateu em seu corpo e seguiu para fora. Pouco depois, seria a vez de Ramy Bensebaini tentar uma cabeçada totalmente livre e mandar centímetros acima do travessão.

Mahrez abre o caminho ao infeliz primeiro gol

Aos poucos, o domínio da Argélia esfriou. O time mantinha a posse de bola, mas pecava na criação. Não que a Nigéria assustasse do outro lado. As Super Águias se continham a espasmos, sem testar o goleiro Raïs M’Bolhi. O argelinos voltaram a ficar com o grito preso na garganta aos 30, quando Bounedjah roubou a bola de Kenneth Omeruo e ficou na cara do gol, mas chutou em cima de Akpeyi. O tento, por fim, saiu aos 40. Dependeu de uma jogadaça de Mahrez pelo lado direito e também de uma pitada de sorte. O ponta arrancou, passou pela marcação e cruzou da linha de fundo. Dentro da área, William Troost-Ekong fez um triste desvio contra as próprias redes. Mais um gol contra nesta CAN.

As Super Águias empatam

A Nigéria voltou ao segundo tempo se postando no campo de ataque, mas encontrava a retaguarda da Argélia bem protegida. Apesar da participação de Samuel Chukwueze e Ahmed Musa nas pontas, andava difícil encontrar espaços para criar grandes oportunidades. Assim, o gol de empate veio graças a um pênalti, aos 28. Após um chute de longe dado por Peter Etebo, a bola bateu no braço de Aissa Mandi e, com o auxílio do vídeo, o árbitro marcou. Odion Ighalo cobrou com tranquilidade e recolocou a Nigéria na partida.

O prenúncio

Se não fazia uma partida vistosa, a Argélia apresentava mais repertório para buscar a vitória. Tanto é que, durante a reta final da partida, a equipe retomou o protagonismo. Tinha mais posse de bola e apertou principalmente quando o relógio se aproximava dos 45. Sofiane Feghouli poderia ter servido Mahrez, mas preferiu ser fominha e mandou longe. Depois, nos acréscimos, Ismael Bennacer soltou uma pancada da intermediária e acertou a trave nigeriana. Até que, aos 49, Bennacer fosse derrubado na meia-lua. Chance de ouro para as Raposas do Deserto.

A glória

O relógio estava no último dos quatro minutos de acréscimos quando Mahrez ajeitou a bola. A posição da falta era excelente, principalmente a ele, para bater com a perna esquerda. Mas, em vez de mandar por cima da barreira, o craque preferiu soltar a canhota no canto do goleiro. Acertou uma bomba no alto, sem que Akpeyi pudesse alcançar. O golaço provocou uma explosão entre os argelinos, saindo em disparada durante a comemoração. O técnico Djamel Belmadi sequer conteve as lágrimas. A partida até foi retomada depois disso, mas por puro protocolo. O direito à festa ensandecida era mesmo dos magrebinos. Após uma espera de 29 anos, retornam à decisão continental.

Ficha técnica

Argélia 2×1 Nigéria

Local: Estádio Internacional do Cairo
Árbitro: Bakary Gassama (Gâmbia)
Gols: William Troost-Ekong, aos 40’/1T; Odion Ighalo, aos 27’/2T; Riyad Mahrez, aos 50’/2T
Cartões amarelos: Baghdad Bounedjah, Sofiane Feghouli, Aissa Mandi (Argélia); Chidozie Awaziem (Nigéria)
Cartões vermelhos: nenhum

Argélia: Raïs M’Bolhi, Mehdi Zeffane, Aissa Mandi, Djamel Benlamri, Ramy Bensebaini; Adlène Guédioura; Riyad Mahrez, Sofiane Feghouli, Ismael Bennacer, Youcef Belaïli; Baghdad Bounedjah. Técnico: Djamel Belmadi.

Nigéria: Daniel Akpeyi, Chidozie Awaziem, William Troost-Ekong, Kenneth Omeruo, Jamilu Collins; Peter Etebo, Wilfred Ndidi; Samuel Chukwueze (Henry Onyekuru), Alex Iwobi, Ahmed Musa; Odion Ighalo. Técnico: Gernot Rohr.

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