As primeiras potências já confirmaram presença na próxima Copa Africana de Nações. Nesta terça-feira, quatro seleções asseguraram a classificação ao torneio. Presente na última Copa do Mundo, o trio formado por Tunísia, Egito e Senegal será um digno oponente a Camarões, anfitrião e atual campeão continental. Contudo, a notícia mais chamativa da Data Fifa na África não se concentra entre as camisas pesadas. Ela surge de Madagascar. A ilha de 25 milhões de habitantes nunca teve lá muita tradição no futebol e sequer havia participado de uma edição anterior da CAN. Ainda assim, comemorou logo cedo, ao garantir uma das vagas no Grupo A. Terá o gosto de fazer a sua estreia no maior evento do futebol africano.

A CAN 2019 terá várias novidades. Desta vez, o torneio será disputado entre junho e julho, não mais no início do ano, o que altera as perspectivas dos clubes que costumavam ser desfalcados. Além disso, pela primeira vez serão 24 participantes, o que aumentou as chances nas eliminatórias. Os dois primeiros colocados de cada uma das 12 chaves avançarão à fase final – exceção feita ao Grupo B, que conta com a presença dos camaroneses, previamente garantidos. Assim, coube a Madagascar surpreender adversários mais tradicionais. Além de Senegal, também classificado, ficaram pelo caminho Guiné Equatorial e Sudão.

Madagascar teve um desempenho muito acima das expectativas nas quatro primeiras rodadas do Grupo A. Começou sua trajetória vencendo o Sudão por 3 a 1, em Al-Ubayyid. Depois, segurou o empate em casa com Senegal, antes de derrotar a Guiné Equatorial por 1 a 0 em Bata. Por fim, a surpresa se concretizou a partir do reencontro com os equato-guineenses em Antananarivo. Jogador do Sukhothai, da Tailândia, Njiva Rakotoharimalala foi o herói da classificação. Aos 42 do primeiro tempo, seu chute da entrada da área determinou a vitória malgaxe por 1 a 0. O triunfo provocou uma enorme festa no Estádio Vontovorona, que logo se espalhou pelas ruas do país.

O ponto baixo na campanha de Madagascar aconteceu não em campo, mas fora dele, por conta de uma tragédia. O Estádio Municipal Mahamasina ficou superlotado para o duelo contra o Senegal. Durante a entrada na praça esportiva, a abertura de um dos portões gerou correria, com pessoas se ferindo em meio à confusão e outras sendo pisoteadas. Ao final, um torcedor faleceu, enquanto 37 ficaram feridos. Apesar de tudo, o jogo ainda aconteceu, com o empate por 2 a 2 no placar. Além de uma irrisória multa de US$10 mil, a única consequência direta à seleção malgaxe foi a mudança no local dos compromissos seguintes em casa. Vale lembrar que o presidente da CAF, Ahmad Ahmad, era o antigo presidente da federação da ilha.

A seleção de Madagascar existe desde 1947, formada para disputar amistosos contra outras ilhas do Oceano Pacífico, em tempos nos quais seu território ainda era administrado pela França. A independência aconteceu em 1960 e, três anos depois, a federação local se filiou à CAF. Nesta primeira década, os malgaxes disputavam apenas os Jogos Africanos e o qualificatório aos Jogos Olímpicos. A introdução nas eliminatórias da Copa Africana de Nações aconteceu a partir de 1970. Já a estreia nas Eliminatórias da Copa do Mundo aconteceu no Mundial de 1982.

Ao longo destas quase cinco décadas disputando as principais competições continentais, Madagascar teve alguns resultados expressivos. Chegou a vencer adversários de peso nas eliminatórias da CAN, incluindo Zâmbia (1973), Camarões (1981), República Democrática do Congo (1999) e Egito (2002). Embora quase sempre fossem coadjuvantes, os malgaxes ficaram próximos da classificação à etapa principal do torneio em diferentes momentos. Em 1982 e 1984, caíram no último mata-mata classificatório. Já em 1992, 2002 e 2004, ficaram a uma posição de se confirmar em seus respectivos grupos classificatórios.

Durante a última década, porém, Madagascar havia se transformado em saco de pancadas nas eliminatórias da CAN. De 2006 a 2016, a ilha venceu apenas quatro jogos em 28 disputados pela competição – e apenas contra adversários pouco relevantes. Em 2014, inclusive, os malgaxes alcançaram sua pior posição no Ranking da Fifa ao ocupar o 190° lugar. A transformação acontece a partir de 2017 – coincidência ou não, o ano em que Ahmad Ahmad assume a CAF. Desde então, os Zebus não perderam mais pelas fases prévias da Copa Africana. Derrotaram duas vezes São Tomé e Príncipe, antes de emendarem a boa sequência no Grupo A.

O sucesso de Madagascar é comandado por Nicolas Dupuis, técnico francês que assumiu a seleção ainda nos tempos de vacas magras. Em compensação, os bons resultados passam por uma política adotada em outros tantos países africanos: recrutar filhos de imigrantes malgaxes, nascidos na França e que atuam por clubes europeus. Dentre os convocados na atual Data Fifa, 11 atletas jogam no futebol francês, dois deles na primeira divisão. Além disso, há atletas em atividade na Bélgica, na Suíça, na Argélia, na África do Sul, no Egito, na Arábia Saudita e na Tailândia, além da própria liga local. Os mais rodados são os atacantes Faneva Imà Andriatsima (atualmente no Le Havre, mas com passagens por Nantes, Cannes, Amiens e Sochaux) e Paulin Voavy (outro rodado nas divisões de acesso do Francesão), ambos acumulando gols importantes na campanha.

Agora, Madagascar ocupa o 106° lugar no Ranking da Fifa e os bons resultados recentes também devem oferecer melhores condições à seleção no sorteio das Eliminatórias da Copa de 2022. O momento, todavia, é de pensar no presente e comemorar. Os Zebus celebram a façanha inédita e a mera presença na Copa Africana de Nações já representa demais. A quem vem em ascensão, ainda assim, o sonho de uma campanha rumo aos mata-matas da CAN 2019 não parece impossível. As condições são favoráveis.