O Flamengo foi dormir na segunda-feira à noite sem técnico. Vanderlei Luxemburgo foi demitido depois de um início de ano tecnicamente muito fraco, um time sem padrão e com quase nada a ser aproveitado. Algo decepcionante para quem tinha a expectativa de ao menos ser competitivo no estadual. Não foi. De ao menos ter um ponto de partida melhor do que o de 2014, quando o técnico chegou. Não teve. As divergências políticas do técnico com a diretoria já não eram pequenas, mas foram ficando ainda maiores. Só que mais do que isso, o que tornou a situação de Luxemburgo indefensável internamente foi o campo. O mau desempenho do time, pior do que terminou 2014, foram minando o crédito construído em 2014. As cobranças por duas contratações de peso, que não vinham, também jogaram contra o técnico.

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Luxemburgo deu entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, dizendo ser contra a medida de responsabilidade fiscal aprovada pela atual diretoria do Fla, o que parece apenas uma posição política. Responsabilizar os dirigentes pessoalmente por gastos exacerbados não parece ter um lado ruim, mas é uma medida a favor da diretoria e Luxemburgo é apoiador da oposição. Não por acaso, Luxa citou a ex-presidente Patricia Amorim algumas vezes na sua coletiva de imprensa falando sobre a sua demissão, nesta terça-feira pela manhã. Ela, que foi tão criticada por ter feito uma gestão desastrosa, mas que o levou de volta à Gávea. É preciso lembrar: é ano eleitoral no Flamengo. A demissão de Luxemburgo tornou-se uma oportunidade para ele mesmo criticar a atual diretoria, que já tem tantos detratores que deixaram heranças péssimas aos sucessores, como os ex-presidentes Kléber Leite e Márcio Braga, por exemplo.

A insatisfação de Luxemburgo em relação à postura de responsabilidade financeira do Flamengo, que fez com que o time não gastasse uma fortuna para contratar jogadores, deixou o técnico reclamando por reforços. Parte da imprensa embarcou nessa onda e passou a falar sobre a necessidade do Flamengo contratar um camisa 10, ou um centroavante. Jogadores de peso. A conversa de que o Flamengo é grande e não pode ter um time modesto passou a ser repetida por ex-presidentes (aqueles, com interesses eleitorais em detonar a atual gestão) e por comentaristas na imprensa esportiva. Uma pressão a mais. Claro, isso jogava a favor de Luxemburgo. As declarações do técnico após a sua saída deixam clara a divergência nesse sentido e como ele usava isso a ser favor, depois de conseguir crédito com torcida e com a crítica em geral no ano passado.

“O relacionamento com o grupo era tranquilo, são jogadores maravilhosos, profissionais, um grupo que há muito tempo eu não pegava. Com a diretoria, houve uma dificuldade muito grande, mas não de relacionamento no dia a dia, são pessoas sérias, mas em relação ao futebol é um pouco complicada. Porque o Flamengo trabalha com um grupo gestor, e nós profissionais contratados, eu e Rodrigo Caetano (diretor executivo), que é um dos melhores profissionais com quem já trabalhei, nós simplesmente não somos ouvidos. Quem define tudo é o grupo gestor, que não entende nada de futebol. Pode entender nas suas empresas, nos seus negócios, nos seus bancos. Um profissional como o Rodrigo Caetano está de mãos atadas, não pode fazer nada, porque não é ouvido”.
Luxemburgo, durante a coletiva para falar sobre a sua demissão

O relacionamento podia ser maravilhoso com os jogadores, mas em campo, isso não se refletia no campo. Como manter o grupo satisfeito, sendo que ele cobrava contratação de jogadores de mais nome nos bastidores e defendia também na imprensa. O comandante quer jogadores novos. Os jogadores velhos não devem se sentir confortáveis. O time não teve em nenhuma boa partida em 2015. Ou, para não ser tão rigoroso, teve poucos momentos dignos de elogio – talvez o jogo contra o Fluminense, no Campeonato Carioca. No Campeonato Brasileiro, foram três jogos, com duas derrotas e um empate em casa contra o Sport, em um jogo polêmico. A última destas derrotas veio no domingo, diante de um fraco Avaí, na Ressacada. O time catarinense fez um péssimo início de ano e lutou contra o rebaixamento no Campeonato Estadual. A derrota tirou os argumentos para manter Luxemburgo.

“Administrativamente eles estão lá fazendo o trabalho deles, saíram até no New York Times, ganharam prêmio, mas quero saber é de futebol, tem que ganhar títulos no futebol também”
Luxemburgo, deixando clara a cobrança que fazia da diretoria

É curioso, porém, que a situação do técnico tenha mudado tanto em pouco mais de um mês. Quando ainda disputava o Campeonato Carioca, já cambaleante, Muricy Ramalho deixou o cargo de técnico do São Paulo por questões de saúde. Luxemburgo era o nome do presidente do clube paulista, Carlos Miguel Aidar. Depois de momentos de baixa pelos trabalhos ruins no Grêmio e no Fluminense, o técnico estava novamente sendo disputado por times grandes do Brasil. Uma situação que o deixa confortável para cobrar a diretoria, inclusive publicamente. Era o que o fazia ganhar força ao pedir contratações, nomes importantes. Não bastou Marcelo Cirino. Era preciso mais. Só que Luxemburgo não acertou com o São Paulo. Ele mesmo admitiu que foi procurado pelo clube paulista, o Flamengo o liberaria se recebesse a multa, mas não quis abrir mão dela. Ele ficou.

“Fiquei surpreso porque há 20 ou 25 dias atrás, quando eu tive uma sondagem oficial do São Paulo, uma ligação do presidente do São Paulo, o presidente do Flamengo disse que eu ficaria e que eu era fundamental no projeto  do Flamengo. Eu queria saber como isso mudou 20 dias depois, eu passei a não ser mais fundamental? Isso me causa uma surpresa muito grande, onde você entende o Flamengo, que se diz muito de projeto, de gestão administrativa, e como fica a situação do profissional que é solicitado, que passa por momentos difíceis? O presidente do clube falou que eu era uma peça fundamental no projeto, talvez para um projeto de 20 dias, não até o final do ano”, declarou Luxemburgo.

É, mas a situação mudou. No momento da proposta do São Paulo, realmente o Flamengo não tinha por que abrir mão da multa. Em uma gestão conhecida por sua responsabilidade financeira, não pensava (ainda) em demitir o técnico, embora tenha deixado claro que não moveria um dedo para mantê-lo, se o São Paulo, ou o próprio Luxemburgo, pagasse a multa rescisória (dizia-se, à época, que seria algo em torno de R$ 500 mil). Havia alguma esperança de melhora naquele momento. A preparação após a eliminação no Campeonato Carioca deixou expectativa do time voltar mais forte para o Campeonato Brasileiro. Não melhorou, nem com treinos em Atibaia, nem com tempo para trabalhar. O futebol do time foi muito ruim. Ficou difícil até para seus defensores. O campo, o que fez Luxemburgo ganhar prestígio pelo desempenho em 2014, não o sustentou em 2015.

A decisão do Flamengo de demitir Luxemburgo não é a melhor forma de gestão, claro, porque é no meio do trabalho, quando já estamos com cinco meses do ano. A grande questão será agora. Quem será o nome para comandar o clube? A diretoria do Flamengo tem muito a falar sobre a sua administração. Faz um grande trabalho nesse sentido. No futebol, os erros foram claros: demitiu Jayme de Almeida de forma covarde, sem ele nem saber, para contratar Ney Franco. Era um técnico que não mostrou capacidade para manter o time bem e, depois de sete jogos, com uma Copa do Mundo no meio, veio a demissão. Uma enorme trapalhada. A chegada de Luxemburgo veio nesse contexto, como uma emergência. Por isso, foi um remendo, que acabou dando certo e ficou. Ficou, talvez, mais do que a própria diretoria esperava, porque o seu desempenho fez ganhar crédito. Luxemburgo ganhou crédito em um momento que a diretoria sabia que tinha errado na contratação do técnico anterior. Não podia errar de novo e, assim, o manteve no cargo para 2015.

Há também o aspecto que Luxemburgo parece não entender: o Conselho Gestor, tão criticado por ele, é quem comanda o clube. Parece óbvio, mas não é. Luxemburgo quer ter poder irrestrito para contratar jogadores e gerir o futebol. Ele fez elogios a Rodrigo Caetano, dizendo que o diretor de futebol está de mãos atadas. Luxemburgo precisa entender que é um funcionário. Há críticas à gestão de futebol do clube, sem dúvidas, como ficou claro nas contratações de técnico em 2014. Quando contratado, em julho de 2014, Luxemburgo não tinha como fazer exigências. Tinha vindo de um trabalho muito ruim anteriormente. Era trabalhar com o que se tinha, fazer o que fosse possível com os ingredientes postos. Assim conseguiu ser elogiado. Mas não foi assim que quis trabalhar em 2015.

Mas se há um mérito da diretoria do Flamengo é que ela não entrou na loucura de contatar na empolgação. O Grêmio, sob as ordens de Luxemburgo, contratou deus e o mundo para jogar a Libertadores em 2013, gastou mais do que tinha e paga a conta agora. O Flamengo sabe que precisa ter cuidado. Mais do que isso, sabe que o time não é um horror a ponto de ter que correr risco de rebaixamento. É um time para meio de tabela, mas que pode jogar melhor e pode ser competitivo, por exemplo, na Copa do Brasil, que venceu em 2013 com Jayme e foi à semifinal em 2014 com Luxemburgo. Pode, se acertar o time, brigar na parte de cima, como tantos times já brigaram – o Atlético Paranaense, em 2013, foi um exemplo disso ao se classificar à Libertadores com um time modesto em orçamento, mas muito bem montado pelo técnico Vagner Mancini. Nada indicava que Luxemburgo caminhava nesse sentido (embora, na época, pouco indicasse que Mancini conseguiria fazer o que fez quando pegou o time de Ricardo Drubsky, mas é uma outra história).

O Flamengo não poderá errar novamente como fez em 2014. Jayme de Almeida, que voltou ao clube recentemente para trabalhar na comissão técnica como auxiliar, voltará ao comando do time, novamente de forma interina. Muitos nomes são especulados, mas é difícil saber o que é verdade ou não. Nos bastidores, o Flamengo teria recebido dois nãos: um de Cuca, que está na China treinando o Shandong Luneng, e outro de Levir Culpi, atualmente no Atlético Mineiro. Será preciso contratar um técnico e confiar nele, ao menos até o fim do ano. Seja Jayme, seja algum outro.

A demissão de Luxemburgo é, então, um acerto. Mesmo que seja um acerto para corrigir um erro. Luxemburgo não era o melhor nome, mas deu certo, acertou o time e tirou a ameaça do rebaixamento do time. A expectativa era o que poderia ser feito a partir daí. Não conseguiu nada. O Flamengo não tinha mais justificativas para mantê-lo como técnico. Mas o acerto da demissão de Luxemburgo só será sentido se não for seguido por um erro no sucessor dele no banco de reservas. Parece claro que não há sentido em gastar uma fortuna com técnico medalhão. Se fora de campo o Flamengo parece saber o que fazer, precisa, no futebol, saber o que quer e como quer. Saber que tipo de técnico o clube quer contratar é o primeiro passo. Algo, porém, que é raro no Brasil. E que esta diretoria não mostrou que sabe fazer ainda.