O luto, o recomeço, a emoção: O sentimento que envolve o maior gol da carreira de Lampard

Nenhum pênalti desafiou tanto Frank Lampard quanto aquele cobrado em 30 de abril de 2008. E pouco importava o peso do confronto com o Liverpool, a pressão da prorrogação em uma semifinal de Liga dos Campeões, a chance de colocar o Chelsea pela primeira vez na decisão do torneio continental. A um batedor capaz como o camisa 8, tão experiente na marca da cal, deveria ser mais um chute, mesmo diante de todas as expectativas. Mas não era aquilo que tomava a mente do craque, que umedecia os seus olhos, que acelerava o seu coração. Uma semana antes, o meio-campista perdera sua mãe, Pat Lampard. Aos 58 anos, ela havia sido vítima de uma pneumonia severa.

A semifinal da Champions foi justamente o primeiro jogo de Frank desde o início do luto. Não fugiu da responsabilidade em nenhum momento, e muito menos quando Roberto Rosetti apontou a penalidade. O craque pegou a bola e a ajeitou. Tomou distância e seu semblante não escondia o misto de emoções, entre o que se vivia no agora e o que se perdeu no tempo. A língua incontrolável, o estalo no pescoço, o olhar que insistia em se direcionar aos céus: todos os gestos evidenciavam a inquietude do meia naquele instante. Não era um mero pênalti, mas a chance de honrar a sua mãe, sua maior incentivadora, do jeito mais grandioso. E eis que todas as dores se concentram no mesmo intuito, no mesmo desejo pela homenagem. A confiança.

Lampard corre para a bola e sequer enche o pé, como em suas costumeiras batidas. O chute rasteiro entra firme, no canto, do outro lado de Pepe Reina. O desafio imposto por sua mente se desfaz, sublimado em forma de orgulho. Frank pôde desabafar. Pôde desabar em lágrimas. Pôde desatar o sentimento em seu peito, através da comemoração vibrante, amor de filho no mais puro estado. As lembranças se tornavam ainda mais inescapáveis naquele momento, mas sob a grata certeza de que, em qual plano estivesse, Pat certamente compartilhava a felicidade com o menino que amou desde o ventre.

Tirando a faixa negra de seu braço, o craque saiu em disparada a uma das laterais do campo. Levou o sinal de dor ao rosto e o beijou, de joelhos no gramado, prostrado. Abraçado e afagado pelos companheiros, enxugou a face e ergueu-se. Olhou às arquibancadas e apontou ao seu pai, outro que aprendia a lidar com as saudades. E voltou ao jogo. Porque sabia que, daquele instante em diante, sempre teria um enorme motivo para se doar ao máximo. Pat o acompanharia, se não em vida, para sempre em memória.

Frank Lampard nasceu em uma família de futebolistas. Seu pai, também chamado Frank Lampard, foi um dos símbolos do West Ham entre as décadas de 1960 e 1980. Outro ídolo dos Hammers com quem o garoto teve contato desde cedo era Harry Redknapp, seu tio, casado com a irmã gêmea de sua mãe. Mas Patricia representava um esteio ao filho. Amável, servia de contraponto à dureza do pai. Uma amiga, que ajudava o menino a encontrar o equilíbrio ideal entre a bola e os livros. Graças a ela, o adolescente se empenhou nos estudos e formou-se com condecorações, até ingressar nas categorias de base do próprio West Ham. Ele mesmo se descrevia como um “filhinho de mamãe”, por todo seu apego a Pat.

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Além do mais, a mãe dava seu apoio para que Frank pudesse enfrentar todas as barreiras em busca do sonho como jogador. No início de sua carreira como profissional, o meio-campista sofria acusações de “nepotismo”. Diziam que ele era protegido por atuar no time treinado pelo tio, com o pai trabalhando como auxiliar. A mãe ofereceria um importante suporte psicológico para o prodígio superar as desconfianças. Para se provar, como de fato fez, sobretudo depois que deu seus próprios passos com a camisa do Chelsea. Em pouco tempo, não haviam mais dúvidas sobre o talento e a força mental do camisa 8.

Descrita como sorridente e discreta, Pat costumeiramente aparecia nas tribunas. Ia a praticamente todos os jogos de Lampard, mesmo os fora de casa. Em Stamford Bridge, viu o filho se consagrar com o bicampeonato da Premier League e com as dezenas de gols pelos Blues. Já em Wembley, depois que o meio-campista ouviu vaias da torcida em meio à decepção pelo fracasso nas eliminatórias da Euro 2008, ela o convenceu a não abandonar a seleção. No início de abril de 2008, a mãe pôde abraçar Frank por anotar o gol que consumou a classificação do Chelsea às semifinais da Champions, durante a vitória por 2 a 0 sobre o Fenerbahçe. Mas não acompanharia mais aquela jornada. Dias depois, em 14 de abril, Pat precisou ser internada. Seu quadro: pneumonia.

Para ficar com a mãe no hospital, Lampard se ausentou de dois jogos na Premier League, contra Wigan e Everton. As condições de Pat melhoraram e ele resolveu enfrentar o Liverpool, no primeiro duelo pelas semifinais da Champions. Esteve em campo ao longo dos 90 minutos em Anfield, com o empate por 1 a 1 deixando o cenário aberto. Nas horas seguintes, porém, as condições de Patricia se deterioraram repentinamente. Em 24 de abril de 2008, ela não resistiu à pneumonia e faleceu. Frank estava ao lado de sua cama no momento derradeiro. O meia seguiu oferecendo o suporte à família durante os ritos finais, ausente no encontro com o Manchester United pela Premier League. Naquela ocasião, após o gol de Michael Ballack, seus companheiros ergueram uma camisa 8 com a mensagem “Descanse em paz, Pat Lampard”.

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Apesar de tudo, seria preciso seguir em frente. A classificação sobre o Liverpool surgia como grande objetivo do Chelsea na temporada. Em particular, surgia também um rito de passagem na vida de Lampard. “Conhecendo minha mãe, ela reclamaria se eu não jogasse”, declarou. O meio-campista usou duas braçadeiras naquela noite em Stamford Bridge: a branca, de capitão, e a negra, representando seu luto. Pisou no gramado com a mão no peito, olhando aos céus, dando o máximo de suas forças. E gastou a bola, criando boas chances, inclusive ao participar do lance que gerou o gol de Didier Drogba. O novo empate por 1 a 1 levava o duelo à prorrogação. Pois quando o relógio marcava seis minutos do primeiro tempo extra, surgiu o pênalti. O maior momento na carreira do ídolo, entre tantos grandiosos.

A vantagem estabelecida por Lampard ainda foi ampliada por Drogba no segundo tempo da prorrogação, enquanto Ryan Babel descontou. E antes que o apito final confirmasse a vitória por 3 a 2, que valia ao Chelsea a classificação à final, sabiamente o técnico Avram Grant decidiu substituir seu capitão. A torcida em Stamford Bridge se levantou para aplaudir o meio-campista. Para reconhecer tudo o que ele havia feito e para reverberar o sentimento de alegria que certamente também estaria presente em sua mãe. O final tocante a uma noite para sempre.

“Frank é um homem corajoso. Ele era muito próximo de sua mãe e enfrentou uma situação difícil. Jogou extremamente bem e está ao menos um pouco feliz agora. Foi sua decisão jogar. Conversamos ontem e ele decidiu que deveria atuar. Não é um dia fácil para mim. É o Dia do Holocausto em meu país e fiquei pensando em meu pai, que enterrou meu avô com suas próprias mãos. Estou muito satisfeito por aquilo que conseguimos. Foi emocionante”, declarou Grant, após o jogo.

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Outros companheiros também exaltaram Lampard, como John Terry: “Que caráter Frank tem… Foi uma semana terrível para ele e para sua família. Lampard jogou muito bem e foi um jogador essencial nesta partida. Não foi fácil, mas ele deu tudo para a equipe”. Visão complementada por Joe Cole: “Mais do que se disponibilizar a jogar, e diante da atuação que ele teve, ainda dar um passo à frente para bater o pênalti: eu não consigo traduzir em palavras o que penso sobre Frank. Eu o conheço há muito tempo. Ele é um grande jogador e um grande homem. Por fazer o que ele fez, em um momento no qual tantas coisas acontecem em sua vida, eu apenas tiro o chapéu”.

Tempos depois, Frank descreveu os seus sentimentos naquela fatídica noite. Ele apontou que a morte de sua mãe o mudou completamente como pessoa, sentindo-se raivoso e confuso diante da fatalidade. Mesmo quando Pat ainda não estava doente, ele sofria com a ansiedade proporcionada pelos pensamentos de perdê-la. Assim, o falecimento o deixou fora de si por um bom tempo, até se recuperar. O pênalti foi um passo notável nesse processo. Uma dor crônica que, a qualquer um, só o tempo ajuda a sanar.

Afinal, nesses casos o mais difícil não é lidar com a morte. É lidar com a perda. A ausência de não poder ver quem mais se ama, de não compartilhar confidências, de não trocar carinhos. O vazio físico, que enche a mente de pensamentos. Se a dor do luto demora a aplacar, ela se torna ainda mais persistente quando se perde a mãe. E por mais que cada relação seja diferente, o jeito de superar é quase sempre o mesmo: deixar se levar pelo tempo. É isso que faz a saudade atenuar. O tempo permite que prevaleçam as boas lembranças. Que prevaleça o orgulho por tudo o que se viveu. Possivelmente foi assim com Lampard. Da mesma forma, acontece com tantas outras pessoas. É uma lição da vida, em que nada é eterno, mas tudo se torna infinito dentro do peito. Infinito como o amor de mãe.

O orgulho que Lampard sente por Pat, aliás, se percebeu em diversos outros momentos. Na final da Champions de 2008, anotando um gol e se superando em campo, apesar da derrota nos pênaltis que fugiu de seu alcance. Ou na decisão de seguir se dedicando ao Chelsea, ao recusar uma proposta da Internazionale naquele mesmo verão para sacramentar sua figura como ídolo em Stamford Bridge. E essa escolha permitiu que Frank desse a volta por cima quatro anos depois, enfim vencedor da Champions, convertendo seu pênalti na final em Munique. Ou ainda em 2013, quando o camisa 8 se tornou o maior artilheiro da história dos Blues. “Perdi a minha mãe faz alguns anos e ela era minha maior torcedora. Então, esse feito vai para ela”, afirmou na época. Levantar o dedo aos céus, em claro motivo, se tornou a comemoração tradicional de seus gols após aquele abril despedaçado.

Pat Lampard pode ser notada na carreira que Frank construiu, fruto de uma dedicação que ela orientou. Mas também no grande homem, que viraria autor de livros infantis e técnico promissor. Ou também no grande caráter que sempre permeou a vida pública do meio-campista. Quando se casou, em 2015, o craque chorou ao lembrar que sua mãe não estava naquele instante de extrema felicidade. Fruto da relação com Christina, sua atual esposa, a primeira filha do casal nasceu no último mês de setembro. Seu nome? Patrícia. Sinal do orgulho que se transformou em gol dez anos antes. A memória eterna.

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Este texto é dedicado fraternalmente ao leitor Rafael Lourenço, que entrou em contato com a Trivela e pediu para que o site recontasse a história de Lampard contra o Liverpool. Rafael perdeu a mãe recentemente, vítima de um câncer, e disse que se emociona com este gol. O texto também foi escrito por alguém que perdeu a mãe, vítima de um câncer, um ano depois daquele pênalti, e se identifica profundamente com a comoção de Lampard. Talvez alguns trechos deste artigo não façam tanto sentido a parte dos leitores, mas espero de coração que façam a Rafael. Que a experiência de Lampard, e a experiência de quem tentou traduzir o que Lampard viveu, te ajudem por aí, Rafael. Um abraço.