Paul Pogba foi o primeiro a saber. Romelu Lukaku estava cansado das críticas que recebia na Inglaterra, independentemente do que fazia. Marcou 42 gols em 96 partidas pelo Manchester United, ao longo de duas temporadas, mas, desde a chegada, foi recebido com ressalvas que nem sempre correspondiam ao que apresentava em campo. E isso o levou a buscar novos ares na Internazionale, uma tentativa de reconstruir a sua reputação de grande atacante.

Foi com esse status que Lukaku chegou a Old Trafford, depois de boas passagens pelo West Brom e pelo Everton. Mas, como muitos grandes jogadores que minguaram no Manchester United desde a aposentadoria de Alex Ferguson, o atacante belga, ao lado de Pogba, foi culpado pelos problemas do clube, o que ele não considera muito justo.

“Foi sempre ‘sim, mas…’ desde o começo. Eu marquei contra o Real Madrid na Supercopa da Europa, mas perdi uma chance. Foi: ‘mas ele perdeu aquela chance’. Eu marquei contra o West Ham em meu primeiro jogo de Premier League (pelo United): ‘sim, mas…’. Um ano no Manchester United apagou os oito anos anteriores a ele”, disse, em entrevista ao New York Times.

Um problema, segundo Lukaku, é de percepção. Ele não é tido como um jogador habilidoso e inteligente, embora seja, e os elogios ao seu futebol focam-se demais na parte física. “Quando sou comparado a outros atacantes, nunca é sobre minha habilidade. Meu mano a mano é bom. Eu consigo driblar um jogador. Eu lembro um comentário de um jornalista de que o United não deveria contratar Lukaku porque ele ‘não é um jogador inteligente'”, lembrou.

Esse tipo de abordagem é comum com jogadores negros, e a reportagem do New York Times levantou pesquisas que mostram que eles são frequentemente retratados pela imprensa como atletas bem dotados fisicamente, mas sem inteligência e ética de trabalho. Lukaku, porém, acha que não é o caso. “Jogadores como Thierry Henry, Nicolas Anelka, Marcus Rashford e Anthony Martial são descritos como habilidosos. É apenas que alguns jogadores são sempre vistos de uma determinada maneira”, disse.

Mas o racismo que ele enfrenta desde que chegou à Itália também foi um assunto. Lukaku foi alvo de gritos preconceituosos contra o Cagliari e personagem da péssima capa do Corriere dello Sport antes de Inter x Roma. “Vou marcar. Vou vencer. Vou para casa. Fui confrontado com isso muitas vezes na minha vida. Você constrói uma espécie de casca. Eu levo minha raiva ao campo. Tem que continuar indo forte, tem que continuar lutando”, disse.

E as coisas estão correndo bem para Lukaku, apesar das dificuldades da liga italiana. Lembrou que ninguém menos do que Cristiano Ronaldo comentou com ele, quando a Inter enfrentou a Juventus, no começo da temporada, que a Serie A era a liga “com as defesas mais duras” do mundo. “Ele disse que havia feito gols em todo lugar, mas que este era o lugar mais difícil para fazê-los. E, se Cristiano Ronaldo acha que é difícil, deve ser mesmo muito difícil”, disse. “É mais difícil que na Inglaterra. O futebol é mais intenso lá, mas aqui é tudo sobre padrão de jogo”.