Frank Costello (Jack Nicholson), do premiado “Os infiltrados” de Martin Scorsese, é o personagem central da trama fabulosa que levou o Oscar há dois anos. Costello, raposa velha do crime – e do tráfico, claro, é um bandido conhecido, consagrado e que, com liberdade, desfruta do glamour que sua posição oferece. Seu poder é tão grande que Colin Sullivan (Matt Damon) é infiltrado no Departamento da Polícia de Boston. Há semelhanças sutis entre Frank Costello e Luiz Estevão.

Estevão, que já foi deputado federal e senador, não há dúvidas, esteve envolvido em uma das maiores falcatruas da história brasileira – o desvio de R$ 169 milhões nas obras do Tribunal Regional do Trabalho. Com os direitos políticos suspensos, logo em seguida fundou em 1º de agosto de 2000, em Taguatinga, o Brasiliense Futebol Clube, e ocupou um eixo importante e até então desocupado no modesto futebol do Distrito Federal. Sempre envolto às polêmicas, como no gesto que ilustra a coluna, Estevão conta com suporte político local e recursos próprios para manter o clube – atualmente o penúltimo colocado na Série B, só à frente do pobre CRB e seus risíveis 18 pontos.

Buscando aliados, Estevão pagava por viagens e até lanches para os torcedores, no início da década, quando criou o Jacaré. Os fãs do clube, vez por outra chamados de “torcida de aluguel”, não são tantos. Em Taguatinga, o ex-senador faz sucesso com uns, mas tem seu passado e caráter lembrado por outros. Ainda assim, é o maior ídolo do Brasiliense, e mantém sua imagem pública ligada ao clube que criou, em 2000, e ainda preside. Muito embora, no balanço oficial referente a 2007, conste o nome de uma mulher – supostamente “laranja” – como presidente.

Com média de 3.469 torcedores por jogo (segundo a CBF), o Brasiliense, que ficou famoso também pela camisa poluída de patrocínios – muitas vezes, de empresas que compõem o grupo OK, que era de Luiz Estevão – patina na temporada e só confirmou a hegemonia estadual, com o pentacampeonato consecutivo.

Uma das explicações para a má fase do clube de Luiz Estevão é a ineficácia da receita que se tornou característica: a aposta em medalhões. Só nesta Série B, o Brasiliense – que jogou a Série A em 2005 com Marcelinho Carioca, Vampeta e Oséas – teve, em seu elenco, nomes como Júnior Baiano, Dimba, Athirson, Alex Alves, Alex Dias, Iranildo e Fábio Baiano.

Com bons salários e uma torcida que pouco pressiona, o Brasiliense se transformou em morada segura para esse tipo de jogador. Normalmente concorrendo com adversários com menor poderio financeiro, Luiz Estevão atrai mídia para si. Seja a local, que sempre vai idolatrar um Júnior Baiano da vida, seja a nacional, que vai citar o clube em situações como essa.

Outra característica peculiar do Brasiliense é o fato de ter, quase sempre, um treinador que possa, no momento necessário, ser persuadido por Luiz Estevão. Ao melhor estilo Maurizio Zamparini (Palermo), Estevão vive o cotidiano do clube de maneira intensa e obstinada. Freqüenta o vestiário com parcialidade, ocasionalmente dá palestras aos jogadores e quase sempre tem, no banco de reservas, uma pessoa para contatar através de um telefone celular.

Estevão, que vive sob desconfianças de que também usa o clube para lavagem de dinheiro, ganhou patrocínio do BRB e foi ligado ao ex-governador Joaquim Roriz. A Boca do Jacaré, também conhecido como Serejão, foi arrendada de maneira irregular. Mas, reformada, virou a casa do Brasiliense.

Mesmo com os direitos políticos cassados, Estevão se mantém como figura pública e, com o Brasiliense e seus medalhões, segue em evidência. E, ainda que odiado por muitos, é amado por tantos outros.

A se observar o renascimento de seu conterrâneo José Roberto Arruda (atual governador do DF) após o episódio da violação do painel eletrônico, é provável que Estevão volte, em 2014 – quando termina sua suspensão – à vida política, utilizando o futebol e o Brasiliense como trampolins. A não ser que ele, como Frank Costello, tenha um final trágico. Nem sempre, todavia, cinema e vida real andam lado a lado.

Restam apenas 11 rodadas e a Série A está completamente embolada

Ao final da 23ª rodada, a distância entre Grêmio e Internacional – então líder e 11º respectivamente – era de 18 pontos. Hoje, um é vice-líder, o outro é oitavo, e a diferença é de só oito pontos. A situação do Brasileiro pode ser retratada pelo desempenho da dupla Gre-Nal nas últimas rodadas, em que todas as disputas – por título, Libertadores e rebaixamento – ficaram apertadíssimas.

Foi um Gre-Nal, aliás, o maior protagonista da rodada. Jogando de maneira segura e brilhante, o Internacional sufocou os tricolores e conquistou sua maior vitória em casa dos últimos 39 anos. D’Alessandro chamou o jogo para si e teve em Alex e Guiñazu seus principais escudeiros para manter o Grêmio amuado, tímido e constrangido diante da superioridade da camisa vermelha.

Ao contrário de como normalmente reage quando é desafiado e se sente perseguido, o Grêmio esqueceu suas fibras na Azenha e foi dominado. Na bola aérea, o Internacional mostrou a falta que faz Pereira, e fez com Índio e Nilmar. No gol de Alex, mostrou o quão sonolento vieram os gremistas ao Beira Rio. E, com D’Alessandro, assinou o que todos já sabiam: há muito mais talento no time de Tite que no de Roth, que precisa recobrar a determinação de sua equipe para manter-se na corrida por título.

Nos Aflitos, o Palmeiras foi mais time, mas nem por isso merecia tanto a vitória sobre o Náutico, que faz de seus domínios, sempre, um fator de dificuldade para os adversários. Mesmo com as chances perdidas, especialmente em um lance claro de Martinez, os palmeirenses comemoraram o ponto e a liderança, pela primeira vez na competição. Contabilizando os dois jogos da Sul-Americana, o Verdão não é vazado há cinco: sinal de que a tunda enfiada pelo Sport no início de setembro trouxe algum efeito.

Já no Morumbi, Muricy comprovou que faz a diferença quando tem toda uma semana para trabalhar. É verdade que não foi um banho técnico ou uma vitória com folgas do São Paulo, mas a falta de talento no time do Morumbi foi compensada com uma marcação que não deixou o Cruzeiro, em nenhum momento, se sentir seguro. André Dias comandou a defesa que, mesmo desfalcada de Rogério Ceni, não sofreu gols de um dos ataques mais poderosos da competição. Mais uma vez, o time de Adílson deu provas de que não se sente firme para vencer os grandes jogos desta Série A.

O Flamengo, que fechou a segunda rodada consecutiva no G-4, teve problemas para vencer o Sport no sábado. O time de Caio Júnior troca muitos passes, envolve, mas tem dificuldades de prender a bola no ataque e principalmente de levar perigo. Talvez seja, também, por Marcelinho Paraíba ser mais meia que atacante. Com Vandinho e Obina no comando, o Fla chegou à virada em oito minutos. E ofuscou os rivais, com Fluminense, agora lanterna, e Vasco, com cinco derrotas e sete jogos sem vencer, dentro da zona da degola mais uma vez.

Definidos os oito clubes que brigarão pela Série B

Boa parte das vagas para o octogonal final da Série C ainda estavam em aberto, mas foram definidas na sexta e derradeira rodada da terceira fase. A partir de agora, os clubes se enfrentarão em turno e returno, com os dois melhores garantindo o acesso para a Série B.

Cabe lembrar que os outros seis que restarem do octogonal, assim como todos os que não avançaram na terceira fase, além de Sampaio Correa, Icasa, América-MG e Caxias – e dos quatro que caem da Série B – integrarão a Série C de pontos corridos em 2009. Nesta terceira fase, destaque para o Rio Branco do Acre, que fez 13 pontos, e para o Guarani, que somou 12.

Grupo A: Rio Branco-AC e Águia de Marabá avançaram; Paysandu e Luverdense eliminados
Grupo B: Confiança-SE e Campinense avançaram; ASA e Salgueiro eliminados
Grupo C: Atlético-GO e Duque de Caxias avançaram; Guaratinguetá e Mixto eliminados
Grupo D: Guarani e Brasil de Pelotas avançaram; Ituiutaba e Marcílio Dias eliminados

Resumos do primeiro turno
Grêmio, Cruzeiro, Palmeiras, São Paulo e Vitória
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Coritiba, Flamengo, Botafogo, Sport e Internacional
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Figueirense, Atlético-MG, Goiás, Portuguesa e Náutico
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Atlético-PR, Vasco, Santos, Fluminense e Ipatinga
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