Luiz Adriano pode resolver o problema, mas também é sintoma de como o Palmeiras monta seu elenco

Com uma negociação rapidinha, o Palmeiras anunciou o antigo artilheiro do Shakhtar para tentar ter um centroavante titular

Com o fim da janela brasileira para contratação de jogadores de outros países aproximando-se, o Palmeiras foi rápido e em poucas horas fechou negócio com Luiz Adriano, que estava no Spartak Moscou, depois de uma competente carreira na Europa com a camisa do Shakhtar Donetsk. Caso esteja próximo da sua melhor forma, o ex-Colorado pode ser um grande reforço para o atual campeão brasileiro, mas, de qualquer maneira, serve de sintoma da maneira como o clube vem montando seu elenco.

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As principais críticas ao trabalho de Alexandre Mattos à frente do Palmeiras, cuja recuperação nos últimos anos tem indiscutivelmente o dedo do diretor, referem-se à maneira como ele contrata no atacado, empilhando jogadores, sem uma linha coerente de montagem de time. E fica realmente um pouco difícil contra-argumentar quando o elenco verde e branco chega ao fim de julho com cinco centroavantes com características diferentes, e ninguém sabe qual é o titular.

Deyverson corre o tempo inteiro e briga com os zagueiros. Borja gosta de receber nas costas da zaga e finalizar com poucos toques. Henrique Dourado toca na bola apenas para mandá-la em direção à meta. Luiz Adriano é mais móvel, mas também com faro de gol. Arthur Cabral é mais próximo a um atacante com presença de área, mas mal teve oportunidade de se mostrar no Palmeiras.

Ter jogadores de diversas características não é um problema. Ao contrário, todo elenco bem montado precisa de muitas opções. No entanto, cinco não denota a busca por variedade, mas uma abordagem de batalha naval de sair atirando para todo lado até finalmente acertar um barco. E, de qualquer forma, o Palmeiras de Luiz Felipe Scolari joga de apenas um jeito. A decisão de quem escalar para comandar o ataque baseia-se muito mais na forma do jogador do que em suas características.

O resultado prático disso é que o Palmeiras tem agora um ataque inchado por jogadores com altos salários, um potencial problema de vestiário com o qual Felipão precisa lidar, e um buraco no centro da linha de armadores desde a saída de Ricardo Goulart porque Moisés foi vendido, Scarpa e Veiga não explodem, Hyoran é mais usado pelos lados e Lucas Lima é o Lucas Lima. Ramires foi contratado para outra posição. Deyverson, titular incontestável de Felipão outro dia, provavelmente cairá para a segunda ou terceira opção, e a aguardada proposta por Borja parece nunca chegar.

E Henrique Dourado? O retorno do atacante foi confirmado quase ao mesmo tempo do anúncio de Luiz Adriano. As condições financeiras são ótimas. Sem espaço no Henan Jinaye, pelo limite de estrangeiros, foi emprestado até o final da temporada, com os salários custeados pelos chineses, segundo o clube. Não representará prejuízo financeiro, mas, com dividindo táxi para a Academia de Futebol com outro atacante, foi contratado para fazer o quê?

Arthur Cabral é quem deve estar bastante arrependido da decisão que tomou ao sair do Ceará, e esse é outro problema da política de reforços de Mattos. Ele havia feito uma grande temporada com o Ceará e tinha tanto mercado que foi contratado pelo campeão brasileiro. Recebeu poucas chances e não teve uma sequência para ganhar confiança. Pela posição em que atua, a mais contestada do Palmeiras, a escassez de minutos é mais difícil de explicar, mas algo parecido já havia acontecido com outras promessas.

O poder financeiro do Palmeiras lhe tem permitido fazer uma série de apostas em revelações do Campeonato Brasileiro, mas elas têm dificuldades para jogar com frequência. Hyoran é efetivamente um reserva. Raphael Veiga, emprestado ao Athletico Paranaense ano passado, também. Zé Rafael demorou para ganhar uma chance e precisou fazer muito para atuar alguns jogos seguidos. Isso sem falar em nomes como Matheus Fernandes e Emerson Santos que ainda nem podemos dizer que defenderam de verdade o Palmeiras.

Parte da estratégia é enfraquecer os adversários. Outra é garantir que, se algum deles virar um grande jogador, ele estará sob contrato com o Palmeiras, o que parecia ter acontecido com Raphael Veiga, após uma ótima passagem pelo Athletico. A concorrência em um elenco tão rico é naturalmente muito forte, mas, se quando a necessidade é clara e urgente, o clube prefere trazer outros dois jogadores de fora a apostar de verdade em alguém como Arthur Cabral, por que futuras revelações do Brasileirão arriscariam suas carreiras assinando com o Palmeiras?

Luiz Adriano resolve o problema?

Luiz Adriano, no Shakhtar Donetsk (Foto: Getty Images)

O jornalista Gian Oddi, da ESPN Brasil, o primeiro a dar a informação de que o Palmeiras contrataria outro centroavante, afirmou em sua reportagem que o clube avaliava que valia a pena trazer mais um jogador para o comando de ataque apenas se ele tivesse mais potencial do que as atuais opções. Porque demorou tanto para buscar uma alternativa, uma vez que estava claro desde o ano passado que Deyverson e Borja não correspondiam às ambições do clube, é outra questão. Luiz Adriano tem realmente o potencial de resolver o problema do Palmeiras.

No seu auge, Luiz Adriano, campeão mundial pelo Internacional, foi um dos melhores atacantes da Europa que não atuava nos grandes centros. Marcou 130 vezes pelo Shakhtar Donetsk em 265 partidas. Maior artilheiro da história do clube ucraniano e colecionou recordes ao marcar cinco vezes na mesma partida contra o Bate Borisov, pela Champions League, em 2014.

Naquela época, ganhou oportunidades na seleção brasileira no pós-Copa, sob o comando de Dunga, mas atuou apenas quatro vezes, três como titular, não fez gol e nunca mais foi lembrado. Havia, porém, feito o bastante para aguardar o salto a um clube mais importante, e ele veio, em 2015, na figura do Milan, que pagou módicos € 8 milhões. Chegou junto de Carlos Bacca para o time que era treinado por Sinisa Mihajlovic.

Não deu certo. Começou a temporada 2015/16 como titular, mas, em janeiro, já foi quase negociado com o Jiangsu Suning, da China. Chegou a aterrissar na China com cachecol e tudo antes de cancelar o negócio, alegando que o clube chinês não havia cumprido com o combinado. Atuou pouco no complemento daquela campanha e menos ainda na seguinte. No primeiro mês de 2017, retornou ao Leste Europeu para defender o Spartak Moscou. Nos primeiros meses, contribuiu para o título russo que quebrou jejum de 16 anos do clube.

Na primeira temporada completa, foi bem com 15 gols e seis assistências em 38 partidas por todas as competições, sempre titular. A seguinte foi pior. Começou reserva e estava conseguindo uma sequência, com 11 partidas desde o início em 12 rodadas do Russão, nas quais marcou seis gols e deu quatro assistências, quando sofreu uma lesão no joelho, em abril. A pré-temporada parece ter sido boa porque ele atuou como titular nos três jogos do Spartak em julho e marcou uma vez, contra o Rostov. Vinha atuando, portanto, e não deve demorar muito para estar apto a jogar pelo Palmeiras.

A estrutura do negócio foi boa, com exceção do longo contrato de quatro anos para um jogador de 32, porque o Palmeiras não precisou desembolsar dinheiro para conseguir a rescisão com o Spartak Moscou. Luiz Adriano abriu mão de valores que o clube lhe devia, e os russos ainda mantiveram 50% dos direitos econômicos do atacante. Os gastos restringem-se a salários, luvas e comissões. Também por isso, a contratação parece boa. Caso Luiz Adriano esteja em um bom nível, tem tudo para ser o dono da posição no Palmeiras, a que mais esteve em disputa nos últimos anos.

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