Estádio da Luz abarrotado. O relógio aponta 38 minutos do segundo tempo e Petit se prepara para cobrar uma falta em direção à área. O Benfica disputa o clássico contra o Sporting pela penúltima rodada do Campeonato Português, atrás dos rivais na tabela por conta dos critérios de desempate. Uma vitória muda a sorte dos encarnados, colocando-os na liderança. O cruzamento vai em direção ao goleiro Ricardo, mas quem se antecipa é Luisão. De costas para o gol, o zagueiro se choca com o arqueiro, ainda assim desviando de cabeça para as redes. Gol. Explosão nas tribunas. Vitória benfiquista por 1 a 0. Título consumado na rodada seguinte, graças ao empate com o Boavista. Depois de 11 anos, o clube volta a conquistar a liga. E ganha um ídolo para sempre.

Apenas por aquele tento, determinante ao título no Campeonato Português 2004/05, Luisão poderia ser considerado um personagem histórico ao Benfica. O zagueiro estava em sua segunda temporada no clube e, aos 24 anos, começava a se firmar. No entanto, seria uma prévia da trajetória grandiosa que escreveria no Estádio da Luz. Dos recordes que quebraria, da liderança que exerceria, da maneira como reconduziria os encarnados ao topo de Portugal. Foram 15 anos por lá, marcantes a qualquer torcedor, por toda a transformação que se viveu. E que tiveram um ponto final nesta terça, com o anúncio da aposentadoria do brasileiro, aos 37 anos. Aposentadoria nos gramados, já que continuará exercendo funções diretivas entre os benfiquistas.

Por mais que o vermelho do Benfica marque o currículo de Luisão, sua carreira tem outros momentos vitoriosos. E por mais que a arte de defender fosse dominada pelo zagueiro imponente, também com sua boa dose de técnica, os gols são parte importante de suas façanhas. A começar no Cruzeiro, que o contratou junto ao Juventus e não se arrependeu da excelente aposta que realizou. O garoto de personalidade forte e sede de desafios não demorou a se tornar parte importante na Raposa. Oferecia muita firmeza na linha defensiva, mas suas aventuras ao ataque também rendiam gols, pelo ótimo tempo de bola e pela altura. Um deles, para marcar o ano vitorioso que os celestes tiveram em 2003. Luisão anotou o terceiro gol contra o Flamengo no Mineirão, que consolidou a conquista da Copa do Brasil. Ainda participaria do início da caminhada no Brasileirão, que fechou a Tríplice Coroa, mas se transferiu ao Benfica no primeiro semestre.

O início de Luisão no Estádio da Luz não foi tão simples. Enfrentou alguns problemas de lesão e não se colocou imediatamente como titular. Todavia, o sucesso no Cruzeiro já tinha aberto as portas na seleção brasileira. O que faria a diferença também para ele se eternizar com a camisa amarela. Ao lado de Juan, formou uma ótima dupla de zaga na Copa América de 2004. E teria seu papel importante na emocionante vitória contra a Argentina na decisão. Foi dele o primeiro gol brasileiro. Depois, o jovem sofreria um choque de cabeça. Sequer se lembrava qual o placar ou mesmo qual jogo era, mas tentou continuar em campo o máximo possível. Necessariamente substituído e encaminhado ao hospital, não festejou depois que Adriano caprichou para buscar o empate dramático, rendendo depois o triunfo nos pênaltis.

Luisão viveria uma temporada histórica em 2004/05. O ano que lhe abriu de vez as portas no Benfica, titular absoluto, herói no clássico decisivo com um gol aos 38 do segundo tempo. A partir de então, a adoração pelo defensor se tornou natural. E ele galgou os seus passos para se firmar em definitivo no Estádio da Luz. Seus atributos dentro de campo eram visíveis, assim como exalava a liderança que exercia sobre os companheiros. A braçadeira virou um destino natural ao beque. Enquanto isso, o próprio Benfica mudava de ares. Depois de anos de seca, também experimentava uma nova era com a reinauguração do Estádio da Luz e a abertura de seu novo centro de treinamentos. E se o Porto parecia uma força principal, logo o quadro se transformaria, com o ressurgimento dos encarnados.

A conquista do Campeonato Português em 2009/10 concedeu mais uma alegria. Ainda haveriam mais alguns títulos portistas depois disso. Contudo, a partir de 2013/14, o Benfica restabeleceu sua dominância. Conquistou quatro títulos da liga em sequência. Vivia uma hegemonia que era inédita à instituição, em tetracampeonato que nem mesmo nos tempos de Eusébio e Coluna havia acontecido. Somava-se a isso mais dois troféus na Taça de Portugal e a supremacia na Taça da Liga, além de boas campanhas nas copas europeias. Luisão não conseguiu ser titular sempre. E até por isso sua participação acaba merecendo um capítulo à parte. Em 2015/16, o zagueiro sofreu uma séria lesão no antebraço, passando por cirurgia após fraturá-lo. Jogou pouquíssimo. Mas voltou soberano para ser o capitão na campanha que consumou o tetra. Para escrever seu nome nos anais.

Concomitantemente, Luisão ainda se estabeleceu como uma das referências na defesa da Seleção. Não chegou a ser titular absoluto no posto, mas somou 47 partidas ao longo de uma década e participou de diferentes ciclos com a equipe nacional. Companheiro de Kaká, Adriano e Maicon no Mundial Sub-20 de 2001, participou também da frustrada campanha na Copa América do mesmo ano. Depois, se juntaria ao elenco de Parreira em todas as grandes competições até o Mundial de 2006. Estaria presente ainda na Copa de 2010, além da Copa das Confederações de 2009, com seu segundo título no torneio. Já a despedida ocorreu na Copa América de 2011. Apesar do bom nível que se mantinha no Benfica, deu espaço aos mais jovens.

Em agosto de 2017, Luisão se tornou o jogador que mais títulos conquistou pelo Benfica. Superou o lendário Mário Coluna para erguer seu 20° troféu. As marcas não se ampliaram na última temporada, agridoce aos encarnados. O veterano, que seria titular apenas na primeira metade das campanhas, seguindo para o banco depois que se recuperou de uma contusão no joelho, completou 538 jogos com a camisa vermelha. É o segundo atleta que mais atuou pela agremiação, atrás apenas do antigo atacante Nené, artilheiro da equipe entre 1968 e 1986. Entretanto, a falta de espaço, sem sequer entrar em campo na atual temporada, precipitou o adeus para esta semana.

Nesta terça, o adeus de Luisão rendeu uma bonita homenagem no Estádio da Luz. De dirigentes a companheiros, todos estiveram presentes para o último tributo ao capitão. Luisão pôde recontar seus passos no Benfica, acompanhado pelas duas dezenas de troféus conquistados, que falavam por si. “Agradeço a todos, sem exceção. A todos mesmo, até aos rivais que me fizeram crescer dentro de campo. Devo quase tudo ao presidente, ao Benfica, à minha esposa e às minhas filhas. Vejo aqui ‘obrigado, capitão’, mas acho que eu é que tenho de dizer ‘obrigado, Benfica do fundo do meu coração’. Não sei qual é o meu sentimento agora, mas sei que amanhã não vou ter nada disso. Vou acordar e não vou tomar o café da manhã com os meus companheiros, não me vou botar o uniforme nem treinar, mas sei que amanhã começa um novo dia da minha carreira”.

“Pressão sentimos quando temos 65 mil pessoas a empurrar, mas hoje, quando entrei com a minha família por aquela porta, vi a arquibancada vazia e entendi o que é pressão. É como se fosse o primeiro dia da minha vida. Orgulho-me de tudo o que Deus me deu na vida. Desde a infância humilde até aos primeiros toques na bola com o meu pai, até chegar aqui e me tornar homem e atleta. Sempre recompensei tudo o que me deram em campo”, complementou o veterano.

Em entrevistas recentes, Luisão declarou que, quando chegou ao Estádio da Luz, via o Benfica como uma etapa de sua carreira. Seria um trampolim. E que não tenha partido a novas empreitadas, não se nega que, de fato, houve um impulso. O zagueiro gravou seu nome para sempre em um dos clubes mais tradicionais da Europa, aclamado por todo o sempre junto a uma torcida fanática. Já o Benfica também se agigantou um pouco mais a partir dos serviços do capitão. A história está cumprida, e aquele gol contra o Sporting é a introdução de um livro com final feliz.


Os comentários estão desativados.