A coletiva de imprensa de despedida do atacante Luis Suárez do Barcelona teve muitos momentos de emoção. O atacante, de 33 anos, teve que se sentar ao lado do presidente, Jose Maria Bartomeu, que é, em última instância, o principal responsável pela sua saída. Quando recebeu a palavra, caiu em lágrimas. O terceiro maior artilheiro da história do clube se emocionou na despedida de um clube que aprendeu a fazer seu.

Suárez chegou ao Barcelona em 2014, contratado depois de um ano mágico pelo Liverpool. Os catalães pagaram € 81,72 milhões aos ingleses para contar com o uruguaio. Ele vinha de uma polêmica na Copa do Mundo ao morder Giorgio Chiellini, o que o suspendeu do futebol por três meses. O Barcelona contratou e esperou por ele.

Nos anos pelo Barcelona, Suárez se tornou o terceiro maior artilheiro do clube, com 198 gols em jogos oficiais em 283 partidas. Só está atrás de Lionel Messi, goleador máximo do clube com 634 gols, e César Rodríguez, com 232. Foram 13 títulos conquistados: quatro ligas, uma Champions, quatro Copas do Rei, um Mundial de Clubes, uma Supercopa de Europa e duas Supercopas de Espanha.

Luis Suárez com os troféus que ganhou no Barcelona (Miguel Ruiz/FC Barcelona)

Desde a goleada sonora para o Bayern de munique por 8 a 2, que eliminou o time da Champions League, o clube entrou em uma rota de tentar se reformular. O novo técnico, Ronald Koeman, falou com Suárez que não contava mais com ele. A sua saída teve algumas complicações nos últimos dias.

O jogador iria rescindir o contrato, recebendo uma compensação pelo encerramento do vínculo antes do fim. Ao saber que o jogador estava acertado com o Atlético de Madrid, o Barcelona quis voltar atrás. Foi preciso uma nova roda das negociações e o clube cedeu. Até porque era o clube que queria que ele saísse. Com  a rescisão do seu contrato, fica livre e irá assinar com o Atlético de Madrid.

Barcelona é uma cidade que Suárez está muito ligado. Foi sempre o seu sonho, até porque é onde a sua esposa queria morar. Foram seis anos de sonhos vividos no clube blaugrana e que Suárez se manteve como um dos principais jogadores do mundo na sua posição. Apesar de ter vivido altos e baixos, deixa uma marca indelével de um atacante fantástico, histórico. Ainda tem muita lenha para queimar. A forma como foi dado como descartável pelo Barcelona parece deixar uma mágoa. A despedida da cidade e do clube emocionou muito o uruguaio.

“Isto é tudo imprevisto, porque não tenho nada preparado. Tenho que agradecer ao clube porque confiaram em mim em 2014. Sabiam que cometi um erro e seguiram confiando em mim. Não era fácil aceitar isso. Os companheiros me trataram de maravilhosamente. Todas as pessoas sabem o esforço e o sacrifício que fiz para chegar aqui para realizar um sonho”, declarou o jogador.

“Sou consciente que acaba uma etapa da qual tenho que estar muito orgulhoso por tudo que fiz, por levar amigos, porque são muitos anos. Queria que vissem que um ser humano que está indo embora, que tem sentimentos”, disse Suárez, em algo que soa como uma resposta ao dirigente ao seu lado, Bartomeu, que fez força para que o jogador deixasse o clube.

“Minha família, que são os que suportaram tudo, o bom e o mau, e me apoiaram nas dificuldades. Mas eu vou ficar com tudo de lindo que ficou. Que meus filhos me viram marcar gols, levantar troféus, jogar ao lado do melhor jogador da história… Isso vai ficar para mim como recordação”, continuou o uruguaio.

“Agradeço à torcida por todo carinho e sei que seguem me apoiando. Agradeço aos funcionários, que trabalham dia a dia. Quero que saibam que sempre vão ter um culé a mais em mim”, disse ainda o atacante.

Sonho tornado realidade

“Chegar aqui foi um sonho tornado realidade. Chegar aos números que consegui é algo que você nunca planeja. No Barcelona, você sempre tem que render ao máximo. Tenho que me sentir orgulhoso de ter ficado tanto tempo. Eu saio orgulhoso e satisfeito. Vivi muitos momentos que ficarão nas minhas recordações. Também momentos complicados, que é preciso lembrar”.

“Fico com a lembrança de conseguir a primeira La Liga, uma Champions, jogar com jogadores maravilhosos que antes eu só jogava no Playstation. Cada jogador tem a sua forma de se despedir, de viver. Agora, tenho que desfrutar isso. Que meus colegas estejam aqui, além da minha família, é lindo”, disse, referindo-se à presença na sala de Lionel Messi, Gerard Piqué, Sergi Roberto e Sergio Busquets, líderes do time.

“Foi um mês louco, falando de coisas que não se pensava. Inventaram coisas, vazaram coisas de forma indigna. Temos que tentar ficar longe de tudo. O que tenho que valorizar agora é que tenho que me sentir orgulhoso destes anos no clube. O que tenho que fazer é mudar o chip e iniciar uma nova etapa, e estar agradecido ao Barcelona. Nada de culpa”

“Hoje é a minha despedida, não vou dar esse gosto a ninguém. Saio com os números que tive e com a história que deixei. Cada jogador tem o seu momento. Se o clube ou jogador pensam que chegou a hora, temos que aceitar. Se é o jogador que quer sair, também. Custa, é difícil, são momentos raros, você tem família. Temos que aceitar. São coisas que acontecem no futebol”.

A conversa com Koeman

“Tenho que aceitar o que o treinador me disse. Eu esperava a ligação, porque eu sei o que era falado na imprensa. Naquele momento, tinha contrato e treinei. Disse que me respeitariam para buscar uma solução, e não houve problema continuar treinando”, contou Suárez.

“É óbvio que me sinto capacitado para continuar competindo em La Liga e mais do que este último ano. Eu saio da forma que saio. Vou seguir competindo, com um novo desejo. Há momentos que, mesmo que você tenha contrato, o jogador e o clube precisam de mudanças. Neste caso, era um t reinador que não contava comigo. Cumpri as expectativas do que é ser um atacante do Barcelona. Contente pelo que deixei aqui”.

Luis Suárez se emociona na despedida do Barcelona (Miguel Ruiz/FC Barcelona)

A escolha do Atlético de Madrid

“Quando o Barça me comunicou não contar comigo, me colocaram no mercado e recebi muitas ligações. Eu me via capacitado para ir para uma equipe que compita de igual para igual com o Real Madrid e o Barcelona. Com Josema eu não falei, com Diego Godín sim, e com Antoine [Griezmann] também”

“Vou para uma equipe muito competitiva, que tem lutado por La Liga. Isso reflete o que é ser uma equipe competitiva e ser capaz de realizar algo importante em um novo clube. Vamos competir com um rival direto, mas veremos o que acontece no futuro. Não vão se misturar os sentimentos por nos enfrentarmos a partir de agora”.

Perguntado sobre o futuro do Barcelona, Suárez apoiou os jovens. “Se vê nos treinamentos. Como em cada começo, há muita vontade. Há jogadores jovens, que isso traz muito. O que falamos com algum companheiro, que este ano há mais variações e mais possibilidades de rotação. Espero que os jovens aproveitem a oportunidade”.

Autocrítica

“Posso fazer minha autocrítica. Os erros que cometemos na Champions. Temos que ser autocríticos aqui, temos que aprender e temos que ser profissionais para fazer. Não posso me arrepender de nada, passei por momentos complicados, joguei até lesionado e isso eu valorizo. Saio orgulhoso de entrar na história do clube”, avaliou o terceiro maior goleador do Barcelona.

“Ao torcedor, vou ser eternamente grato pelo apoio que me deram. Passei momentos ruins, de rachas, e me respaldaram, me apoiaram. Sei que há pessoas que ficarão sentidas pelas formas, mas não temos que tirar o protagonismo de seis anos espetaculares que vivi aqui. A ferida ficará para sempre, mas tratarei de levar comigo todas as coisas boas, pelos companheiros que tenho e por tudo o que está à minha volta”.

Amizade com Messi

“Com Leo, nos conhecemos bastante, sabemos o que pensamos e somos bastante grandes para nos darmos conselhos. Todo mundo sabe a relação que temos. Quando chega um e fala para você ter cuidado com o Leo, que é atacante, depois de muitos anos eles falaram que ele se dava mal com um e outro. Agora, disseram que eu fazia mal a ele. Não direi quem. No meu caso, saio orgulhoso”.