Luis Enrique inaugurou a nova fase da seleção espanhola nesta quinta-feira. O novo treinador foi apresentado oficialmente pela federação espanhola, iniciando o ciclo que visa a Euro 2020 – o limite de seu contrato atual, de dois anos. E, ao menos neste momento, o comandante se afastou de qualquer choque de gestão. Não prometeu mudanças drásticas e, pelo contrário, disse seguir o que já vinha sendo feito ao longo dos últimos anos, como parte de um estilo natural da seleção espanhola. A ver se a prática acompanhará o discurso ou se esta é apenas uma maneira de atenuar as expectativas quanto a uma quebra, após a decepção na Copa do Mundo.

“O objetivo é continuar o trabalho de Lopetegui e Hierro. Nós estamos analisando tudo e acreditamos que as bases estão no lugar, para seguir em frente e reencontrar o sucesso. Os meus dois antecessores trabalharam duro e temos que agradecê-los por tudo, mas o futebol é um ciclo contínuo e ganhar troféus não é simples. No Barcelona, tínhamos ideias similares de evolução. Eu sei o que este trabalho implica e tenho sorte o suficiente de contar com a confiança. Espero impressionar na função. Estou empolgado pelos grandes desafios pela frente”, apontou Luis Enrique, durante a entrevista.

O treinador aforma que não deve haver uma cisão grande sobre questões táticas, embora existam aspectos a se melhorar: “Há muitas evoluções no nível tático que podem ser feitas. A fase mais difícil de uma equipe é a finalização, quando o rival está fechado perto de sua área e tirando os espaços, com muita densidade atrás da bola e esperando para o contragolpe. Esta é uma situação que vimos contra a Espanha na Copa e creio que continuaremos vendo, então precisamos solucionar”.

Luis Enrique, inclusive, elogiou Aragonés e a maneira como se moldou a identidade da Espanha desde então: “Na nossa época ainda se falava na Fúria. Quando saíamos do túnel, como contra a Alemanha na Copa de 1994, olhávamos os alemães e percebíamos que nos mediam. Então dizíamos: ‘Caramba! Não me parece a Fúria…’. A Espanha, graças a Aragonés, encontrou o que somos de verdade. Somos jogadores talentosos, não muito fortes fisicamente, mas espertos. Eu gosto do que vejo. Gosto do que transmite a seleção. Nossos jogadores fazem um futebol com nobreza. É uma maneira de jogar e não creio que por isso acabemos desperdiçando jogadores de outros tipos, é possível conciliar”.

Sobre a convocação, Luis Enrique afirmou uma grande abertura em suas escolhas, cogitando fazer um apanhado sobre as possibilidades: “Não falei com nenhum jogador. Faz uns dias que me encarreguei de recolher informação. Creio que o principal é falar com as pessoas da federação. Não tenho pressa em falar com os jogadores. Conheço alguns muito bem, outros tenho vontade de conhecer. Elaborei minha primeira lista de convocáveis e tem uns 70 nomes, tenho que fazer o levantamento”.

Além disso, o treinador foi perguntado se haveria algum problema com Sergio Ramos, dada a rivalidade entre Real Madrid e Barcelona, de episódios quentes na época em que Luis Enrique estava à frente dos blaugranas. Negou qualquer entrave com o capitão e prometeu consultá-lo em suas decisões.

“Que eu saiba, não tenho problemas com nenhum jogador. Que eu saiba! Se algum jogador tem problema comigo, isso é algo que não me preocupa e que nem devo tentar entender. Tenho muita vontade de apresentar minha primeira convocação. Teremos surpresas, seguramente. Gosto de conversar. Vou conversar com Sergio Ramos ou com qualquer um que seja. Mas evidentemente eles têm uma visão individual. A minha é mais coletiva. Concordarei com o que puder e então decidirei as coisas mais complicadas. Um treinador deve tratar cada jogador à sua maneira. Eu trato meus filhos de maneira distintas, e são os filhos da mesma mãe e do mesmo pai, imagine com a seleção! Tratarei da melhor maneira cada um para que dê o melhor de si. Quando tiver que endurecer, não tenho problema, mas faço com convencimento e sinceridade. Não sou amigo de botar muitas normas, mas que respeitemos todos”.

Por fim, Luis Enrique, que se manifestou em prol da independência da Catalunha, preferiu se afastar do assunto quando indagado por um jornalista: “Não vou falar de política. O que você disse não se ajusta à realidade. Posso entender a má intenção, mas não me atinge. Eu me sinto orgulhoso de ser o que sou. Eu me considero asturiano, gijonês e espanhol. E também catalão”.