O futebol espanhol está voltado a tentar erradicar a violência de seus estádios. A morte de um torcedor do Deportivo de La Coruña no último final de semana, em uma briga com motivações políticas, iniciou um combate ostensivo aos ultras. Uma guerra declarada que se espalha pelos demais clubes de La Liga. Uma prova disso foi dada neste final de semana, no Estádio Santiago Bernabéu. O combate aos organizados mais radicais já tem sido feito de maneira ostensiva pelo Real Madrid deste o início do segundo mandato de Florentino Pérez na presidência. Desta vez, porém, os merengues abriram expediente contra 17 torcedores que foram denunciados pela Liga de Fútbol Profesional  (LFP) por insultarem a Catalunha, o Barcelona e Messi.

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Segundo relatos, os gritos denunciados no Bernabéu foram os de “Messi retardado” e “Puta Barça, puta Catalunha”. A ação vem na esteira das reformas para combater a violência no futebol espanhol, que entra em vigor no próximo dia 15. As novas regras preveem o fechamento parcial das arquibancadas e a perda de pontos por cânticos xenófobos, racistas ou insultos. Além disso, os torcedores identificados correm o risco de banimento dos estádios, multa e implicação criminal pelas atitudes.

Existe, no entanto, quem veja essas primeiras atitudes como um exagero. Na coletiva após o jogo do Barcelona neste domingo, o técnico Luis Enrique falou sobre a questão: “Todas as medidas contra a violência me parecem muito boas. Porém, se expulsarmos dos estádios de futebol todas as pessoas que insultam, me parece que vamos ficar sozinhos. Que tipo de insultos vamos sancionar? Onde vamos colocar o limite? Temos que entender, também, a cultura de cada país. Considero isso quase utópico”.

Luis Enrique tem sua parcela de razão. Qualquer combate à violência é valido. As brigas entre torcidas precisam ser erradicadas e, por isso mesmo, as autoridades espanholas estão criando um setor de inteligência justamente para prevenir as brigas. Mais do que isso, o Campeonato Espanhol possui um profundo histórico recente de casos de racismo e xenofobia – o episódio com Daniel Alves e a casca de banana foi apenas o mais repercutido de uma série de exemplos de intolerância. Questões também profundas e que precisam tanto de inibição quanto de punição. Entretanto, há uma linha tênue, que precisa ser determinada.

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Abrir procedimentos contra os madridistas que gritaram xingaram o Barcelona parece exceder este limite. Um tipo de atitude que abre vários precedentes. Não por tirar aquilo que é defendido por muitos como “a liberdade do torcedor de extravasar no estádio”, mas justamente por ser uma questão impossível de ser controlada. Não é o cerco contra palavrões que tornará o futebol menos violento. Não é a polidez nas palavras que impede a ofensa.

Obviamente, a questão é delicada, e não apenas para o futebol espanhol. Contudo, não pode se perder o problema de vista. Acima de qualquer insulto, está a violência e o preconceito. O racismo, a homofobia, o sexismo e a xenofobia não podem ser tolerados. Mas a educação dos torcedores também depende do bom senso dos dirigentes.

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