Depois de um mês de crise, indefinição e frustração, a Espanha sabe quem será o condutor de seu futuro no próximo ciclo rumo à Eurocopa. Nesta segunda-feira, Luis Enrique foi anunciado como treinador da seleção. O antigo meia da Fúria assume a equipe após a saída de Fernando Hierro, que sequer manterá seu cargo diretivo na federação. Diante do racha gerado pela ida de Julen Lopetegui ao Real Madrid, os espanhóis optam por um comandante mais experiente, que possui sua história como jogador da seleção e que também é referendado por aquilo que fez com clubes. No entanto, mais importante, que pode transformar o padrão de jogo e com tamanho para barrar alguns veteranos no processo de renovação. O ex-goleiro José Francisco Molina também foi confirmado como novo diretor esportivo, em cargo que era de Hierro até as vésperas do Mundial.

Luis Enrique assinou contrato de dois anos com a federação, garantido até a Euro 2020. Após deixar o Barcelona, o treinador era cotado para assumir outro clube, especialmente no Chelsea, mas suas exigências e a alta pedida salarial se tornaram entraves. Depois, viraria o favorito à seleção espanhola, apesar dos receios quanto ao seu gênio difícil, longe de ser um conciliador como Vicente del Bosque ou Luis Aragonés, e à sua proximidade com o Barcelona, que suscita uma impressão de ódio ao Real Madrid. Ainda assim, acabou sendo a alternativa de impacto que se aguardava na Roja – quando outros nomes levantados pela imprensa não tinham este histórico, a exemplo de Michel e Quique Sánchez Flores. Quique Setién, que chegou a ser favorito em dado momento, reiterou o compromisso com o Betis, após fazer uma boa temporada no Campeonato Espanhol e classificar o clube à Liga Europa.

Durante o anúncio de Luis Enrique, o presidente da federação espanhola, Luis Rubiales, comentou a escolha. Primeiro, reiterou que é um treinador moderno, que saberá desenvolver a Espanha a partir de seu estilo de jogo. Depois, elogiou por ser um nome que não assina pensando em ganhar dinheiro, mas sim pela ambição sentimental de treinar a Espanha – algo que lembra, por exemplo, a passagem de Antonio Conte pela Itália, em uma jornada que pode ser favorável à própria reputação junto aos clubes. Por último, apontou que Luis Enrique tem pulso para controlar o vestiário rachado após a saída de Lopetegui.

“Há dois ambientes, o interno e o externo. Sabemos que Luis Enrique é uma pessoa com caráter, que teve alguns problemas com a imprensa. Mas o ambiente interno, esperamos que seja melhor do que com Lopetegui e Hierro. Tentaremos levar bem todo mundo, entendendo que ele vem para ser treinador e tentar fazer que a seleção ganhe”, apontou Rubiales, durante a apresentação. Após o que aconteceu com Lopetegui, não há cláusula de rescisão no contrato do novo treinador. Para o dirigente, “se um técnico quer sair, deveria falar ante conosco, e a cláusula pode evitar esse diálogo necessário”.

Além das possibilidades no Chelsea, Luis Enrique também possuía propostas milionárias para dirigir no futebol chinês. Segundo Rubiales, o comandante abaixou o seu padrão salarial para se adaptar às condições da federação: “Quando Hierro anunciou sua saída na semana passada, foi relativamente fácil chegar a um acordo com Luis Enrique, porque ele queria ser técnico da seleção. Tinha ofertas importantes e era impossível alcançarmos os seus números economicamente, mas ele se disponibilizou com exigências menores. Queria comandar estes dois próximos anos. Esperamos que faça com o maior dos êxitos”.

Em seus tempos de jogador, Luis Enrique disputou três Copas do Mundo, a primeira como atleta do Real Madrid e as outras duas depois de ter se transferido ao Barcelona. Conhece o ambiente, especialmente depois das frustrações constantes da Fúria naqueles anos. Além disso, sua passagem como técnico do Barça é lembrada pela conquista da Liga dos Campeões, mas também pela maneira como ajudou a romper um pouco mais o padrão de posse de bola que se mantinha no clube, e havia atrapalhado a sequência de seus antecessores. O comandante soube desenvolver os seus preceitos sem abrir mão do máximo com Luis Suárez, Lionel Messi e Neymar no ataque. Porém, não conseguiu renovar o seu trabalho na temporada seguinte, deixando uma impressão de fim de feira.

A maior indagação é sobre a manutenção de alguns jogadores renomados, mas em clara queda de desempenho. Luis Enrique possui opções de qualidade para promover a renovação em quase todos os setores, mas precisa bater de frente com nomes importantes dentro do vestiário. Andrés Iniesta, certamente alguém com quem não teria problemas, foi o único a se adiantar e a se retirar da seleção. O ponto será o tratamento com os antigos comandados no Barcelona, em especial Gerard Piqué e Sergio Busquets, assim como com as lideranças do Real Madrid, encabeçadas por Sergio Ramos, sem que os posicionamentos do técnico sejam tratados como mero antimadridismo – uma acusação que gerou resistência antes mesmo de seu anúncio.

Pensando em nomes, Luis Enrique parece realmente o mais apropriado para assumir a seleção espanhola. Possui representatividade, currículo (apesar das oscilações) e conhecimento para ocupar o cargo. A grande questão está mesmo sobre os efeitos que seu trabalho causará. Depois de duas Copas decepcionantes, a Espanha necessitava de um choque. Mas há relacionamentos e preceitos bem mais delicados para se lidar, fundamentais para que o futuro da Roja continue a colocando entre os favoritos.