Luis Enrique possui seu lugar na história como treinador, ao acertar o Barcelona e devastar as competições na temporada 2014/15. De qualquer maneira, a relevância do asturiano dentro de campo continua maior. Um dos principais jogadores da Espanha em seu auge, o meia/atacante participou de três Copas do Mundo e faturou um ouro olímpico. Já em seus clubes, despontou no Real Madrid e conseguiu ser campeão com a camisa merengue, embora a idolatria tenha sido mais preservada no Barça, que defendeu por oito temporadas após virar a casaca. Um grande expoente da velha Fúria, que completa 50 anos nesta sexta-feira.

Luis Enrique aprimorou sua qualidade técnica no futebol de salão. O garoto demorou a estourar nos gramados, passando por pequenas equipes da região de Gijón, onde nasceu. Apesar disso, ficava evidente o talento da promessa, que também se destacava pela postura incansável dentro de campo e pela dinâmica de seu jogo. Aos 18 anos, acabaria pinçado pelo Sporting de Gijón. Atuou primeiro na filial, que na época militava na terceira divisão, até estrear na elite do Campeonato Espanhol em setembro de 1989.

A primeira grande temporada de Luis Enrique no Sporting se deu em 1990/91. Jogando como atacante, o novato ganhou a posição de titular. E ele seria uma das principais razões do excelente desempenho registrado pelos rojiblancos, que encerraram La Liga na quinta colocação. A qualidade do jovem para bater na bola se evidenciou naquela campanha, totalizando 14 gols no torneio. Balançou as redes do campeão Barcelona em ambos os turnos, inclusive para garantir a vitória por 1 a 0 no Molinón. Também teria uma exibição de gala na penúltima rodada, com uma tripleta sobre o Espanyol. Apesar da classificação à Copa da Uefa, Luis Enrique não seguiu em Gijón. A revelação acertou sua transferência ao Real Madrid.

Em tempos conturbados no Bernabéu, diante do sucesso do Barça de Johan Cruyff, Luis Enrique não se firmou de imediato. Apesar de começar La Liga 1991/92 como titular, esquentou o banco durante a maior parte do segundo turno. Isso não impediu que o jovem fosse chamado aos Jogos Olímpicos, na primeira edição com o limite sub-23 para o futebol. A Espanha honrou o fato de atuar em casa e botou o ouro no peito em Barcelona, derrotando a Polônia na final. Lucho vestia a camisa 8 e atuava no meio-campo, em equipe que também contava com Pep Guardiola, Kiko e Alfonso entre os seus destaques.

Luis Enrique ganhou espaço no Real Madrid com o tempo, mas sem repetir os números impactantes vistos no Sporting e nem justificar todas as expectativas. Virou uma peça versátil no elenco, por vezes entrando até como lateral. Costumava cumprir funções mais defensivas na equipe, que não conseguia superar o tetracampeão Barcelona em La Liga. Sua crescente com os merengues em 1993/94 valeu um lugar nas convocações da seleção espanhola e, assim, ele foi chamado para a Copa do Mundo.

Aos 24 anos, Luis Enrique seria um dos melhores da Fúria nos Estados Unidos. Começou atuando no meio-campo da equipe de Javier Clemente, antes de ser deslocado ao centro do ataque, contribuindo com muita movimentação e voltando para abrir espaços aos companheiros. O camisa 21 gastou a bola nos 3 a 0 sobre a Suíça, pelas oitavas, quando anotou um dos gols. Já nas quartas, o jovem teria seu nariz quebrado pela desleal cotovelada de Mauro Tassotti, que o trio de arbitragem sequer viu. Seguiu em campo, mas sem evitar a eliminação para a Itália com a derrota por 2 a 1.

A volta por cima de Luis Enrique aconteceu na temporada de 1994/95, com o Real Madrid. O meio-campista teve sua maior sequência como titular e era uma peça importante no meio-campo de Jorge Valdano, organizando a equipe ao lado de Fernando Redondo e Michael Laudrup. Com Raúl e Iván Zamorano comandando os merengues mais à frente, o time romperia a sequência do Barcelona e levaria a taça para o Bernabéu. Luis Enrique contribuiu com quatro gols, um deles na histórica goleada por 5 a 0 sobre os rivais.

Porém, nem o Real Madrid e nem Luis Enrique corresponderam na temporada seguinte. Os madridistas terminaram La Liga numa modesta sexta colocação e, sem chegar a um acordo para a renovação de seu contrato, o asturiano se despediu da torcida no Bernabéu. O meio-campista ainda manteve seu lugar na seleção espanhola que disputou a Euro 1996, titular apenas nas duas primeiras partidas. E mudaria de lado depois do torneio, numa transação com sua dose de polêmica: o Barcelona aproveitou o passe livre e levou o atleta de 26 anos ao seu elenco. Os ares no Camp Nou fizeram bem ao novo reforço.

Com Bobby Robson, Luis Enrique recuperou sua veia artilheira dos tempos de Sporting e exibia um futebol agressivo. Batia bem com as duas pernas e se infiltrava bastante na área, inclusive para definir de cabeça. Ganhou liberdade, em equipe que também contava com Ronaldo e Luis Figo. O asturiano contribuiu com 17 gols em La Liga 1996/97. Embora tenha chegado aos 102 tentos, o Barça deixou a taça escapar ao Real Madrid. O prêmio de consolação ocorreria na Recopa Europeia, com o triunfo sobre o Paris Saint-Germain na decisão. O time ainda abocanhou a Copa do Rei, superando o Betis na final.

Luis Enrique se daria ainda melhor em 1997/98. Bobby Robson cedeu seu lugar na casamata a Louis van Gaal, enquanto a saída de Ronaldo seria suplantada pela contratação de Rivaldo. Lucho acabaria como um dos melhores jogadores do Barcelona na temporada que rendeu a dobradinha nacional, com os título na Liga e na Copa do Rei. Seguiu anotando muitos gols decisivos, com 25 tentos pelo clube em todas as competições. Seria o terceiro na artilharia do Espanhol, com 18 gols, um deles anotado nos 3 a 2 sobre o Real Madrid no Bernabéu. Voltaria à sua segunda Copa do Mundo em alta.

Mas, assim como toda a seleção espanhola, Luis Enrique decepcionou no Mundial da França. A Fúria esteve distante de corresponder no difícil Grupo D e sequer passou às oitavas de final. A melhor exibição de Lucho ocorreu na goleada por 6 a 1 contra a Bulgária, quando fez seu gol e distribuiu duas assistências. Um placar inútil, já que Paraguai e Nigéria acabaram abocanhando as vagas na etapa seguinte. O jeito seria se reerguer no Barcelona, rumo ao bicampeonato espanhol em 1998/99.

Luis Enrique aparecia para definir e também municiava Patrick Kluivert na linha de frente. O camisa 21 somou 11 gols e seis assistências naquela campanha, que coroou com título o centenário blaugrana. Seria também o fim das glórias no Camp Nou, em uma virada de século turbulenta ao clube. Entre mudanças de técnicos e escolhas que não deram certo para a renovação do time, o Barça se distanciou do topo da tabela. Lucho era um nome experiente para servir de referência ao elenco, mas sozinho não salvava a lavoura. Permaneceu atuando em bom nível, embora sem o impacto de outrora.

Convivendo com as lesões, Luis Enrique perdeu a Euro 2000. Recuperou-se com boas aparições por La Liga 2000/01, antes de recobrar seu espaço na seleção e carimbar o passaporte à Copa de 2002. Titular durante o início do torneio, o veterano perdeu a posição no meio-campo justamente nas quartas de final contra a Coreia do Sul. Entrou no lugar de Juan Carlos Valerón pouco antes da prorrogação, mas sem evitar a traumática queda nos pênaltis para os anfitriões. Aquela partida em Gwangju também selaria a história do meia com a camisa vermelha.

Luis Enrique faria mais duas temporadas pelo Barcelona. Usado como meia esquerda ou armador, também vestia a braçadeira de capitão em certas ocasiões. Entretanto, a potência física não era a mesma de outros tempos e nem o talento desequilibrava com tamanha frequência as partidas. Seu último ano aconteceu em 2003/04, o primeiro sob as ordens de Frank Rijkaard. Era uma peça esporádica nas escalações, quase sempre utilizado a partir dos segundo tempo. Aos 34 anos, abriu alas à geração de Ronaldinho, Xavi e Carles Puyol. Com novos reforços e sem mais Luis Enrique no grupo, o Barça recuperou a taça no Espanhol em 2004/05.

A carreira de Luis Enrique como treinador começou pouco depois, substituindo Guardiola no Barcelona B. Seriam três anos à frente da filial, antes de uma passagem apagada pela Roma. Treinou o Celta e a ligação com os blaugranas reabriu as portas para que assumisse o time em 2014. O estilo enérgico dentro de campo se repetia também fora dele. E a agressividade do polivalente jogador, de certa maneira, seguiu rendendo frutos aos catalães – ainda que de maneira breve. Agora, é a seleção que espera os reflexos do antigo ídolo em sua recuperação na próxima Eurocopa.