Na segunda-feira, se alguém te dissesse que o Liverpool venceria o Barcelona por 4 a 0 e se classificaria, sem Salah e Firmino e com dois gols de Origi, e que o Tottenham venceria o Ajax depois de sair perdendo por 2 a 0 com três gols de Lucas Moura, com os Spurs ainda sem Harry Kane, provavelmente você chamaria a pessoa de maluca. Mas foi exatamente o que aconteceu. Lucas teve a maior atuação na carreira na vitória, de virada, do Tottenham por 3 a 2 na Johan Cruyff Arena. Finalmente uma atuação como se esperava dele, desde que surgiu, ainda em 2010, como um destaque da Copa São Paulo de Juniores, pelo São Paulo.

Lucas foi o camisa 10 de uma seleção brasileira que prometia muito. O time sub-20 de 2011, quando o Brasil tentava a classificação para a Olimpíada de Londres, em 2012. Naquele time, o 7 era Neymar, já uma estrela na época. Lucas era uma estrela em ascensão no São Paulo. O jogador foi destaque e a impressão era que os dois jogadores seriam expoentes de uma nova geração do futebol brasileiro. Avançamos três anos até 2014, para a Copa do Mundo no Brasil, e Lucas não estava nem entre os 23 convocados. E mais do que isso: ninguém pedia por ele. Avançamos mais cinco anos e estamos em 2019. Lucas classifica o Tottenham para a final da Champions League com uma atuação histórica, marcando três gols.

Como explicar o que Lucas fez nesse tempo todo? Aos 26 anos (faz 27 em agosto), Lucas teve uma carreira abaixo do esperado até aqui. Se tornou o principal jogador do São Paulo até deixar o clube, em 2012, quando foi protagonista no último título do clube paulista, a Sul-Americana de 2012. Foi para o PSG em janeiro de 2013, em um dos grandes investimentos que os donos catarianos do clube fizeram para tentar tornar a equipe uma potência. Só que isso, como sabemos, não aconteceu.

Lucas teve altos e baixos dentro do PSG. Na temporada 2013/14, por exemplo, ele teve 17 assistências na temporada, sendo 13 delas na Ligue 1. Em gols, foram poucos, apenas cinco. Apesar dos bons números, Lucas alternava boas atuações com outras mais apagadas. Nunca conseguiu se firmar como um dos destaques do time. Foi sendo relegado ao banco de reservas. E, apesar dos anos se passando e ele não jogando tudo que pode, não quis sair.

Mesmo que na temporada 2016/17 tenha tido algumas boas atuações e terminou com 19 gols e 10 assistências, somando todas as competições, perdeu espaço. Com a chegada de Neymar, em 2017, Lucas foi ainda mais relegado ao esquecimento. Primeiro ao banco, mas depois nem isso. Tanto que no meio da temporada 2017/18, em janeiro de 2018, foi negociado com o Tottenham por € 28,4 milhões. Chegou sob desconfiança em um time que também vinha tentando se encontrar.

No Tottenham, Lucas mostrou qualidades para ser mais do que um ponta rápido, como despontou e como pareceu ficar marcado a maior parte do seu tempo de carreira. No Tottenham, atuou como atacante, mais próximo de um centroavante, ou mesmo ele sendo o principal atacante, o ponto focal do ataque. Foi como aconteceu no jogo de ida da semifinal, por exemplo, quando Kane, machucado, e Son, suspenso, não estiveram em campo. Lucas tentou e tentou muito. Não conseguiu.

A temporada de Lucas pelo Tottenham é enorme. Foram 47 jogos até aqui, com 15 gols, sendo 10 deles na Premier League, cinco na Champions. Três no jogo de volta contra o Ajax na Holanda. Gols que levaram o Tottenham à sua primeira final de Champions League da história. Em um dia que o grande jogador do Tottenham, Son Heung-min, não conseguiu brilhar. Em um dia que o Tottenham teve problemas, mas que jogou, se propôs a jogar, brigar, tentar e criou chances para marcar mais gols do que conseguiu. Arrancou o gol da classificação no final, para lá do fim do mundo, para lá de 50 minutos – o árbitro tinha prometido justamente cinco minutos de acréscimos e foi um pouco além porque o goleiro Onana fez cera. Um gol que marcará a carreira de Lucas para sempre.

“É impossível explicar o que estou sentindo. Eu estou muito, muito feliz e orgulhoso dos meus companheiros. Nós sempre acreditamos neste momento, que isso era possível. Nós demos tudo e merecemos este momento. Nós somos uma família. É impossível explicar, impossível”, afirmou Lucas depois do jogo.

“Futebol nos dá momentos assim que nós não podemos imaginar. Nós precisamos aproveitar isso. Olhe para mim, é o melhor momento da minha vida, da minha carreira”, continuou Lucas. “Eu sempre acreditei nos meus companheiros. Nós temos muitas qualidades, mesmo sem nossos jogadores-chave. Esse é o nosso time, essa é a nossa família. Nós temos que lutar em todos os jogos assim. Eu apenas preciso dizer obrigado aos meus companheiros porque o que eu estou vivendo aqui no Tottenham é inacreditável”.

Com 26 anos, Lucas tem muito tempo de carreira pela frente. Consegue uma atuação monumental para o seu currículo que mostra a evolução de um jogador que pareceu demorar a se dar conta que precisava jogar para ser o jogador que seu futebol prometia. Lucas nunca esteve ao lado de Neymar em termos de importância para a seleção brasileira. Não quer dizer que não seja um ótimo jogador e que possa ainda ser importante para o Tottenham. Talvez até para a seleção brasileira, em algum momento.

Lucas tem mostrado suas qualidades ao longo desta temporada pelo Tottenham. Continua sendo um jogador incrivelmente rápido, mas além disso, mostrou qualidade na finalização e capacidade de ser mortal no ataque. Um antigo segundo atacante, em um time que não se prende aos pontas rápidos. Sabe se adaptar, trabalhar com alternativas de jogos, alternativas táticas. Mauricio Pochettino tem muito a ver tanto com o sucesso do Tottenham quanto com a melhora de Lucas, com seu rendimento chegando provavelmente ao ápice da carreira. Seja como for daqui para frente, Lucas escreveu um capítulo inesquecível na história da Champions League, do Tottenham e da sua própria vida.