Texto publicado originalmente em 26 de dezembro de 2015

O dia 26 de dezembro, por si, já é bastante movimentado no futebol inglês. Neste sábado, por exemplo, todas as divisões profissionais e as principais amadoras agendaram os seus jogos. Se já é difícil de acompanhar os 20 times da Premier League, imagine centenas de clubes. Pois não bastasse a generosidade da organização, às vezes os próprios deuses do futebol resolvem dar a sua ajudinha ao Boxing Day. E não há melhor exemplo disso do que a rodada de 1963 – por coincidência, ano do centenário da Football Association e do aniversário de 75 anos do Campeonato Inglês. As 10 partidas resultaram em 66 gols. Dos 20 times em campo, só dois passaram em branco. Enquanto 12 fizeram pelo menos três tentos.

 

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Por mais que as médias de gols costumassem ser mais altas no passado, não era exatamente o caso. Por exemplo, o Campeonato Inglês de 1963/64 teve 3,4 gols por jogo – quase a metade daquele Boxing Day fantástico. E isso porque o Arsenal, dono do terceiro melhor ataque, estava de folga na rodada. Somente a primeira divisão contou com o equivalente a 70% dos gols da segunda, da terceira e da quarta divisão somadas naquele mesmo dia. Eram tantos tentos que alguns torcedores passaram a questionar se os seus jogadores aproveitaram em excesso o Natal. Enquanto isso, o técnico Bill Nicholson chegou a fazer uma blitz nos quartos do hotel onde estavam hospedados seus jogadores do Tottenham, à procura de bebidas. Já o lendário Bill Shankly, do Liverpool, também vetou o álcool aos seus comandados. “Você pode comemorar o Natal durante o verão”, disse o treinador, segundo o atacante Ian St. John.

A maioria dos resultados, porém, não pode ser considerada tão surpreendente assim. Por mais que fosse o campeão de dois anos antes, sob o comando de Alf Ramsey, o Ipswich Town acabou na lanterna, massacrado pelos 10 a 1 do Fulham – em partida na qual Graham Leggat anotou o hat-trick que permaneceu por 52 anos como o mais rápido da primeira divisão. Da mesma forma, o líder Blackburn não perdoou as escolhas táticas erradas do West Ham para enfiar 8 a 2. O fortíssimo Liverpool de Bill Shankly, a caminho da taça, bateu o Stoke City por 6 a 1. E mesmo o Chelsea, que vivia um momento de destaque, anotou 5 a 1 no Blackpool.

Ainda assim houve espaço para surpresas. Nenhuma maior do que os 6 a 1 do Burnley sobre o lendário Manchester United de Matt Busby e Bobby Charlton, que terminou a campanha com o vice-campeonato, só quatro pontos atrás do Liverpool. O Everton, então dono da taça, também sofreu um tropeço notável ao perder ante os ‘reis do gelo’ do Leicester City fora de casa. Já o Tottenham protagonizou um eletrizante 4 a 4 com o West Bromwich, mas deu bobeira ao permitir que os anfitriões tirassem a desvantagem de dois gols nos minutos finais.

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O mais maluco é que, naquela época, os reencontros do Boxing Day aconteciam logo na sequência. Dois dias depois, os mesmos times voltaram a se enfrentar – com exceção feita a Liverpool e Stoke City, em temporada na qual dois times folgavam por rodada. A fartura não se repetiu, é verdade, com 37 gols em 10 jogos. Ainda assim, alguns times conseguiram as suas revanches. O Manchester United atropelou o Burnley por 5 a 1, o West Ham venceu o Blackburn por 3 a 1 e até o Ipswich Town fez 4 a 2 sobre o Fulham.

A se lamentar, apenas o fato de que os estádios não estavam tão cheios quanto poderiam. O Reino Unido atravessava o “Big Freeze”, seu inverno mais rigoroso em 17 anos, o que afastou parte do público. Ainda assim, mesmo quem não esteve presente certamente se deliciou com os jogos e com a cobertura posterior. “Mad, mad, mad, mad world of Soccer on Boxing Day” era a manchete do Daily Mirror, que dizia em suas primeiras linhas: “Os defensores da primeira divisão entraram na entrega de presentes do Boxing Day”. Loucura pura.


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