O ano de 2018 foi bastante agitado na vida de Julen Lopetegui. Demitido da seleção da Espanha a dois dias da estreia na Copa, pelo acerto com o Real Madrid. Três meses depois, demitido do Real Madrid depois de tomar um 5 a 1 dos rivais da Catalunha. Em entrevista à BBC, o espanhol falou sobre a seleção espanhola, como foi a experiência no Real Madrid e os planos para o futuro.

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A demissão da Espanha

Era dia 12 de junho, dois dias antes da Copa do Mundo começar para a Espanha. Foi quando foi anunciado que o técnico tinha acertado com o Real Madrid para depois do Mundial. Para o técnico, abrir o jogo sobre isso era uma forma de acabar com as especulações e fazer com que ele, e o time, pudessem focar no torneio.

O presidente da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), Luis Rubiales, ficou furioso com o anúncio de Lopetegui. Para o dirigente, a negociação deveria ter envolvido a federação espanhola – o que é até compreensível. A decisão, então, foi de demitir o técnico, mesmo às vésperas do torneio de futebol mais importante do mundo. Fernando Hierro, diretor de seleções, assumiu o time.

“Não foi fácil para mim”, disse Lopetegui. “Nós trabalhamos duro por dois anos, nós sentimos que estávamos prontos para ter uma Copa do Mundo fantástica. Dois meses antes, quando eu assinei um novo contrato com a Espanha, eles colocaram uma cláusula de rescisão. Foi ideia de Rubiales, eu concordei com isso sem problema e então aconteceu [a proposta do Real Madrid]”, disse ainda o espanhol.

“O momento não foi escolhido por mim ou pelo Real Madrid. Eu disse sim, mas eu sabia que a Copa do Mundo era minha única responsabilidade. Manter isso em segredo por um mês era impossível e não era honesto. Nós estávamos convencidos que o melhor era ter uma coletiva de imprensa para abrir e fechar a questão, depois disso, o foco seria apenas a Copa do Mundo”, explicou Lopetegui.

“Os jogadores foram fantásticos. Depois que eu disse a eles, nós tivemos o nosso melhor treinamento em três semanas da nossa preparação, então eu estava muito feliz, mas no final o presidente tomou aquela decisão”, contou o técnico. “Foi um momento muito difícil e eu nunca irei esquecer porque foi uma surpresa. Eu senti que foi muito injusto”.

“Foi um voo de cinco horas para cada de Moscou a Madri e eu não disse uma palavra, mas a vida é assim. Foi uma experiência muito dura, mas você precisa tentar e colocar em uma situação positiva”, declarou ainda Lopetegui.

A falta de sono no Real Madrid

Demitido da seleção espanhola, Lopetegui estava de volta a Madri no dia seguinte e foi apresentado no Real Madrid. O treinador foi às lágrimas ao ser apresentado pelo presidente do clube, Florentino Pérez. Parecia um salto importante na carreira do treinador, que tinha passado pela Espanha sub-21 e pelo Porto antes de treinar o time principal da Espanha.

“Eu não dormi; eu não sabia onde eu estava. Um dia eu estava na Rússia treinando para a Copa do Mundo, no seguinte eu estava no Santiago Bernabéu com um novo time”, afirmou o treinador. “Foi muito rápido, difícil de assimilar e as emoções estavam muito altas. Foi difícil me dizerem para deixar a Copa do Mundo, era um sonho que eu tinha e trabalhei muito duro para isso, com toda essa emoção. Eu sou humano e às vezes você não pode controlar”.

A trajetória de Lopetegui no Real Madrid teve dois momentos distintos. No começo, bons resultados: cinco vitórias em seis jogos, incluindo um 3 a 0 na Roma pela Champions League. Só que em seguida, o time desandou. Apenas uma vitória nos sete jogos seguintes. A gota d’água foi a derrota humilhante para o Barcelona por 5 a 1 no Camp Nou, no dia 29 de outubro. Acabou demitido em seguida, pouco mais de três meses depois de chegar.

“Nós tivemos um bom começo, o time foi jogando bem, então nós tivemos três semanas muito ruins. Você espera que terá tempo para encontrar uma solução, porque essas coisas possam equilibrar ao longo da temporada. Nós tínhamos certeza que essa situação iria passar. Eu não tive tempo, essa é a melhor forma que eu posso explicar isso”, disse Lopetegui.

A saída do Real Madrid foi de fato dolorida, mas Lopetegui não guarda nenhuma mágoa do clube ou mesmo dos dirigentes. “Eu tenho todo respeito pelo novo técnico [Santiago Solari], toda sua equipe. E os jogadores, eu os amo, eles têm uma fantástica atitude comigo”, afirmou o treinador. “Eu gostaria de nunca dizer algo ruim do Real Madrid. Dirigir um clube é uma experiência fantástica para qualquer técnico. Eu esperava ter mais tempo, mas eu tenho que olhar para o futuro”.

De olho na Premier League

Lopetegui falou sobre o futuro e foi perguntado pela BBC se trabalharia na Premier League. “Um técnico precisa estar aberto para o seu futuro, mas se eu posso escolher, eu prefiro estar nas melhores ligas”, afirmou o treinador. “A Inglaterra é uma liga fantástica. Quando você assiste a um jogo na Inglaterra, você pode sentir a atmosfera, o respeito pelos jogadores e técnico, isso é muito importante. Eu quero sentir isso”, continuou. “É claro que a Espanha é uma liga fantástica também, com jogadores fantásticos, mas veremos”.

Influência de Cruyff

Johan Cruyff é uma grande influência para muitos técnicos pelo mundo e, notadamente, para Pep Guardiola, um dos mais bem-sucedidos atualmente. Como goleiro, Lopetegui foi jogador de Cruyff nos tempos de Barcelona, onde ele jogou de 1994 a 1997, sempre como reserva. Jogou pouco, mas aprendeu muito com o holandês, enquanto ele foi o comandante lá.

“Assim que tive o primeiro treinamento com Johan, eu pensei: ‘Ele é diferente de todos os outros técnicos’, ele era brilhante. Ele plantou a semente para outros técnicos colherem nas suas ideias e desenvolverem essas ideias. Ele estava um passo à frente do resto”, afirmou o treinador espanhol.

“Ele também entendeu que o que você pensa sobre o jogo e questiona o que ele diz. Como técnico, você precisa estar pronto para explicar por que aos jogadores, por que estamos trabalhando desta forma e por que nós escolhemos essas soluções. Se um jogador entende, ele é um jogador mais forte”, disse.

Lopetegui tomou uma decisão que é difícil condenar ao aceitar a proposta quase irresistível do Real Madrid, ainda mais para um espanhol. Não deu certo, acabou fracassando, em uma situação que acabou sendo ruim para todos os envolvidos. Perdeu a seleção da Espanha, que ficou sem técnico; perdeu o Real Madrid, que teve um técnico que não durou nem quatro meses; perdeu Lopetegui, que deixou um trabalho que ia bem, não disputou a Copa do Mundo, sempre tão desejada, e acabou embarcando em um trabalho que fracassou.