A numeração do Pachuca no Mundial de Clubes não começa no número um. Nem poderia. Faz cinco anos que nenhum jogador do clube utiliza esse algarismo. A camisa clássica de goleiro foi aposentada, em homenagem a um dos maiores ídolos do clube mexicano. O goleiro Miguel Calero morreu em 2012, vítima de uma trombose cerebral. Deixou saudade e um recorde: aos 39 anos, foi o jogador mais velho a disputar o Mundial de Clubes, marca que deve ser batida na edição deste ano por outro goleiro do Pachuca, Óscar Pérez.

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O colombiano Calero começou carreira no seu país natal, defendendo Deportivo Cali, Sporting de Barranquilla e Atlético Nacional. No começo do século, chegou ao Pachuca para fazer história. Conquistou dez títulos pelo clube mexicano, incluindo quatro edições do Campeonato Mexicano e quatro da Concachampions. Foi capitão e um ídolo também pela sua raça em campo.

E ainda fazia uns gols. Em 2002, assegurou o empate contra o Jaguares de Chiapas, no último minuto, com uma cabeçada. “Foi a primeira vez da minha carreira profissional que a minha mãe veio me ver”, brincou, após a partida. Quatro anos depois, a apoteose. Era o último minuto da semifinal do Clausura, e o Pachuca precisava de um gol para eliminar o Chivas e chegar à decisão. De boné, Calero foi para a área e cabeceou a bola para as redes. Há debate sobre quem de fato marcou o gol: ele ou o companheiro Aquivaldo Mosquera. Na hora, quem comemorou efusivamente foi Calero.

Calero simboliza uma época em que o Pachuca era presença constante no Mundial de Clubes e potência continental, que conquistou a Concachampions três vezes em quatro anos. O goleiro disputou três Mundiais: 2007, 2008 e 2010. Sua última participação foi na derrota dos mexicanos para o Mazembe, nas quartas de final, quando estabeleceu o recorde de jogador mais velho do torneio, aos 39 anos e oito meses. Ante Covic, do Sydney Wandereres, dois meses mais novo, é o segundo colocado.

Em setembro de 2011, Calero aposentou-se do futebol profissional e trabalhava como preparador de goleiros do Pachuca, enquanto estudava marketing e administração esportiva. Ele já havia tido problemas de saúde, uma trombose venosa no braço esquerdo, resultado de uma lesão, que foi operada, com sucesso. No entanto, uma segunda trombose, desta vez cerebral, custou a sua vida, um ano depois da aposentadoria. Sua idolatria no Pachuca era tamanha que parte das suas cinzas ficassem no México, em uma espécie de santuário no clube.

O sucessor de Calero debaixo das traves do Pachuca é Óscar Pérez, veterano que começou sua carreira em 1993 (!) e defendeu a seleção mexicana nas Copas do Mundo de 2002 e 2010. Pérez, curiosamente, também tem faro de gol. Este ano inclusive: em abril, pelo Clausura, marcou de cabeça o empate do Pachuca contra o Cruz Azul, seu antigo clube.

O Coelho, como ele é chamado, sabe que o fim da carreira está próximo. “Está quase no fim, mas estou levando dia a dia. Eu disse seis meses atrás que provavelmente terminaria no Mundial de Clubes. Mas percebi que ainda posso competir e desempenhar em um bom nível. Isso me motiva a continuar. Não sei o que vai acontecer. Quero ver como fico ao fim do torneio e ver o quão bem posso jogar para decidir o futuro. Eu me sinto muito bem agora”, disse o jogador ao site oficial da Fifa.

Aos 44 anos, o goleiro improvável de 1,72 metros está a um minuto em campo de entrar na história do Mundial de Clubes, batendo o recorde de longevidade de Miguel Calero. “Sou grato a Deus e à vida por me permitirem continuar em forma. Cuidar de si mesmo é vital. Você tem que descansar bem, comer bem e fazer seu trabalho, sem exagerar. Não há segredos. Eu aprendi com um técnico que me ajudou muito e dizia: ‘Você tem que viver o futebol, não do futebol’. Eu levei isso para casa comigo e sempre tentei seguir. Eu vivo o futebol 100% e sempre dou meu melhor”, completou.

É provável que Pérez entre em campo nos Emirados Árabes. Embora tenha sido reserva na Concachampions, atuou em 12 das 17 rodadas do Apertura, cuja primeira fase terminou em novembro, com o Pachuca na 12ª posição. E, além de bater o recorde, o goleiro tem a missão de ajudar o clube a reverter o histórico fraco dos clubes mexicanos no Mundial de Clubes, que sempre chegam com a expectativa de incomodar sul-americanos e europeus, e nunca conseguem fazer nem cócegas.