A transferência de Giovani Lo Celso ao Paris Saint-Germain não demorou a se provar uma escolha errada. O prodígio do Rosario Central tinha talento para atuar em uma equipe importante da Europa, mas faltava renome. Terminou engolido em pouco tempo e precisou replanejar sua rota rumo ao Betis. A passagem pela Espanha, por sua vez, redescobriu o melhor do meio-campista. Fez uma temporada excelente pelos verdiblancos, ao se firmar como uma realidade e virar o principal jogador do clube. Foi um passo para trás que, nesta quinta-feira, se confirmou como dois para frente. O argentino chega bem cotado ao Tottenham, em negócio que eleva as condições do time.

A princípio, Lo Celso aporta ao Tottenham por empréstimo. No entanto, os ingleses já acertaram uma cláusula de permanência com o Betis. Caso os Spurs se classifiquem à Champions League 2020/21, o acordo se torna definitivo. Para tanto, a equipe terá que desembolsar £60 milhões, segundo o Guardian. É um acordo factível e que atende a própria vontade do meio-campista, após declarar semanas atrás seu desejo de atuar sob as ordens de Mauricio Pochettino.

Aos 23 anos, Lo Celso possui uma experiência razoável para a idade. A estadia no Betis não apenas ajudou a restaurar sua confiança, como também aprimorou o seu futebol em uma liga mais técnica. Sem tanto o embate físico que encarava na França, onde chegou a atuar até mesmo como volante, ganhou liberdade para avançar e criar. O argentino se transformou no maestro de um time ofensivo, sob as ordens de Quique Setién. Disputou boa parte dos jogos como meia ofensivo e contribuiu bastante na definição dos lances. Não à toa, seus números são imponentes. Anotou 16 gols em 45 aparições pelos beticos, enquanto ainda distribuiu seis assistências.

O Tottenham parece um ótimo destino para dar continuidade à evolução de Lo Celso. Também é uma equipe com proposta ofensiva, embora seu jogo seja bem mais direto do que o praticado pelo Betis. Além disso, em um meio-campo que se reconstrói diante das novas opções trazidas neste mercado, o argentino pode se adaptar de diferentes maneiras. Pochettino deverá ajudar o compatriota a encontrar o seu espaço, entre as virtudes que possui e as funções que pode assumir. Um dos pontos principais será descobrir o melhor encaixe do novato.

A princípio, Lo Celso contribui às variações de jogo de Pochettino, como segundo homem no meio-campo ou posicionado entre os meias. Está claro, porém, que aproveitar a aptidão do argentino para quebrar as linhas de marcação com seus dribles e permitir que se aproxime da área para finalizar tende a ser bem mais frutífero. Apesar de sua contribuição na pressão sem a bola, o que realmente valeu o investimento é o seu desempenho ofensivo. Portanto, caberá achar seu equilíbrio ao lado de Dele Alli, Christian Eriksen e outras opções naquele setor.

Mais importante que a titularidade de Lo Celso, no entanto, é a própria maneira como ele deixa o elenco com mais alternativas. Durante os últimos meses, o Tottenham sofreu com a falta de contratações e Pochettino precisou tirar leite de pedra, diante das recorrentes lesões. Desta vez, passará a contar com um meio-campista polivalente, que mantém o alto nível da equipe entre as possíveis substituições e garante uma cobertura mais ampla aos desfalques. E tudo isso podendo se desenvolver mais na Premier League.

O desafio físico do campeonato volta a ser uma barreira para Lo Celso. Entretanto, diante da maneira como o Tottenham insistiu no jogador, Pochettino parece ser consciente sobre os entraves que encarará. E a própria relação com o treinador argentino deve ajudá-lo na aclimatação à nova realidade. Depois da redenção com o Betis, o meio-campista recupera suas boas perspectivas e se insere na busca de ambições maiores.

Ao final, Lo Celso coroa um mercado que, se não atendeu todas as demandas do Tottenham, melhorou consideravelmente o elenco. Há posições carentes, sobretudo por falta de alternativas no comando de ataque – leia-se, um reserva para Harry Kane sem precisar deslocar outros atletas. Mesmo assim, o meio-campo ganha outra cara com a adição de Tanguy Ndombélé. Mais à frente, a diretoria tentou insistir com Paulo Dybala, o que só não se concretizou por causa dos direitos de imagem. Ao menos deu para trazer Ryan Sessegnon, um nome a ser aproveitado com o tempo.

O meia de 19 anos custou £25 milhões, um valor até abaixo das expectativas que gerou quando explodiu no Fulham. Se a participação na Premier League passada não convenceu, após brilhar na Championship, o jovem permanece como um bom prospecto para o lado esquerdo do campo. Terá a chance de deslanchar em um time bem mais estruturado e sob as ordens de um treinador que soube aproveitar o talento de outros prodígios. Assim como Lo Celso, Sessegnon vem para crescer e se afirmar em White Hart Lane.

No geral, o Tottenham ainda possui um elenco inferior aos de Manchester City e Liverpool, os dois principais candidatos ao título da Premier League. No entanto, se mostra mais preparado para encarar a maratona da temporada e igualmente com um potencial de crescimento. Se ainda não foi um mercado tão abastado em quantidade, as escolhas dos Spurs parecem muito bem feitas para manter a ascensão. Quem sabe, rendendo o almejado título em breve, que seja em alguma das copas nacionais.