Hugo Lloris defende a meta do Tottenham desde 2012. Titular absoluto ao longo destas últimas sete temporadas, o goleiro se ausentou em raros jogos pelo clube. São quase 300 partidas com a camisa dos Spurs, colocando-se entre nomes lendários de White Hart Lane. Já superou o número de presenças acumuladas por Bill Brown, referência no esquadrão dos anos 1960; se aproxima de Ian Walker, titular nos primórdios da Premier League; e já tem na mira Ray Clemence, craque da equipe multicampeã da década de 1980. Embora não some títulos, a consistência do francês o permite constar na história. Capitão, é um símbolo da ascensão dos londrinos nos últimos tempos. Um craque silencioso, que nem sempre consta entre os principais goleiros da Inglaterra, mas segue fazendo um trabalho excelente. Não à toa, foi um dos protagonistas na classificação às semifinais da Liga dos Campeões. Menos comentado que outros companheiros, também desempenhou um papel preponderante.

A temporada se prometia especial a Lloris. Mais do que o título na Copa do Mundo, o capitão da França jogou demais ao longo da competição. A patacoada na final contra a Croácia é um asterisco que pode até ter custado a Luva de Ouro, mas não diminui a maneira como ele salvou os Bleus em diferentes momentos da campanha. Valorizado, retornou ao Tottenham. Não possui o renome de David de Gea, o preço de Kepa Arrizabalaga, a badalação de Alisson, o impacto de Ederson. Ainda assim, não deve nada aos principais colegas de posição na Premier League. A consistência é o seu forte. Pode brilhar em um clássico ou outro, embora não seja necessariamente o arqueiro que coleciona milagres espalhafatosos. E a capacidade de aparecer em momentos pontuais valeu demais aos Spurs nestas quartas de final.

O gol de Son Heung-min desafogou o Tottenham no tenso duelo em Londres. Uma vitória possível apenas pela defesa realizada por Lloris nos primeiros minutos. O Manchester City teve uma chance de ouro para sair em vantagem na partida e já impor um custoso gol fora de casa. O pênalti apontado a favor dos celestes poderia escrever uma história totalmente diferente ao que foi o confronto. Pois as mãos de Lloris mudaram o curso desse capítulo. Que não tenha sido o chute mais bem colocado de Sergio Agüero, à meia altura, a bomba exigiu uma grande defesa do francês. Saltou no canto certo e teve o tempo de reação necessário para salvar sua equipe. Ao final, também garantiu a vitória por 1 a 0.

Nesta quarta-feira, o reencontro no Estádio Etihad. Assim como o restante de sua defesa, Lloris ficou vendido nos gols do Manchester City durante o primeiro tempo. Contudo, seria um dos responsáveis por conter a pressão sufocante dos celestes na volta do intervalo. Rebateu um chute difícil, à queima-roupa, de Raheem Sterling. Operou um milagre pouco depois, quando Kevin de Bruyne soltou a canhota de fora da área. E por mais que não tenha sido páreo ao petardo de Agüero, se redimiu diante do centroavante na reta final do jogo. A cabeçada livre do argentino exigiu uma defesa difícil. O veterano, outra vez, não precisou apelar para o confete. Executou uma ponte perfeita, plasticamente bonita, sem nem dar rebote. A segurança que o Tottenham necessitava, diante dos temores. Sairia vencedor, apesar da frustração salva pelo VAR nos acréscimos.

Aos 32 anos, Lloris tende a estender sua história no Tottenham por mais alguns anos. Acaba sendo o “grande clube de sua vida” e o francês só deve se despedir dos Spurs quando não mantiver o alto nível – isso se não se aposentar no norte de Londres. Por sua liderança e por sua importância nos resultados, já é um personagem histórico. E o peso de um torneio de mata-matas, como a Liga dos Campeões, valoriza esta relevância. O Ajax oferecerá outro teste complicado ao camisa 1. Mas, se depender de sua sobriedade, os londrinos podem crer em um passo além. Contra o Manchester City, o capitão foi tão vital quanto Son.