Não faz muito tempo, a passagem de Fernando Llorente pelo Tottenham parecia fadada a um final precoce. Durante o primeiro semestre desta temporada, o centroavante mal atuou na Premier League. Mesmo com os recorrentes desfalques da equipe, acumulava parcos minutos e pouco ajudava. O clube considerava vender o veterano durante a janela de inverno, com o Athletic Bilbao surgindo como um potencial comprador. Cinco meses depois, a história se transformou completamente. Llorente ficou. E não só ficou, como se tornou um pivô (no sentido figurado e também no literal) da gigantesca campanha dos Spurs à decisão da Liga dos Campeões. Embora não empilhe gols e já conviva com seu declínio, o espanhol foi o homem certo nos momentos que Mauricio Pochettino mais precisava. Predestinado à campanha repleta de façanhas nos mata-matas.

Quando Llorente chegou ao Tottenham, em 2017, vinha referendado pelos meses com a camisa do Swansea. O clube galês proporcionou uma espécie de renascimento ao centroavante, após sua passagem pela Juventus. Voltava a ser protagonista em uma equipe e se mostrava moldado ao estilo de jogo da Premier League. Os Spurs se aproveitaram da oportunidade e fecharam a contratação do veterano, uma peça útil à sua rotação. O impacto do espanhol, porém, foi mínimo em sua primeira temporada. Chegou a receber uma proposta do Chelsea no inverno, mas as intenções não saíram do papel e ele continuou no norte de Londres. Além do mais, a política austera de Daniel Levy no mercado de transferências manteve o camisa 18 no elenco. Era um a mais um dentro do grupo.

Teoricamente, Llorente seria a segunda opção de Pochettino ao comando de ataque. Com Vincent Janssen fora dos planos do treinador, o espanhol era o substituto mais cotado para as ausências de Harry Kane. Mas não foi assim que aconteceu. O Tottenham viu Son Heung-min e até mesmo Lucas Moura serem usados mais à frente, enquanto o espanhol mal acumulava minutos saindo do banco. Todavia, entre as participações apagadas, mostrou como poderia ser útil já na fase de grupos da Champions. Harry Kane ressuscitou o time ao comandar a virada sobre o PSV em Eindhoven. Llorente, no entanto, também ajudou a mudar aquela partida. Saiu do banco e, três minutos depois, deu a assistência para o primeiro tento do companheiro.

O mês da virada a Llorente, entretanto, aconteceu em janeiro. No dia 4, ele foi titular contra o Tranmere Rovers na FA Cup e anotou um hat-trick. Parecia daqueles jogos para se reapresentar ao mercado. Mas tudo mudou dias depois, quando Harry Kane lesionou o tornozelo. Son era outro desfalque por causa da Copa da Ásia e, assim, o espanhol se tornou imprescindível aos Spurs. Ganhou novas chances como titular, emendou uma sequência com gols e assistências, contribuiu para a manutenção do time no Top Four da Premier League. E sua noite mais relevante aconteceu justamente na Liga dos Campeões. Fechou o placar nos 3 a 0 contra o Borussia Dortmund, que encaminharam a classificação às quartas de final.

O retorno de Harry Kane diminuiu os minutos de Llorente, mas claramente o moral do centroavante tinha se elevado. Não à toa, passou a entrar em quase todos os jogos dos Spurs durante o segundo tempo. E a infelicidade dos companheiros permitiu que o camisa 18 cumprisse seu dever, com atuações heroicas na Champions. Ou como se esquecer da maneira como ele seria iluminado no Estádio Etihad, anotando o gol da classificação contra o Manchester City? Não seria a melhor atuação do veterano, nem de longe. Ainda assim, era exatamente aquilo que o time precisava, entre as bolas longas e os cruzamentos. Meio sem querer, viu a sorte ficar ao seu lado.

E tudo conspirou novamente para Llorente contra o Ajax. Não funcionou durante o primeiro jogo, em Londres. Diante da falta de conexão ofensiva do Tottenham, as bolas longas ao homem de referência pouco adiantaram. Contudo, Llorente seria capaz de mudar os rumos do confronto (e da história da Champions) em Amsterdã. Com o cenário que se desenhava aos Spurs, precisando de três gols, era necessário ter um homem de área. Llorente entrou logo na volta do intervalo, suplantando Victor Wanyama. Virou um alvo óbvio em meio à pressão dos ingleses. E também um tormento aos defensores do Ajax.

Aí é que está a importância de Llorente. Você pode citar inúmeros centroavantes que anotam mais gols. O espanhol, entretanto, se destaca por seu papel solidário. Era o cara para brigar pela bola lá na frente. E como brigou. Foram 13 disputas ganhas pelo alto em míseros 50 minutos, quase o dobro que todos os outros jogadores do Ajax durante a etapa complementar. Deu mais seis finalizações, inclusive a que rendeu um milagre de André Onana para o segundo gol de Lucas. Mas desta vez o veterano não seria o protagonista. Ele receberia o prêmio de melhor ator coadjuvante, pelas bolas que ganhou lá na frente. Por ter ganho a bola mais importante da história europeia dos Spurs. Aparou com o joelho o lançamento de Moussa Sissoko e deslocou Matthijs de Ligt, abrindo o caminho ao tento milagroso nos acréscimos.

Llorente já tinha brilhado em outras competições continentais. A torcida do Athletic Bilbao, mesmo se sentindo traída meses depois, nunca se esquecerá dos gols do artilheiro rumo à final da Liga Europa 2011/12. O centroavante jogou demais naquela campanha. Pela Juventus, também fez parte do grupo rumo à final da Champions 2014/15. No entanto, seu desempenho mais importante é mesmo com o Tottenham. Até pela maneira como se reinventou. Independentemente do que acontecer na final em Madri, os Spurs precisarão reconhecer o valor do veterano. Suas virtudes se casaram perfeitamente às necessidades do time, e renderam frutos. Talvez não seja assim contra o Liverpool. Mas culminou em resultados essenciais nos momentos em que os londrinos estavam mais ameaçados – sobretudo contra PSV, Manchester City e Ajax.

Depois de tantas ameaças, pode até ser que o futuro de Fernando Llorente não se desenrole em White Hart Lane. Seu contrato chega ao fim em junho. Por enquanto, esse é um assunto para depois. O espanhol está em seu direito de desfrutar uma inesperada idolatria e a gratidão pelos serviços prestados. Os torcedores dos Spurs sabem que talvez não fosse possível sem ele.