O Liverpool ainda lambia as feridas da derrota na decisão da Champions League quando, meio de surpresa, pela ausência de especulações na imprensa, anunciou a contratação de Fabinho. Parecia um bom nome: talentoso, ainda jovem, mas campeão francês e semifinalista da principal competição europeia pelo Monaco. O brasileiro precisou de um tempo para se adaptar. Depois de um começo devagar, porém, tem se tornado uma parte importante da equipe de Jürgen Klopp, atingindo o ápice (por enquanto) na vitória por 3 a 1 sobre o Manchester United, no último domingo.

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Fabinho estava em todos os lugares. Recuperando a bola ou chegando ao ataque para decidir. Foi dele a assistência perfeita para o primeiro gol, de Sadio Mané, em uma jogada planejada por Klopp. “O plano era correr riscos, ser corajoso e passar a bola por cima das linhas. Aliás, o primeiro gol que marcamos, praticamente, se tivéssemos desenhado antes do jogo, seria esse o gol”, disse, à Sky Sports, depois da partida. Das 36 finalizações do Liverpool, Fabinho foi responsável por cinco, atrás apenas de Roberto Firmino, com nove. Ele ainda foi o segundo jogador com mais desarmes (três versus cinco de Clyne).

“Fabinho foi espetacular”, disse o técnico do Liverpool. “Absolutamente espetacular. Jogou no nível mais alto”. Contra o Napoli, no meio de semana, Fabinho foi reserva. Klopp tem aproveitado a profundidade do elenco vermelho para rodar os seus jogadores, uma tentativa de evitar o que aconteceu em outras temporadas: perder fôlego nos momentos decisivos ou atingir o auge de desempenho antes deles.

“É o coração e a alma do jogo que precisamos. E enquanto pudermos fazer essas mudanças, vamos fazê-las. Eles têm pernas frescas e mente fresca. O banco é muito forte. Nós trocamos dois jogadores de meio campo, depois do jogo mais intenso da temporada contra o Napoli, e isso ajudou muito. E, então, eles tiveram um jogo como o de Fabinho, junto com Wijnaldum, fantástico, Naby jogou com muita esperteza”, completou.

Fabinho não atuou nas primeiras oito rodadas da Premier League. Sua estreia foi um minuto contra o Paris Saint-Germain, pela Champions League. Uma semana depois, foi titular pela primeira vez, contra o Chelsea, pela Copa da Liga Inglesa. Um período de adaptação. “Ele teve que se adaptar ao estilo de jogo e, se você visse Fabinho no Monaco, ele era cheio de confiança. Chegou a um novo clube e depende um pouco da sua personalidade. Ele não é a pessoa mais barulhenta do planeta”, explicou Klopp. “Não é que ele chega e diz: ‘sentem-se, vou explicar como fizemos no Monaco para chgar à semifinal e ser campeão francês’. Ele é mais reservado, observando, absorvendo e sempre demora um pouco mais de tempo”.

A declaração foi em 23 de outubro, na véspera da partida contra o Estrela Vermelha, pela Champions League. No fim de semana seguinte, Fabinho seria titular pela primeira vez na Premier league, contra o Cardiff. Desde então, são seis partidas desde o início em oito rodadas do Campeonato Inglês, sem ser substituído e aproveitando bem a mudança de sistema do time do Liverpool.

Por diversos motivos, Klopp decidiu mudar. O 4-3-3 serviu bem durante muito, mas ele vem adotando o 4-2-3-1, ou, quando menciona, o 4-4-1-1 – é uma diferença de nomenclatura: os pontas ficam na altura da linha de meio-campo, sem a bola, e, com ela, mais avançados. A motivação principal foi tentar deixar a equipe mais criativa, incluindo Shaqiri ao trio de ataque. O suíço, capaz de passes diferentes, mais aguçados, tem sido aberto pela direita, com Firmino como camisa 10 e Salah mais centralizado.

O efeito colateral dessa mudança é que, agora, em vez de um volante atrás de dois meias centrais, o Liverpool atua com dois jogadores de meio-campo quase na mesma altura do gramado. É como Fabinho jogava no Monaco, ao lado de Bakayoko ou João Moutinho. Permitiu que ele ficasse mais confortável. Dessas seis partidas como titular na Premier League, cinco foram com essa nova formação. Inclusive contra o Manchester United: Keita atuou aberto pela esquerda, Mané na direita, e Fabinho teve a companhia de Wijnaldum pelo meio. Ficou um pouco mais recuado que o parceiro, mas, como o Liverpool dominou a partida, teve liberdade para chegar bem ao ataque.

O caso de Fabinho é um exemplo de paciência. Mesmo jogadores que parecem prontos às vezes precisam de tempo para se adaptar a um novo estilo de jogo, a um novo campeonato, a uma nova cultura. O Liverpool esperou o quanto precisou para tirar o melhor do volante brasileiro. E começa a ser recompensado.