Questionamentos a respeito de violações de direitos humanos, trabalho escravo e a maneira como o Catar trata a população LGBT surgiram assim que a Copa do Mundo de 2022 foi concedida ao país do Oriente Médio – sem falar na compra de votos. Não apenas foram insuficientes para convencer a Fifa a transferir a sede, como a entidade seguiu marcando torneios para o local, e agora o Liverpool está precisando lidar com alguns desses problemas na preparação para a viagem ao Mundial de Clubes no fim do ano.

Segundo o site The Athletic, o clube recusou o hotel Marsa Malaz Kempinski, reservado a ele pela Fifa, depois que sua própria checagem descobriu notícias preocupantes. Uma reportagem do Guardian, publicada em outubro do ano passado, colheu relatos de diversas violações de direitos dos funcionários que fazem o estabelecimento de elite funcionar.

De acordo com o jornal inglês, eles pagaram recrutadores para trabalhar no Marsa Malaz Kepinski, prática comum no Catar, e contraíram dívidas que os deixam em posição vulnerável. Fazem turnos de 12 horas, ganhando abaixo do salário mínimo do país e muitas vezes debaixo de temperaturas muito altas, e alguns relataram que trabalharam três ou quatro meses sem um dia de folga.

A Fifa e outras organizações, como a Uefa, reservam hotéis assim que as sedes de seus torneios são definidas e as repassam aos clubes. Segundo o The Athletic, tanto a entidade mundial do futebol quanto autoridades do Catar responderam às demandas do Liverpool com prontidão.

Além disso, o clube buscou garantias com as autoridades de que seus torcedores da comunidade LGBT seriam bem tratados – ser homossexual é crime no Catar – desde que respeitem “as tradições locais”. Em seu site oficial, o Liverpool publicou uma série de orientações para quem decidir acompanhar o time, como regras de vestimenta, consumo de álcool e até a demonstração de afeto em público, mesmo para casas heterossexuais.

Como relações sexuais fora do casamento também são proibidas no Catar, o clube sugeriu que casais coloquem suas certidões de casamento na mala porque o hotel pode exigi-la na hora do check-in. “Não precisamos dizer que, junto com o time, nossos torcedores foram nossa prioridade. Ouvir suas preocupações e resolvá-las sempre que possível”, disse o executivo dos Reds, Peter Moore. “Recebemos garantias de que nossos torcedores LGBT serão bem-vindos no Catar, o que era de vital importância para nós, como clube, dado nosso longo comprometimento com diversidade e igualdade”.

“Primeiramente, não escolhemos a localização dos torneios”, continuou Moore, provavelmente antecipando questionamentos sobre a participação do Liverpool em um torneio realizado em um país que obriga mulheres a cobrirem os ombros e os joelhos sempre que estiverem em público. “As entidades fazem suas escolhas e os times jogam nas cidades escolhidas. Neste caso, significa ir ao Catar, país que será um território novo para o Liverpool e sobre o qual aprendemos muito desde que nos classificamos. Como muitas pessoas, eu tinha ciência dos problemas do Catar, mas fico satisfeito em dizer que, como clube, nos esforçamos não apenas para entendê-los, mas, mais importante, para lidar com aqueles que têm experiência no assunto”.

“Acho que é importante termos a humildade, como clube de futebol, de que somos um clube de futebol antes de tudo. Não somos uma organização política e não é nem nosso lugar, nem nossa ambição, ir de país em país forçando nossos valores e crenças em outras pessoas. Temos nossos próprios padrões e é nossa responsabilidade garantir os sigamos e que todos com quem trabalhamos estão cientes deles, mas qualquer coisa além disso seria inapropriado”.

“Se o envolvimento do nosso clube de futebol, ou de qualquer outro clube de futebol, ajudar a promover mudanças positivas, eu seria o primeiro a achar bem-vindo, mas isso não deveria ser a medida do nosso envolvimento”, encerrou.