O Liverpool não chegou ao ponto de colocar em dúvida sua participação no Mundial de Clubes, e gosta de reforçar que se trata de uma instituição esportiva, não política, mas tem adotado uma postura combativa em relação às acusações de violações de direitos humanos contra o país-sede Catar. Depois de recusar um hotel acusado de violar direitos trabalhistas e cobrar garantias a torcedores LGBT, o clube, segundo o jornal inglês The Guardian, questionou o comitê-supremo, órgão organizador do Mundial e da Copa do Mundo de 2022, sobre o status da investigação da morte de dois trabalhadores imigrantes.

A posição do Liverpool foi expressa em uma carta do executivo-chefe Peter Moore aos diretores da organização de direitos humanos Fair/Square, Nicholas McGeehan e James Lynch, que pediram que o clube fizesse uma declaração pública com ressalvas às mortes e aos direitos dos trabalhadores no Catar.

Moore decidiu não fazer uma declaração pública, mas, em carta aos dois diretores, contou que buscou “detalhes de bastidores” sobre o status da investigação da morte do imigrante do Nepal, Rupchandra Rumba, 24 anos, encontrado sem vida em seu alojamento enquanto trabalhava no estádio Education City, que originalmente seria o palco da semifinal dos ingleses, da disputa do terceiro lugar e da final. Também cobrou o progresso da indenização à família de Rumba.

Quando a Fifa se viu obrigada a mudar esses jogos para o estádio Khalifa International, porque o Education City ainda não realizou eventos testes, o Liverpool também discutiu com o comitê-supremo o andamento da investigação à morte do britânico Zac Cox, em janeiro de 2017, após uma queda de 40 metros no estádio Khalifa.

Segundo um legista britânico, Cox trabalhava em um ambiente “perigoso” e havia recebido equipamentos de segurança “abaixo do padrão”. No caso de Rumba, seu certificado de óbito traz a causa “falha aguda cardíaca e respiratória devido a causas naturais”, que segundo os diretores da Fair/Square “não é uma causa de morte certificável, o que mantém a morte de Rupchandra sem explicação”. McGeehan e Lynch pedem que os efeitos do extremo calor do país do Golfo sejam investigados.

“Como qualquer organização responsável, apoiamos sua afirmação de que qualquer morte sem explicação precisa ser investigada e que famílias em luto devem receber a justiça que merecem”, escreveu Moore aos dois diretores. “Também acreditamos que os funcionários precisam ser tratados com justiça e respeito, que é porque aderimos à nossa própria política anti-escravidão e porque estamos comprometidos a pagar um salário que cubra o custo de vida real, entre várias medidas desse tipo. Esses são os padrões que estabelecemos para nós e pelos quais esperamos ser julgados porque eles estão dentro das nossas responsabilidades”.

“No entanto, continuamos sendo uma organização esportiva e é importante que não sejamos arrastados a problemas globais com base em onde nosso envolvimento em diversas competições dita o local dos nossos jogos. Ao mesmo tempo em que respeitamos e entendemos os motivos de vocês pedirem uma declaração pública, esperamos que vocês respeitem e entendam por que sentimos que essa não seria uma medida apropriada”.

“Já tendo afirmado que não visitamos nenhum país com o objetivo de causar mudanças, mas que qualquer mudança positiva seria bem-vinda, gostaria de aproveitar a oportunidade para reiterar essa mensagem em particular”, encerrou.